Mistura Fina – Especial Ieda Godoy

Eu era conhecida como Dolores, todo mundo me chamava assim! – Ieda Godoy

Por Giseli Canto

Por que trazer essa história pra você? Em que, essa mulher se relaciona com a música da cidade?

Mais do que prestar uma homenagem, ela deveria ter a outorga da Cidadania Honorária de Curitiba. Significa prestigiar e reconhecer o trabalho dessa mulher que se dedicou a atuar de forma exemplar tanto eticamente, quanto moralmente e por prestar serviços à cultura de Curitiba, ajudando no desenvolvimento cultural e na promoção da arte.

Ela é de Prudentópolis, chegou em Curitiba com dezoito anos apenas. Aqui casou, teve filhos, empreendeu na área de entretenimento e desferiu sua luz na noite da cidade. Porreta ela! Sacudiu a noite curitibana com eventos, festas, projetos ousados, deu trabalho para músicos, espaço para artistas, fotógrafos, estilistas e entrou como um rolo compressor abrindo as cortinas de palcos nunca dantes habitados. Revelou-se uma produtora que tirava leite de pedra e dinheiro de mato. Pela credibilidade que conquistou, uma distribuidora de cigarros entrou na roda viva dessa mulher e patrocinou o início de um de seus bares.

Acervo de Ieda Godoy
Ieda Godoy no Bar Poeta Maldito

Ieda começou no ramo de bares por acaso. Assim, despretensiosamente! Primeiro com o Poeta Maldito em novembro de 1991. No começo era só diversão e com o tempo virou trabalho. Aqui começa a trama de uma história de cinema entremeada pelas linguagens artísticas onde a música teve um cenário próprio, especial e definitivo em sua trajetória.

Surgiu o Dolores Nervosa, um bar na parte de cima de um sobrado, que tinha um público enorme que se fundia com seu vizinho de baixo. De repente, um acontecimento funesto, que sobre isso eu falo mais adiante. Deixou uma sensação um pouco ruim e aquela alegria não era mais a mesma. Pra manter a mesma leveza decidiram mudar o nome do bar. Passou a se chamar Dromedário e, como se fosse sob nova direção, com outro estilo de música, mudou o jeitão do espaço, que ajudou o lugar a construir um novo público e o sucesso continuou como sempre.  Ieda relata que a música deu nova personalidade ao bar. (…)ajudou a transformar o bar, tinha loucura, mas era a loucura da arte e da criatividade(…).

O Mafalda foi montado pra acalmar os ânimos. A gravidez e os descompassos da vida agitada, fizeram com que Ieda quase se escondesse de tudo e resolveu montar o Bistrô na rua XV. Sem publicidade, quietinha, criou um espaço voltado mais pra gastronomia, sem música e ali ficou durante um tempo. Um filho de quatro anos e outro chegando, ela precisava de um pouco de tranquilidade.

O Mafalda foi montado pra acalmar os ânimos. A gravidez e os descompassos da vida agitada, fizeram com que Ieda quase se escondesse de tudo e resolveu montar o Bistrô na rua XV. Sem publicidade, quietinha, criou um espaço voltado mais pra gastronomia, sem música e ali ficou durante um tempo. Um filho de quatro anos e outro chegando, ela precisava de um pouco de tranquilidade.

O Mafalda foi montado pra acalmar os ânimos. A gravidez e os descompassos da vida agitada, fizeram com que Ieda quase se escondesse de tudo e resolveu montar o Bistrô na rua XV. Sem publicidade, quietinha, criou um espaço voltado mais pra gastronomia, sem música e ali ficou durante um tempo. Um filho de quatro anos e outro chegando, ela precisava de um pouco de tranquilidade.

Edith de Camargo Foto: Lidia Ueta

Claro! Sem propaganda, sem música, que era a mola propulsora de seus eventos, tudo estava calmo demais. Resolveu movimentar o espaço e produziu eventos até com música grega. Uma festa grega que ao final do jantar os pratos eram quebrados. Tudo como manda a tradição. (…)No Mafalda eu acabei colocando música, claro! (…) Ali eu conheci a Edith de Camargo (…)tocou numa noite de música francesa(…).

Ela é tudo mesmo! Com Ieda, a gente percebe a música como função social, além do entretenimento, é claro! Quando conheceu a banda “Gente boa da melhor qualidade”, viu mais uma oportunidade de mexer com a cultura da cidade. Ieda afirma que a banda fez os jovens conhecerem os sambas antigos.

Toda história de Ieda é permeada de música e de ações que, muitas vezes, aconteciam ao mesmo tempo, como eventos na Sociedade Vasquinho, um local onde funcionava as noites de forró do Calamengau e também na Sociedade Portuguesa. Por conta disso, a correria era tão grande que Ieda carregava, literalmente, um bar dentro do carro. Ela vivia de calça jeans e camiseta, sem grande estilo. Estar bem vestida era um acontecimento. (…)era uma coisa absurda o tanto que eu trabalhava (…) no Vasquinho fiz inúmeras festas (…) quando chegava a hora da festa eu não tinha tempo de ir pra casa trocar de roupa(…).

Incrível como tem pessoas que, por motivos diversos, as vezes sem motivos ou, só pra causar transtorno mesmo, resolvem impedir o fluxo natural e feliz das coisas. As festas não causavam problemas, mas as flores murcharam. Um vizinho decidiu que aquele bistrô que trazia arte, boa culinária e alegria pra rua XV, deveria fechar. (…)foi um incômodo sem fundamento do vizinho, diz ela. Não fechou, mudou-se para rua Tibagi, onde existe até hoje. Em novo endereço ficou mais calmo.

Rosa, uma cliente do Mafalda, ofereceu um espaço na Trajano Reis pra que ela pensasse em fazer alguma coisa. Simples assim! Caiu naquele espírito revolucionário, libertário, fértil e competente o espaço desejado. Não tão simples assim, Ieda agora tinha que transformar um lugar inóspito em espaço artístico.

Wonka Bar

Não demorou pra que ela arquitetasse uma transformadora reforma. Entregou cada uma das salas para um artista plástico fazer o que bem entendesse. Não podia dar errado! Aconteceu o Wonka. Ali foi um reduto de jazz, MPB, música para dançar, literatura, poesia, exposição e tudo que a arte podia trazer de bom para a população. Inaugurado, em 2005, o Wonka Bar, trouxe mais uma oportunidade aos jovens de conhecer muito sobre o jazz. Assim caminhou a noite curitibana. A natureza das almas que tinham ouvido pensante foram alimentadas pela música mais uma vez pelas mãos dessa mente, capaz de produzir profícua e criativamente.

A introdução do jazz no Wonka foi o universo conspirando a seu favor e tudo se encaixando. Uma particularidade – o saxofonista Hélio Brandão e o contrabaixista Boldrine, sugeriram a ela que colocasse jazz no bar e Ieda, que queria esse estilo para um público pretendido, sobejou a ideia que levou ao sucesso por anos. Sucesso esse, conhecido como a quinta do jazz.

Sua importância e credibilidade são sua marca. A evidência de seu brilho provocou um convite para produzir a banda Denorex. Ela assumiu esse compromisso e levou a termo. Mais uma confirmação de que Ieda respira música e de que Curitiba não consegue se olhar sem esbarrar nas criações de Ieda. Um ícone que simboliza a mão que faz acontecer.

Elis, essa mulher
Show em homenagem a cantora Elis Regina
Dizzy Café Concerto

Fez acontecer também, junto com o então marido Jeff Sabbag, o Dizzy Café Concerto. Hoje o espaço de Jazz na cidade que traz artistas do mundo. Ali realizou projetos como Elis, essa mulher, que foi pro auditório do MON (Museu Oscar Niemeyer) e continuou em anos seguintes no espaço Mafalda. Em todos espaços foi maravilhoso! Casa cheia, gente esperando do lado de fora, justificando mais um de seus sucessos nesse oásis cultural. Se não fosse pela pandemia, teria continuado.

Mais um presente a Curitiba estava por vir e veio. Mãe! Café, Bar, Restô. Um espaço que chegou pra ficar e que, mesmo na pandemia, sobrevive pelas mãos de Ieda e Ane Adade, com a produção cultural da culinária desenvolvida por essas duas incríveis mulheres. Ane é bailarina, cantora, atriz, um pouco de tudo. As duas se abraçaram e juntas continuam assoprando essa brasa que precisa continuar acesa. Precisamos do Mãe! Precisamos que tudo funcione em Curitiba!Enchi a boca pra falar de Ieda Godoy. Uma artista, que não se diz modelo, atriz, produtora, assessora de imprensa, mas é tudo isso e mais um pouco. Ela gerou em seus empreendimentos muitos empregos diretos e indiretos – na gastronomia, no turismo da cidade, nas festas e eventos, nos projetos musicais que rodaram dos bares aos palcos. Ela é plural, são muitas mulheres em uma só. Um espelho que podemos olhar e refletir. Refletir em sua luz, em sua força, em sua perseverança, em sua mente brilhante, na beleza, na mulher!

Pra terminar, eu conto sobre o que aconteceu com Dolores Nervosa. Um assassinato que manchou de sangue a rua Vicente Machado e causaram muitos dissabores a Ieda que era conhecida por muitos na época, como Dolores. No dia seguinte ao crime, na correria pra atender a demanda de serviços do bar, deparou-se com as manchetes nas bancas de revistas, que descreviam o fato como se tivesse acontecido dentro do Dolores Nervosa. Mesmo não acontecendo dentro do seu bar, por ter fechado as portas no instante do assassinato, foi acusada de omissão de socorro. Ieda respondeu criminalmente e hoje, depois de tudo esclarecido, ficam apenas as marcas da história. (…)a coisa ficou muito louca(…) foi impressionante

Ieda, por ser tudo o que já foi dito aqui e ser tudo o que já se é sabido pela história, segue em sua trajetória de sucessos. Que assim seja! Amém!


Colaboração Ieda Godoy
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Giseli Canto

Cantora paranaense de Curitiba, professora de Artes aposentada, roteirista, produtora, apaixonada pela música e tudo que se refere ao poder transformador dessa arte, pela família e pelos amigos, que considera sua segunda família. Ama uma boa conversa e está sempre aberta a novos caminhos. Seu olhar otimista para o ser humano faz de sua vida um mundo recheado de boas relações e experiências.

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