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Música

Karol Conká e Batuk Freak, um capítulo na história do rap nacional

Lúcia Porto recupera histórias, encontros e personagens do rap curitibano que ajudam a entender as origens de Karol Conká e a importância de Batuk Freak para a música brasileira

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Foto: Duvulgação

Por Lúcia Porto

Nunca me encontrei pessoalmente com Karol Conká, mas trombei casualmente com o Nave, uma única vez. Foi ali nas Mercês, um bonito bairro, próximo do Centro de Curitiba. Eu voltava de uma Feira de Vinil ali perto e ele, provavelmente, estava indo pra lá. Não sei se sabia que ele era produtor musical e que trabalhava com rap. Não sei como ele me conhecia, a gente se cumprimentou numa esquina, conversamos alguma coisa, não lembro exatamente o assunto. Durou uns três minutos e nos despedimos. Isso foi em 2012, não sei como, mas eu sabia que ele era o Nave, o Bira deve ter me falado. O Bira foi o primeiro cara do rap que conheci, ele cresceu em Itaquera, zona leste de São Paulo, mas veio morar em Curitiba, era difícil encontrar alguém mais do rap do que ele. Eu não sabia, mas nessa época, Nave estava trabalhando em um álbum que mudaria a história do rap nacional, o Batuk Freak da Karol Conká.

Tenho uma história antiga com o rap, mas nessa época, estava me aproximando de alguns nomes do rap curitibano da segunda geração, sim, existe uma primeira, mas isso fica pra outro dia. Foi nesse período que conheci o Cabes MC e pouco depois o Luís Cilho. Cabes MC tinha fundado a produtora musical “Track Cheio” em 2004 e o Cilho trabalhava com ele. Para conhecer um pouco mais da trajetória do Cabes sugeri uma entrevista para o meu blog, para minha surpresa ele aceitou. A entrevista foi publicada originalmente em agosto de 2013. Curiosamente o disco “Batuk Freak” da Karol foi lançado  (na rede e em CD) nessa mesma época, agosto de 2013.

Não dei atenção ao disco dela, nem sabia que o Nave tinha trabalhado nele, vamos dizer que o som da Karol não era a minha praia. Vi que aquela curitibana do bairro do Boqueirão tinha se tornado uma estrela nacional, mas não liguei uma coisa com a outra. Mais tarde, naquele mesmo ano, entrevistei o Cilho, a entrevista foi publicada em novembro, curiosamente (outra vez), naquele novembro, Karol fez um show gigantesco na Rua XV, Centro de Curitiba. 

Batuk Freak já era uma febre e ela já era um fenômeno nacional. Foi a primeira vez que o rap local ocupou o palco central da Boca Maldita. Ela fez um papel de agregadora do rap e dividiu o palco com Kamau (SP), Lurdez da Luz (SP), Sombra (SP) e o curitibano Nairóbi. Eu estava nesse show e fiquei impressionada com a quantidade de manos e minas que tomaram a Rua XV, eram milhares e milhares de pessoas. Não há uma estatística oficial, mas o palco central do evento (5ª Corrente Cultural de Curitiba), segundo a Gazeta do Povo, atraiu 160 mil pessoas durante aquele final de semana, Karol cantou no sábado (09 de novembro), então dá pra dizer que seu público estava entre 50 e 80 mil pessoas.

Vamos dizer que o pessoal, que eu conhecia (nem todos pessoalmente), que orbitava a Track Cheio, a saber, o próprio Cabes, o Cilho, o Ant e a Janine Mathias, faziam um rap focado na estética dos anos 90, conhecido como boom bap ou golden era. Pode ser que houvesse um detalhe ou outro mais experimental, mas em geral, as coisas caminhavam nesse caminho. Eu não sacava, mas o que o Nave tinha feito no Batuk Freak era algo totalmente novo dentro do rap, fundindo, samples de  músicas do Brasil profundo (como maracatu, afoxé e cantos de trabalho da resistência negra escravizada), funk carioca, pop eletrônico, fora o discurso feminista e negro de uma curitibana da periferia, ninguém no rap nacional fazia isso. Tanto que muita gente dizia que o disco não era rap, mas isso não vem ao caso agora.

Alguns anos depois, em 2016, Luís Cilho fez uma festa de lançamento do seu  terceiro álbum, chamado “Amanhã”. Ele fechava uma trilogia do rapper que incluía os álbuns “Ontem” (2010) e “Hoje” (2011). A festa foi no Bar 351, ali na Trajano Reis, um clássico point para o rap local. Em algum momento, estava numa roda de rappers e citei o nome da Karol. Um dos rappers falou: até pra mim é difícil falar com a Karol, tem que falar com um monte de gente até chegar nela. Não entendi por que ele disse “até pra mim é difícil falar com a Karol”, mas não perguntei o motivo. Eu não sabia, mas aquele rapper era Gustavo Cadelis, um nome importante nessa narrativa.

Em 2019, acabei entrevistando o Cadelis pro meu blog. Ele disse que muita gente do rap curitibano, ele (Cadelis), Cabes, Cilho, Nairóbi entre outros, estudavam juntos no mesmo colégio, o Instituto de Educação do Paraná (IEP), ali na Emiliano Perneta, Centro de Curitiba, em 1998. Não sei exatamente quando, mas antes dessa entrevista com o Cadelis, fui na casa do Cilho. Acho que era pra ver uns discos de vinil que ele tinha pra vender, na época eu trabalhava com revenda de discos e CDs. Feita as negociações, peguei uma carona com ele de volta para o centro. No carro, o assunto acabou chegando na Karol e ele me disse que no início dos anos 2000 havia um grupo de rap no qual estavam ele (Cilho), Cadelis, Bigue e a Karol.

Fiquei surpresa! Então, havia um grupo em que eles tinham trabalhado com a Karol. O grupo se chamava Agamenom (assim mesmo, com erro na grafia) e lançou uma única mixtape em 2005. Essa mixtape era rara na época, mas hoje já está disponível no You Tube. A mixtape foi o primeiro trabalho profissional dos integrantes, mas havia um pessoal mais experiente envolvido na produção, entre eles o Cabes e o Nave. Nave vai ser o produtor do Batuk Freak, álbum de estreia da Karol, alguns anos depois.

Em 2021 a Karol entrou para o BBB, não assisti nenhum episódio. Só soube que ela entrou em muitos conflitos e após o fim do programa saiu o documentário sobre ela “A Vida Depois do Tombo”, que também não vi. Os detalhes sobre o início da sua carreira devem estar todos lá e o que conto aqui não deve ser novidade pra ninguém que o assistiu.

Só recentemente, ao ler uma notícia sobre a Karol, em um site do Rio de Janeiro, fui saber que ela tinha um filho, e que o pai era o Cadelis. Nascido em 2005, na época do Agamenom, o menino tem hoje 20 anos. Foi Cadelis quem a viu em um show de rap na época e a convidou para entrar no grupo e começaram a namorar. O grupo acabou logo após o menino nascer.

O que alguns dos integrantes dessa importante banca do rap curitibano estão fazendo hoje em dia? Cabes transferiu a Track Cheio para São Paulo (SP) por volta de 2020, desde que me assumi Lúcia (2017), nunca mais o vi. Está para lançar o disco “CICLOS”, previsto para este mês (setembro de 2026). Luis Cilho é produtor musical no Xaba Rec Studio em Curitiba há cinco anos. Já produziu e distribuiu 285 músicas pelo estúdio. Cadelis lançou seu último álbum “Capitalista Pobre” em 2020, o vi apenas uma ou duas vezes. Nunca vi o Bigue, seu único trabalho é com o Agamenom, segundo a IA ele se afastou do mundo da música e do rap. Nave se tornou um dos maiores produtores de rap do Brasil, ganhou diversos prêmios, entre eles o Grammy Latino. Atualmente vive em São Paulo (SP). Jorge Conjota, filho da Karol e do Cadelis, cantou com a mãe no Festival The Town em 2025.

Esses dias vi uma entrevista da Karol, no canal Podpah Records, onde ela fala sobre o disco Batuk Freak. Só então me interessei em ouvir o disco e pude perceber os motivos dele ter mudado a história do rap nacional e da música popular brasileira (dependendo do que se entende por MPB). Karol atualmente está em turnê, comemorando 25 anos de carreira, revisitando o álbum Batuk Freak. Vai tocar em Curitiba daqui a alguns dias, em 18 de setembro. Atualmente mora em São Paulo (SP).

Ouça “Boa Noite”, faixa clássica do álbum Batuk Freak.

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