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Teatro

Cancelamento de espetáculo em Maringá reacende debate sobre liberdade artística

Companhia afirma que sessão para estudantes foi cancelada após questionamentos sobre relação homoafetiva e linguagem; Secretaria de Educação fala em divergências entre conteúdo e sinopse

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em

Por redação

Uma apresentação do espetáculo “O Acalento, ou antes que o caldo esfrie”, do Teatro do Alvorecer, foi cancelada em Maringá após questionamentos sobre o conteúdo da montagem. A companhia afirma que a decisão ocorreu depois de professores manifestarem incômodo com a presença de uma relação amorosa entre duas personagens mulheres e com o uso de alguns palavrões no texto. O caso abriu uma discussão sobre liberdade artística, formação de público e os limites da interferência institucional na programação cultural.

A montagem integra uma temporada de 12 apresentações na Casa da Cultura Alcídio Regini, realizada entre 27 de agosto e 5 de setembro. O projeto foi viabilizado pela Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, por meio do Edital de Fomento – Multiartes 001/2024. Parte das sessões foi destinada a instituições de ensino, com o objetivo de aproximar estudantes e professores da linguagem teatral.

Uma das apresentações para o público escolar reuniu cerca de 40 a 50 pessoas, em sua maioria adultos mais velhos, além de professores e funcionários da instituição. Segundo a companhia, a recepção foi positiva. A sessão seguinte, que receberia cerca de 130 estudantes, que chegariam ao local em ônibus, acabou cancelada.

De acordo com o diretor, dramaturgo e ator Douglas Kodi, a companhia recebeu a informação pouco antes da apresentação de que a sessão não aconteceria. Segundo ele, alguns professores, inclusive profissionais que não estavam presentes na sessão anterior, teriam questionado a linguagem do espetáculo e a relação amorosa entre as duas personagens mulheres.

“Alguns professores acharam que a peça tinha linguagem de baixo calão, tem alguns xingamentos, mas são poucos, muito poucos mesmo. E não gostaram que a peça coloca diversidade sexual por causa das meninas, que têm uma relação amorosa”, relata Kodi.

A produtora Carolina Mariano afirma que ficou surpresa e indignada com a decisão. Segundo ela, a instituição mencionou tanto a questão da diversidade sexual quanto a linguagem considerada inadequada como motivos para não levar os estudantes à apresentação.

Para Mariano, entretanto, nenhum dos dois aspectos justificaria a retirada do espetáculo. Ela ressalta que a diversidade sexual não é o tema central da montagem e que os palavrões aparecem pontualmente dentro da dramaturgia.

O que diz a sinopse

Na proposta apresentada para o projeto, “O Acalento, ou antes que o caldo esfrie” é descrito como um espetáculo dirigido a jovens e adultos e centrado nas histórias de Juca e Clarisse, dois jovens que lidam com perdas, despedidas, escolhas e amadurecimento.

Juca carrega a ausência do pai, que deixou o país para viver no Japão. Clarisse, sua melhor amiga, enfrenta a despedida de Kai, uma jovem que parte para a Irlanda. Entre conversas em um boteco, humor e afetos, os personagens lidam com memória, identidade, família, migração, ansiedade diante do futuro, luto e amor.

A dramaturgia apresenta também a relação afetiva entre as duas personagens mulheres. Para a companhia, trata-se de um dos vínculos presentes na história, e não do assunto central da peça.

“É uma peça sobre pessoas, sobre a vida. Não é um ensaio sobre a relação das duas personagens lésbicas. Elas têm uma relação amorosa, mas essa não é a questão central da peça”, afirma Douglas Kodi.

Para Carolina Mariano, a sinopse contempla os conflitos afetivos desenvolvidos no espetáculo e não haveria uma divergência entre o material apresentado para aprovação e o texto levado ao palco.

A produtora questiona ainda o fato de uma relação homoafetiva ser tratada como uma informação que precisaria necessariamente estar destacada previamente para que uma obra pudesse ser apresentada a estudantes. Na avaliação dela, o episódio levanta uma discussão mais ampla sobre quais representações podem chegar ao público por meio de projetos culturais financiados com recursos públicos.

Companhia fala em liberdade artística

O episódio fez a companhia questionar não apenas o cancelamento da sessão, mas também o próprio sentido do projeto de formação de público.

“De manhã a recepção foi muito boa. E aí, quando a gente recebeu a notícia de que não ia apresentar, foi um baque. A gente conversou com o elenco e pensou: faz sentido a gente estar fazendo teatro mesmo? Faz sentido a gente estar fazendo esse projeto?”, conta Kodi.

Para o artista, a situação revela um desconforto que ultrapassa uma eventual discussão sobre classificação etária ou adequação de linguagem.

“E aí a gente sentiu um desconforto muito grande com o fato de existir esse tipo de personagem em uma peça”, afirma.

Carolina Mariano também faz uma distinção entre estabelecer critérios para o acesso de determinados públicos e impedir uma apresentação por causa de elementos específicos da dramaturgia. Para ela, questões como linguagem, diversidade e representação podem ser discutidas pedagogicamente, inclusive com estudantes, em vez de resultarem simplesmente na retirada do contato com a obra.

A produtora considera que o episódio entra no campo da discussão sobre liberdade artística e censura. A companhia, no entanto, reconhece que instituições podem estabelecer critérios de faixa etária, classificação e adequação de público. O questionamento está, segundo ela, nos motivos utilizados para impedir a apresentação.

Secretaria fala em “divergências”

Procurada sobre o caso, a Secretaria Municipal de Educação informou, por meio da Secretaria de Comunicação, que:

“A Secretaria de Educação informa que o espetáculo previsto para a rede municipal de ensino foi cancelado após a identificação de divergências entre o conteúdo apresentado e a sinopse previamente encaminhada pela Secretaria de Estado de Educação.”

A pasta não detalhou quais seriam essas divergências e também não informou se os questionamentos relacionados à relação homoafetiva entre as personagens ou à linguagem utilizada no espetáculo estavam entre os motivos considerados para o cancelamento.

Dessa forma, a versão apresentada pela companhia e a justificativa oficial da Secretaria permanecem diferentes em seus níveis de detalhamento: enquanto a produção relata que professores questionaram especificamente a relação entre as personagens e o uso de palavrões, a Secretaria afirma apenas que houve divergências entre o conteúdo apresentado e a sinopse.

Um debate que não é novo

O episódio se insere em um histórico de discussões sobre os limites entre arte, política e moralidade em Maringá. Artistas da cidade já relataram outros episódios de questionamentos e conflitos envolvendo trabalhos que abordam sexualidade, gênero e diversidade.

Em 2018, por exemplo, o espetáculo “O mais íntimo de nós”, de Guilherme Veneral e Leonardo Fabiano, levou ao palco a história de uma relação homoafetiva vivida pelos próprios criadores. A montagem, apresentada em espaços culturais de Maringá, tinha como uma de suas propostas tratar a relação entre dois homens de maneira natural, abordando também amor, intimidade e preconceito.

Também são lembrados por integrantes da classe artística episódios envolvendo a atriz Rafa Mattos, apresentações da Cia Experimental de Dança e embates com agentes políticos da cidade em torno de trabalhos que abordavam sexualidade, nudez e diversidade.

Em 2024, a Câmara Municipal de Maringá aprovou em segunda discussão o projeto de lei 16.719/2023, de autoria da então vereadora Cris Lauer, que estabelecia restrições ao uso de recursos públicos municipais para contratação de bens, serviços e produtos culturais considerados, entre outros pontos, preconceituosos ou constrangedores para as mulheres. A proposta gerou críticas de representantes do setor cultural, que apontaram riscos de censura prévia e de interferência sobre a liberdade de criação.

A resposta da companhia

Para Douglas Kodi, o objetivo inicial do projeto era justamente ampliar o acesso ao teatro. Das 12 apresentações previstas, algumas foram destinadas a escolas públicas e a públicos específicos, como adolescentes e estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA).

“Uma das ideias desse projeto, dessas 12 apresentações, era que algumas fossem fechadas para escolas, para o público adolescente e para o público de EJA. Esses dois públicos especificamente, de escolas públicas estaduais e municipais”, explica.

Diante do cancelamento, a companhia decidiu transformar o episódio em uma nova oportunidade de encontro com o público. A equipe marcou uma apresentação extra de “O Acalento, ou antes que o caldo esfrie” para este sábado (5), às 16h e outras às 20h na Casa da Cultura Alcídio Regini, em Maringá.

“Vamos fazer barulho, trazer público e apresentar para quem quer ver. Vamos transformar essa força”, afirma Kodi.

A nova sessão encerra a temporada colocando novamente a peça diante do público e, ao mesmo tempo, mantém em aberto a discussão provocada pelo cancelamento: até onde vão os critérios institucionais de seleção e adequação de público e onde começa o direito de uma obra artística de existir, ser apresentada e provocar reflexão, inclusive quando provoca desconforto.

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