LIVRO OU MORTE

Por Igor Horbach

No dia da independência do Brasil no ano de 2021 estou sentado próximo da janela do meu quarto escrevendo esse texto e pensando em como estamos vivendo tempos sombrios não só no ambo político estritamente, mas na sociedade de forma geral. Tudo bem que tudo é político, mas me refiro a questão de sobrevivência.

Nas redes sociais vi no dia 7, muitas pessoas compartilhando imagens da bandeira ou fotos com as cores verde e amarela dizendo-se orgulhosos da nação em que vivem. Como os estado-unidense no 4 de julho. Fomos bombardeados com as notícias na mídia das manifestações a favores do presidente ao redor do país, do atentado à democracia que ele fez pela manhã e a única coisa que me passa pela cabeça é: orgulho do que?

A história do Brasil foi concretada em cima de sangue e ossos humanos. Sangue indígena e africano que foram escravizados por anos. Os verdadeiros brasileiros, esses que falam tupi-guarani e tantas outras línguas, assistiram ao ouro sendo roubado, a sua casa ser destruída e levada em caravelas cheias de madeira. Tudo isso, de mãos atadas. Foram obrigados a ver suas companheiras sendo forçada a atrocidades enquanto que seus companheiros eram acorrentados e chicoteados por quilômetros. É disso que sentimos orgulho?

O slogan mais falso do planeta de “ordem e progresso” tarjado entre o azul do céu estrelado do brasão de uma nação foi esculpido com mãos sujas de sangue. O amarelo é uma lenda criada pelos ladrões que afirmam ter visto, enquanto carregavam para bem longe a cor da alegria e simpatia. O verde foi arrancado pelas raízes por mãos calejadas de uma população obrigada a apagar suas culturas e marcas. Onde está o progresso e a ordem?

O grito de independência ou morte não é de uma vitória da guerra, mas da última condenação. O polegar negativo da jugular da morte de uma cultura inteira.

Ouvi dizer que voltar em 1500, quando fomos invadidos pelos europeus é ‘radicalizar’ muito o assunto e que passado é passado, contudo, a resposta para esse pensamento medíocre é tão simples que nem parece verdade. Um passado manchado com sangue implica em um futuro marcado pelo desiquilíbrio.

Se em 2021, o ano em que os seres humanos conseguem chegar em Marte ou que descobrem a cura de um vírus mortal, somos representados por um homem (se é que podemos chama-lo assim) que grita: Menos feijão e mais fuzil, é porque

temos um passado mergulhado no sangue inocente. É porque esquecemos das raízes que construíram esse enorme pau-brasil.

Quando em 2021, assistimos as portas de livrarias pelo país sendo baixadas para nunca mais voltarem a subir, e em um piscar de olhos temos as buzinas da intervenção tomando as ruas é porque em 521 anos de história não sabemos o significado de “tortura”, “morte”, “independência” e muito menos de “vida”. Então, volto a perguntar, sobre o que se orgulhar?

O título do texto “livro ou morte” é uma referência ao jargão mais criminoso já dito por um europeu em terras latino-americanas, mas que agora uso como um espelho para virar o seu significado empírico. Em um Brasil de propagação de ódio, vingança, egocentrismos e bajulação, coberto pelas cortinas de fumaça jogadas por todos os lados, os livros são sinônimos de independência, democracia e evolução. E correr contra esses três poderes é nos prender na guilhotina francesa.

A partir do momento em que mais de 50% da população de um país não presa por sua independência educacional, se transformando em engenheiros, médicos, artistas capazes de experimentar o que o mundo tem de melhor; que não luta por sua democracia de direitos de viver e ser respeitado; e que não evolui para consigo mesmo e com os outros, é uma sociedade cujo a letargia será um processo secular ao qual o destino final é uma morte lenta e dolorosa.

Estamos sendo o palco do entretenimento humano ao redor do globo em tamanha irresponsabilidade imoral e ignorância infantilizada. Os holofotes estão curvados sobre nós para que as risadas da plateia aconteçam. A mesma plateia que nos tirou das essências brasileiras. Enquanto o nosso ‘bobo da corte’ grita aos sete ventos que a arma alimenta e o feijão corrói.

Alguns sites na internet listam a palavra livro como um objeto transportável, composto por páginas encadernadas contendo textos. Eu, atribuo o significado de liberdade, enriquecimento e principalmente poder. É com um conjunto de livros que somos poderosos em palavras, pensamentos e ações. Uma mente que se ilude que o poder está nos números da conta bancaria não passa de uma psique fracassada, imatura e pequena.

A educação transportada pelos livros é a verdadeira interpretação de independência. A nossa liberdade só está em risco quando acreditamos que balas de metal e aço atiradas por canhões de calibri 38 e similares são os poderes mais fortes. Se temos muitos livros, sejam eles de papel ou virtuais, temos o maior vitral de força.

Então, se você sente orgulho da ordem que seguimos e do progresso que alcançamos, o fracasso corre em suas veias como o sangue dos inocentes correu pelas praias baianas em 1500. A sua liberdade não existe mais e a sua psique lhe condena a letargia eminente. É melhor correr contra o tempo, antes que apontem em sua direção com o polegar para baixo, que não é de dislike, mas de sentença eterna. E ele não será através de uma luta de espadas romanas, mas de um estomago vazio há semanas, de um corpo sem água há dias, de um pulmão destruído por um vírus ou de uma bala de aço alojada no crânio.

É com essa reflexão que passo o meu “dia da indecência”. O meu 7 de setembro vai ser usado em memória daqueles que tiveram seus corações caçados e entregue a “rainha má”. E essas lembranças serão vingadas com o maior ato de rebeldia: a liberdade. Portanto, LIVRO OU MORTE.

Igor Horbach

É autor, ator, dramaturgo e produtor brasileiro. Nascido em Tangará da Serra – MT, publicou seu primeiro livro aos 14 anos e o segundo aos 16. Em 2017 se mudou para Curitiba onde iniciou sua carreira de ator, produtor e dramaturgo. Em 2019, produziu e dirigiu a serie Dislike. Em 2020 publicou seu drama de estreia, Cartas para Jack. Em 2021 lançou a série de contos intitulada Projeto Insônia.

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