Especial

A arte revelando os anseios sociais

Espetáculo Cura da Cia Deborah Colker. Crédito foto: Leo Aversa

O PÂNICO MORAL E A SOCIEDADE SUPERFICIAL EM PAUTA NA ARTE BRASILEIRA CONTEMPORNEA

Por Igor Horbach

Acordar as 06h da manhã para ir trabalhar, entrar em um ônibus –teoricamente- público (depois de pagar R$5,50 na passagem) e nem sequer olharmos para as pessoas ao nosso redor. Quantas vezes você já não fez isso? Eu, mesmo, sou um que sempre estou perdido nos próprios pensamentos e nunca presto atenção nas pessoas que também estão indo na mesma direção que eu.

Nunca percebemos quais sãos seus sonhos, seus problemas, suas angustias ou suas felicidades. Das poucas vezes que me permiti olhar de verdade para quem estava do meu lado, senti o bloqueio forte como uma rocha, um cimento puro e concretado entre dois seres humanos desconhecidos. O celular, o feed do TikTok, se torna aquilo que nos importa, o outro da tela que nos relacionamos sem ao menos sentir a sua verdadeira presença física.

É nessa relação que nossas ideologias atuais estão estabelecidas e firmadas. A presença não importa mais desde que o audiovisual esteja presente. O audiovisual na sua forma mais putrificada: 30 segundos. Queremos contar histórias e construir relações em 30 segundos, sendo que talvez o mais desesperador disso tudo é que tenhamos conseguido. Mas afinal de contas, que tipo de relação estamos construindo?

Fazendo essa introdução longa da coluna de hoje, a proposta é nos fazer refletir sobre como estamos vivendo de uma maneira tão superficial que nos perdemos nos próprios anseios. Cada dia que passa estamos sentindo medo de realidades diferentes que nem sequer podem existir em um futuro próximo, como por exemplo, o medo de uma radicalização da sociedade comunista tomar o país se um novo governo de esquerda for eleito no final do ano.

As nossas ideologias e culturas estão sendo pregadas no muro de Berlim que nós mesmos estamos construindo. A barreira entre o SER e a MORAL é dura e parece imortal. O que nós somos de verdade e o que nós construímos moralmente? Como você olha para as pessoas ao seu redor dentro do ônibus, quem você julga ser uma pessoa do “bem” e quem você julga ser um potencial ladrão que te passará a rasteira para levar o celular do ano embora no próximo ponto?

Rodeando, como sempre, para chegar ao tema que quero discutir hoje, sendo a primeira parte sobre o Pânico Moral. Aposto que você já conversou com alguém – principalmente em 2018 – que dizia temer que o Brasil se tornasse a Venezuela se o PT vencesse as eleições. Pessoas que xingam as outras de ‘comunistas’ como se fossem ofensas. Essa marginalização do pensamento anticapitalista vem com força a partir das últimas eleições onde o sistema atual é estabelecido e impulsionado pela moral protestante que nasceu no berço da ideologia religiosa evangélica. Não é de se preocupar que nos últimos 4 anos o número de batizados nas igrejas evangélicas tem quase que dobrado.

A troco de que essas pessoas buscam o supremo Deus Protestante? Os números crescentes é apenas um reflexo do medo – escravização do pensamento – que a sociedade vem sofrendo de se viver num mundo onde as pessoas são livres para serem, pensar e agir como querem. De construir uma nação enraizada com foco em seus trabalhadores. A classe poderosa (não dominante, já que não é a maioria) – burguesa – que se fortalece no discurso teológico cristã-protestante, teme pelo fim da escravidão da massa. Ou você acha que por ter direito a R$1.210 todo mês + 13º + férias você deixou de ser um escravo do capitalismo?

“No Comunismo não há estado, e sim a associação livre de trabalhadores em sociedade” (Sabrina Fernandes – Tese Onze)

Quando os burgueses brasileiros percebem a crescente libertação crítica e de pensamento da população brasileira depois de quase uma década com um governo esquerdista no poder, o desespero de ter que dividir seu patrimônio igualmente com quem o produziu (trabalhadores) grita tão forte, que não se importa mais se o próprio produtor – e consequentemente – consumidor, vai ser morto, seja simbolicamente ao perder seus direitos básicos civis (moradia, alimentação, saúde, vestimentas, compras etc), ou a morte de verdade.

Santely Cohen cria o conceito de Pânico Moral em 1972 que significa, simplificando, quando algo pequeno é tratado de uma forma sensacionalista e distorcido para aparentar um risco a ordem social e moral. É exatamente isso o que acontece quando temos a disseminação de fake News sobre o “Kit Gay”, “Mamadeira de Piroca” entre outros milhares que surgiram por aí nos últimos anos. Cria-se uma mentira suja, sem fundamentação alguma, que coloca em cheque uma moral da sociedade.

Para defender princípios que ideológicos e irreais, uma vez que a “família” pelo qual tanto se ouvem falar pelos políticos não existe de fato. De qual família ele está se referindo? Das de matrimonio civil ou a de matrimonio da sombra? Essa que ele fez “pulando a cerca”? Se falamos da legalização do aborto de qual estamos falando? Do pecado que se comete ou do “pai de família” que procura aborto clandestino quando engravida a amante? Se falamos da pena de morte, de qual morte estamos condenando? Do pobre, preto e da favela que rouba um litro de leite no mercado para dar ao filho, já que teve seus direitos básicos negligenciados, e é condenado a 10 anos de reclusão ou do goleiro Bruno que mata a companheira e sai em liberdade com direito a negociações contratuais profissionais milionárias?

Todo esse medo que se é gerado na sociedade apenas prolifera e intensifica o Populismo Penal e o Punitimo Midiático (assunto que vamos tratar em outra coluna). Esse Pânico Moral serve para esconder uma realidade concreta e promover uma visão injusta e desigual da sociedade, uma vez que é uma ferramenta eleitoral poderosa para que o dedo na urna se mova com base no medo.

E o que isso tem a ver com a sociedade rasa? Tudo. Vejamos o Tiktok, o aplicativo mais popular no momento. Os vídeos de até 3 minutos foram liberados recentemente, mas antes era no máximo 1. De qualquer forma 3 minutos é tempo suficiente para que, afinal? Para nada. 3 minutos não é nada. E muito menos os comentários. Abra os comentários de um vídeo no tiktok e veja quantas palavras são digitadas. Menos de 10, te garanto.

Quantos vídeos nesse app te levaram a refletir sobre um determinado assunto a ponto de você abrir o Youtube ou o Google e se aprofundar no debate? Perceba isso em uma macro comunidade. Esse modo de consumir os produtos da sociedade reflete em todas as esferas da sociedade. A partir disso temos jovens mais indispostos a assistirem uma palestra de 1 hora, mas mal sabe ele que passou o dobro de tempo rolando o feed do tiktok com vídeos de 1 minuto.

Calculo básico: Em 1 hora se consumiu 60 vídeos de 1 minuto – eliminando outros apps, chats e mediações externas -, enquanto que 1 hora estudando corresponde a 1 palestra. Temos 60 “produtos” banais e rasos consumidos contra 1 aprofundado e importante. É nesse pilar que a sociedade está fixada.

No vídeo “Comendo da lata do lixo da ideologia” do canal Tempero Drag (usado como referência para a coluna), Rita Von Huntin estabelece 4 pilares para a sociedade capitalista atual: Produção, Consumo, Lucro e Crescimento. Quanto mais produto, mais consumo, mais lucro, mais crescimento. Esse último não é nosso, mas da burguesia (só para deixar claro). Esse ciclo inflaciona as bases das relações de maneira a expurgar as experiências. Se experiência, sem reflexão. Sem reflexão, sem pensamento crítico. Sem pensamento crítico, sem evolução. Sem evolução, sem liberdade.

Trazendo para o contexto da coluna, se ainda não ficou claro o debate, vou relatar a partir do Festival de Teatro de Curitiba 2022 ao qual tive participação ativa no consumo das peças. Por diversas vezes me peguei olhando o celular durante as apresentações – que estavam no auge dos 20,30,40 minutos – perguntando-me: Que horas será que acaba? Será que falta muito?

E isso não tinha ligação alguma com o fato de gostar ou não da peça/montagem, mas do quão enraizado está o consumo acelerado. A exemplo, na última coletiva de imprensa, estávamos diante do elenco de uma montagem com 3 horas de duração. Um jornalista perguntou como que eles viam essa impaciência do público em assistir algo tão longo e a resposta da atriz foi simples, direta e profunda: “As pessoas maratonam Netflix por mais de 6,7 horas por dia, porque não estarem ali com a gente por só 3 horas?”

Indo mais profundo no debate, a arte foi taxa e obrigada muitas vezes – principalmente agora num período quase que “pré ditadura” – a se moldar ao que a massa política queria. Vimos isso acontecer no domínio da Igreja Católica na Europa na Alta Idade Média, depois se repetir entre 1930 e 1990 quando tivemos 2 ditaduras no país e as mesmas ideologias correndo a solta pelo mundo (nazismo alemão, fascismo soviético e italiano etc), e agora em 2018. Estamos vendo livros sendo proibidos de circular livremente, filmes, músicas….

O próprio Medida Provisória (Lazaro Ramos) que foi censurado pelo governo Bolsonaro por mais de 1 ano. Mesmo fazendo arte desde os meus 14 anos, quando publiquei meu primeiro livro, ainda ouço que arte não é política. A nossa existência é política.

É política quando nos perguntamos se é certo um presidente negligenciar a compra de vacinas para a população. É política quando pensamos que no final do mês não vamos ter como pagar um boleto porque o poder de compra diminuiu, embora a quantidade de notas no bolso continua a mesma. A mulher é política quando engravida e dá a luz a um cidadão. O ser humano é ser político. A arte também é.

A arte nos afoga no mar da sensatez de uma comunidade que se afoga na praia rasa dos medos da profundeza humana. Não tememos o medo da arte, do pensamento, da emancipação. Tememos aquilo que nos aprisiona, que nos rouba o direito básico enquanto vidas existentes. Tenhamos medo do discurso pela família e pelos bons costumes, pois são esses que nos arrancaram a comida, o trabalho, a educação. Tenhamos aversão a tudo que venha de cima sem ouvir o que vem de baixo. Aquilo que eles dizem fazer por nós sem nunca ter sido nós. É necessário que coloquemos a mão no fogo das chamas do futuro incerto do que nos mantermos acorrentados aos erros do passado.

Não temos que ter medo daquilo que foi feito para nos assombrar. Na peça “Os Mamutes” de Jô Bilac, o medo do protagonista é de não ser alguém na vida aos olhos daquela sociedade destruída pelo sistema ético. A encruzilhada está entre matar um mamute (pessoa) ou morrer pobre sem emprego por seguir um princípio moral de si próprio. “Cura” de Debora Colker suplica pela salvação daqueles corpos doentes a beira da morte, mas de qual cura se refere? A esmola do burguês ou a libertação fúnebre da vida que não vê não sentido em existir sem o direito de ser?

E por aí vai as inúmeras manifestações artísticas, como ouso chamar as criações ao longo da evolução humana, que mergulham de fato no poder político-critico-social que tem nas mãos e se debruçam diante da filosofia básica da sociedade para trazer das profundezas mais longínquas o que temos medo de ver, ouvir e sentir, mas que ainda sim, mesmo que tentamos ignorar, existem e é real.

Talvez um dos meus autores favoritos, George Orwell, encerre de maneira certeira a reflexão de hoje: “Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o futuro, controla o presente.”

Que não nos permitamos sermos controlados em nenhuma esfera, instancia ou existência. Que o nosso passado seja o mau exemplo para que mudamos o futuro durante o presente e não cometemos mais o erro de sentir medo pelo que eles querem, e sim de perder o que nos é sagrado: o direito de viver.

REFERÊNCIAS:

Tese Onze para Youtube: Pânico Moral (Link: https://www.youtube.com/watch?v=2OW-1vpMqYM )

Tese Onze para Youtube: O Risco de Comunismo no Brasil (Link: https://www.youtube.com/watch?v=mgp-fi3Ajno )

Tempero Drag para Youtube: Comendo da lata do lixo da ideologia (Link: https://www.youtube.com/watch?v=AmjGn1kw97Y )

 

 

Sobre o autor

É autor, ator, dramaturgo e produtor brasileiro. Nascido em Tangará da Serra – MT, publicou seu primeiro livro aos 14 anos e o segundo aos 16. Em 2017 se mudou para Curitiba onde iniciou sua carreira de ator, produtor e dramaturgo. Em 2019, produziu e dirigiu a serie Dislike. Em 2020 publicou seu drama de estreia, Cartas para Jack. Em 2021 lançou a série de contos intitulada Projeto Insônia.
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