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Cinema

Joaquin Phoenix precisou aprender a cantar para descobrir quem era Johnny Cash

Em Johnny & June, ator aprendeu guitarra, treinou a voz e cantou as músicas de Johnny Cash. Mas o objetivo do diretor James Mangold não era transformar Phoenix em uma cópia do Homem de Preto, era encontrar o homem que existia por trás da lenda.

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em

Por redação

Joaquin Phoenix não sabia tocar guitarra.

Também não era cantor.

Então James Mangold decidiu que ele deveria fazer as duas coisas diante das câmeras.

Parece uma escolha arriscada para um filme sobre Johnny Cash, dono de uma das vozes mais reconhecíveis da música norte-americana. Mas talvez esteja justamente aí uma das razões pelas quais Johnny & June (Walk the Line) funciona tão bem.

Lançado em 2005, o filme acompanha a juventude de Cash, sua chegada à música, a ascensão ao estrelato, a dependência química e a relação com June Carter, interpretada por Reese Witherspoon.

Mas Mangold não queria apenas alguém parecido com Johnny Cash.

Queria encontrar o homem antes do mito.

Primeiro, Joaquin precisou aprender a cantar

Phoenix começou praticamente do zero.

Trabalhou com preparação vocal, aprendeu guitarra e passou meses mergulhado no universo de Cash.

Ouviu sua música repetidamente. Leu biografias e entrevistas. Estudou sua voz, sua postura e a maneira peculiar como movimentava o corpo.

Phoenix chegou a observar detalhes como o jeito de Cash caminhar praticamente sem dobrar as pernas.

Mas havia um problema.

Quanto mais conscientemente tentasse reproduzir aqueles movimentos, maior seria o risco de a interpretação parecer justamente isso: uma imitação.

O próprio ator percebeu que todo aquele estudo precisava, em algum momento, desaparecer.

Era necessário aprender os movimentos até não precisar mais pensar neles.

A voz também precisava ser dele

Mangold tomou outra decisão importante: Joaquin Phoenix e Reese Witherspoon cantariam suas próprias músicas.

Nada de simplesmente colocar as gravações de Johnny Cash e June Carter sobre os atores.

Phoenix ficou assustado com a ideia.

Ele não tinha experiência como cantor e precisou trabalhar a voz até encontrar um lugar possível entre sua própria identidade vocal e aquela sonoridade grave imediatamente associada a Cash.

O objetivo não era reproduzir perfeitamente a voz original.

Era conseguir cantar como aquele personagem.

Essa diferença parece pequena, mas diz muito sobre Johnny & June.

Phoenix não precisava convencer nossos ouvidos de que uma gravação perdida de Johnny Cash havia sido encontrada.

Precisava convencer nossos olhos de que aquele homem tinha motivos para cantar daquela maneira.

“Você não pode interpretar uma lenda”

James Mangold resumiu sua abordagem com uma ideia simples: ninguém consegue interpretar uma lenda.

Porque lendas já chegam prontas.

Johnny Cash não era apenas um músico quando o filme foi produzido. Era o Homem de Preto. O homem de “Folsom Prison Blues”, “I Walk the Line” e “Ring of Fire”. Uma figura que havia passado décadas construindo — conscientemente ou não — sua própria mitologia.

Mangold queria outra coisa.

Em vez de pedir aos atores que reproduzissem os ícones, pediu que procurassem suas fragilidades.

Antes de Johnny Cash existir como mito, existia John.

Um homem atravessado pela relação difícil com o pai, pela morte do irmão, pela ambição, pelas drogas, pela culpa, pelo desejo e por uma relação complicada com June Carter.

É esse homem que Phoenix tenta encontrar.

Quando a imitação precisa desaparecer

Existe uma diferença interessante entre os dois primeiros filmes desta série.

Em The Doors, a transformação de Val Kilmer em Jim Morrison impressiona justamente pela semelhança. Há momentos em que olhar para Kilmer provoca quase um curto-circuito: sabemos que é um ator, mas enxergamos Morrison.

Joaquin Phoenix não é uma cópia perfeita de Johnny Cash.

E talvez nunca tenha tentado ser.

O trabalho acontece em outro lugar.

Está na maneira de segurar a guitarra contra o corpo. Na postura diante do microfone. Na voz que parece procurar o grave de Cash sem simplesmente reproduzi-lo. E, principalmente, na sensação de desconforto de um homem que ainda está descobrindo aquilo que mais tarde se transformaria em sua própria imagem pública.

É curioso: Phoenix estudou obsessivamente Johnny Cash para chegar ao momento em que pudesse esquecer tudo o que havia estudado.

Quando os movimentos deixassem de ser movimentos de Cash copiados por Joaquin Phoenix e simplesmente passassem a acontecer.

E então ele canta

Talvez seja por isso que as apresentações musicais sejam tão importantes em Johnny & June.

Não estamos assistindo a um ator mexendo os lábios enquanto Johnny Cash canta.

É Joaquin Phoenix.

Com suas limitações, sua voz e tudo aquilo que aprendeu durante a preparação.

Reese Witherspoon fez o mesmo como June Carter.

E existe alguma coisa de vulnerável nisso.

Porque, quando os dois sobem ao palco dentro do filme, os personagens e os atores estão correndo riscos ao mesmo tempo.

Witherspoon acabaria vencendo o Oscar de Melhor Atriz. Phoenix foi indicado a Melhor Ator.

Mas talvez o resultado mais interessante não esteja nos prêmios.

Está naquele momento em que Joaquin Phoenix segura uma guitarra que precisou aprender a tocar, abre a boca e canta com uma voz que precisou descobrir.

Por alguns minutos, não precisamos acreditar que estamos diante do verdadeiro Johnny Cash.

Basta acreditar naquele homem.

E talvez James Mangold estivesse certo.

Você não interpreta uma lenda.

Primeiro é preciso encontrar a pessoa que existia antes dela.


QUANDO O ATOR VIRA O ROCKSTAR #02

Depois de Val Kilmer e Jim Morrison em The Doors, a série do Jornal A Cena chega a Johnny & June (Walk the Line) e à transformação de Joaquin Phoenix em Johnny Cash. Histórias em que cinema e música se encontram — e atores precisam descobrir até onde é possível chegar para dar corpo, voz e memória a quem já virou lenda.

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