Deleuze e a Televisão: A arte como expressão do devir

Por Camila Zendron de Marília-SP

Em antropologia é comum repetir e parafrasear um conhecido funcionalista britânico, Evans-Pritchard, quando se imbrica na delicada arte de tentar compreender o tal do humano, que diz que: a arte é provavelmente a forma mais próxima que podemos chegar de compreender o humano e suas culturas (depois, obviamente, ele vai dizer que vem a antropologia, ciência que pretende se dar à essa função dentro de um contexto acadêmico) .

Vez ou outra me deparo com a veracidade dessa máxima, afinal, é na subjetividade artística que encontramos os vieses do impalpável à realidade racionalista e intelectual da mente científica. Pois bem, meses atrás um jovem artista curitibano, que conheci nos meus tempos de produtora, me enviou pelas redes sociais uma composição com um título um tanto quanto provocador: Deleuze e a Televisão. Obviamente, a minha primeira reação foi dar um sorriso de canto de boca e pensar indiscretamente: “que guri mais ousado, ouçamos”. E ao ouvir… algo aconteceu em meu interior, explico: Deleuze foi e é um dos meus autores de diálogo e à priori, como toda boa pesquisadora gabaritada na sutil arte da arrogância acadêmica, tudo aquilo que toca o montante dos meus diálogos em pesquisa irá invariavelmente passar pelo crivo do meu julgamento, ainda que não declaradamente (que perdoem os cristãos, mas é inevitável o hábito).

Pois bem, qual não foi a minha surpresa ao perceber que ali, em poucos versos e alguma melodia estava a arquitetura de uma crítica a um dos pós-estruturalistas mais citados nas construções filosóficas antipragmáticas e desestruturantes da contemporaneidade, o gênio francês anti-edipiano, que atravessa concepções máximas das estruturas clássicas na sociedade moderna.

Sim, era muita ousadia, mesmo. A começar pelo título: “Deleuze e a Televisão”, uma notória alusão a famosa série documental de entrevistas com o próprio filósofo, intitulada: O Abecedário de Gilles Deleuze, que, apesar de na letra T, a palavra ser Tênis (esporte admirado pelo autor) e não televisão, a tal série foi feita para a própria televisão. O mais irônico é que, poeticamente, Elían Woidello (o autor da tal composição) traça uma sútil e profunda crítica à construção desconstruída pós-estruturalista de desejo (a letra D do abecedário de Deleuze), afinal, boa parte da obra do autor, sobretudo aquela que ele desenvolveu em conjunto com o seu colega psicanalista, Félix Guatarri, fala primariamente sobre um outro olhar a respeito e ao revés das concepções edipianas de Freud sobre o desejo e suas estruturas psíquicas e geradoras de abalos mentais. Ora, Deleuze e a Televisão é notoriamente sobre desejo, a canção desenrola-se quase que numa forma de crônica sobre os ímpetos de uma pulsão que persegue paradoxos emocionais, existenciais, geográficos, cotidianos e culturais, não deixando de traçar uma auto-crítica sobre essa própria ideia de desejo remetendo a tantos elementos díspares do espaço-tempo contemporâneo do lugar social em que esse pulso ferve sobre àqueles que pensam e discorrem sobre essa mesma construção anti-edipiana. Pois enquanto Deleuze analisa o desejo sobre o fato de não ter um viés isolado (não se deseja algo mas o todo que envolve esse objeto de desejo), o músico vai levar a subjetivação teórica para um nível de concretude emocional: “Deleuze e a televisão ficaram sobre estante”, ou seja, compreender o desejo vai além de construção filosófica, enquanto eu sinto o desejo, a teoria e sua manifestação (Deleuze e a Televisão) foram legadas ao lugar de não ação (sobre a estante), então o Eu lírico manifesta o paradoxo desse desejar anti-metafísico (“não resta nada mais, tudo mais para eu falar”) e nos brinda com a materialização do desejo: “você tem um par de pernas incessantes a cruzar”.

Assim, podemos perceber, que a arte musicada, através da sutileza e profundidade desta obra de Elían Woidello, ela não só vai ao encontro da natureza humana, mas para além de uma filosofia psicanalítica, ela atravessa conceitos chaves do pensar em humidades e questiona as construções do pensar sobre o sentir. ‘Deleuze e a Televisão’ é sem sombra de dúvidas uma aula, que só as Artes poderiam dar, sobre condição existencial humana.

Deleuze e a Televisão

(Elian Woidello)

Ai quem me dera a flor mais fina

Deste triste amor

Castigado numa esquina

Ao sul do Equador

Doido corpo que se move

Querendo te encontrar

Em algum boteco esquecido

Babilônia ou Calcutá

Ai se eu pudesse, se eu pudesse

Se eu pudesse te evitar

Você tem um par de olhos

Que não param de me olhar

No fundo de um cinema

Que eu nunca assisti

Cabrocha feito Rocha

Torre traçada por Gaudí

E essa ponte que não leva

A lugar nenhum

E esse vinho barato

Com gosto de rum

Casablanca de Kurts

Marrocos tão distante

Deleuze e a televisão ficaram sobre a estante

Não resta nada mais, tudo mais para eu falar

Você tem um par de pernas incessantes a cruzar

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