Crítica Teatral
Cá e lá: Absurdo em cena
Enfim, as peças, que estão imperdíveis tanto em Lisboa, quanto em São Paulo, se encerram no fim do mês de maio. Me parece que é uma oportunidade ímpar de através de dramaturgos do século XX, compreendermos um cadinho mais o nosso agora que se desmancha.
Por gabriel m. barros
Há algo de insólito no mundo diante de nós. Algo que nos escapa, que não se explica, nem se entende e, no fundo, nem se aceita. Por isso, talvez, tantos em estado de negação, construindo, deliberadamente, suas próprias prisões e entorpecimentos, com o acréscimo do advento da pós-verdade: se crê no que se quer e ponto.
Na dramaturgia contemporânea se tem tentando dar conta disso. Na última crítica que registrei há, por exemplo, essa alusão ao non sense que a realidade vai sendo posta, porém sempre como algo extremo, externo, forçado enfim.
Contudo, há um movimento artístico que fez do absurdo o seu suporte e o abraça como matéria-prima e eixo: o teatro do absurdo. Óbvio que essa convenção e denominação foi menos daqueles que o fizeram e muito mais de uma crítica empenhada em colocar nos mesmos moldes movimentos que nem sempre são iguais. Em todo o caso, faço uso desse molde aqui.
Duas peças absurdas estão em cartaz em localidades distintas: Fim de partida, de Samuel Beckett, no teatro Paulo Autran, do Sesc Pinheiros, em São Paulo; e Ascadeiras, de Eugène Ionesco, no teatro da Comuna, em Lisboa. De um lado, o absurdo de um espaço que tem destruído, literal e simbolicamente, a sua cultura através dos seus representantes políticos; do outro – que conheço bem menos, é verdade –, um lugar de incoerências em que a câmara municipal, por exemplo, retira árvores de uma determinada localidade, alegando que depois plantaria outras e levaria algumas delas para outros lugares, o objetivo é de criar um estacionamento subterrâneo.
Se Beckett e Ionesco tentaram explicar, ou colocar em cena, um mundo pós-guerra, me parece que o teatro contemporâneo tem tentado dar conta desse tempo que se espatifa e duma desertificação do viver e do sentir.
Em Fim de partida, dirigido por Rodrigo Portella, que tem feito escolhas ousadas de textos para dirigir, e sempre contando com grupos de atores impecáveis, a aposta é na construção do silêncio, tão caro e tão raro nas encenações. O espetáculo explora as várias facetas do silêncio, que pode ser reflexivo, provocativo, inquietante e também cômico. Com um cenário belíssimo, feito pela Daniela Thomas, e uma iluminação arrojada de Beto Bruel, com operação de Julio Greghi, a peça tem tons claustrofóbicos de um quarto sem nada, teto baixo, e duas latas de lixo no exterior. A trilha, composta por Federico Puppi, ajuda a criar esse tom de que nada acontece ao mesmo tempo que está acontecendo (como sinaliza uma das personagens) e prenunciando que vai acontecer.
Em As cadeiras, com direção de João Mota, é a verborragia que toma conta, num fluxo de conversação e monólogos que não há espaço para muito mais, a não ser com leves momentos em que poucos sons, feito por Hugo Franco, se fazem presentes, sobretudo de uma campainha, sinalizando que os convidados, todos esses invisíveis ou imaginados, como queiram, vão se achegando e mais cadeiras precisam ser colocadas. Assim um espaço pequeno vai se tornando cheio na cenografia feita por Renato Godinho e também pelo diretor. As luzes, de Paulo Graça, se mantêm até o momento que se acionam uns flashes para dar conta da grande movimentação dos atores em cena.
Do ponto comum entre os textos pode-se destacar o lugar da repetição e do quanto elas vão sendo alargadas e tendo novos sentidos a maneira que vão sendo enunciadas ao longo dos espetáculos. As duas criam ambiências angustiantes, uma, Fim de partida, pelo vazio e a incrível suspensão do tempo, nesse imenso indicativo de que algo vai acontecer, e a personagem na cadeira de rodas afirmando que está acontecendo; na outra, As cadeiras, com o anúncio de que um orador chegaria e discursaria um método que revolucionaria o mundo, o método definitivo, para uma audiência que contava até com o rei, e esta personagem só chegando ao fim, numa espécie de deus ex-machina comprovando que o delírio não era em si delírio. De um ponto que parece divergentem contudo os dois espetáculos se encontram, se tem em Fim de partida um mundo perdido, sem natureza, sem outras pessoas, isolamento; já em As cadeiras há uma leve esperança, uma mensagem a se deixar ao mundo, mesmo tudo em volta tomado por água; nos dois casos o mundo parece ser confinado.
Agora, no que tange as atuações, que trabalho primoroso dos atores de cá e lá: Marco Nanini, Guilherme Weber, Helena Ignez e Ary França – em Fim de partida –, e Custódia Gallego, Manuel Coelho e um terceiro personagem revezado entre João Mota e Carlos Paulo –em As cadeiras –, não são a cereja do bolo, mas uma festa inteira. O que Weber faz com seu corpo em cena deveria ser analisado de perto por outros atores para verificarem a construção de personagens. A sintonia entre Gallego e Coelho, as mudanças de expressão, o ritmo ágil, divertido e outras vezes aflito que constroem é fabuloso de se ver. Nanini, mesmo sentado em uma cadeira de rodas o espetáculo todo faz o público tremer com sua voz e apenas os movimentos dos braços, mostrando que é um gigante em atuação. A versão que assisti contou com Paulo no papel de orador e, realmente, que incrível ver como uma presença em cena mesmo sem dizer uma palavra promove toda uma suspensão no ar. Ignez e França aparecem pouco, mas são formidáveis e engraçadíssimos, colocam o clima da peça em outro lugar.
Enfim, as peças, que estão imperdíveis tanto em Lisboa, quanto em São Paulo, se encerram no fim do mês de maio. Me parece que é uma oportunidade ímpar de através de dramaturgos do século XX, compreendermos um cadinho mais o nosso agora que se desmancha. Da minha parte, não pude deixar de ver esses dois trabalhos espetaculares!

