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Opinião

Frankenstein” do Coletivo Gompa: Uma Releitura Decolonial do Clássico de Mary Shelley

“Frankenstein” do Coletivo Gompa é uma obra necessária e urgente, que nos lembra da importância de olhar para nossas feridas e transformá-las em força.

Publicado

em

por Vanessa R Ricardo

O Coletivo Gompa, grupo gaúcho conhecido por suas investigações artísticas profundas e politizadas, apresenta “Frankenstein”, um espetáculo de dança e teatro que revisita o clássico de Mary Shelley sob uma perspectiva contemporânea e decolonial. Com direção de Camila Bauer, a montagem cria paralelos entre o corpo feminino e a Amazônia, explorando temas como pertencimento, violência e identidade.

No palco, os bailarinos Fabiane Severo e Alexsander Vidaleti dão vida às vozes de Sandra Dani e Elcio Rossini, em uma encenação que combina textos, cenário, figurinos e iluminação para construir uma narrativa potente e reflexiva. A trilha sonora, assinada por Álvaro Rosa Costa, é manipulada ao vivo, criando uma “dissonância Frankenstein” que une samples, ruídos e improvisações, ampliando a experiência sensorial do público.

A América Latina como Corpo de Mulher

Um dos aspectos mais impactantes do espetáculo é a metáfora da América Latina como um corpo de mulher, um continente que ainda está se entendendo e se reconstruindo. Essa abordagem ressoa profundamente em um contexto onde questões como exploração, violência e resistência são centrais. A montagem dá voz à nossa falta de memória coletiva, questionando como nos relacionamos com nossas raízes e como podemos ressignificar nossa identidade em um mundo marcado por opressões históricas.

Crítica

“Frankenstein” do Coletivo Gompa é uma obra que desafia o público a refletir sobre as cicatrizes deixadas pela colonização e pela exploração ambiental. A escolha de relacionar o corpo feminino à Amazônia é particularmente poderosa, destacando como ambos são territórios de disputa, resistência e resiliência.

A direção de Camila Bauer é precisa, criando uma atmosfera que oscila entre o poético e o perturbador. A performance de Fabiane Severo e Alexsander Vidaleti é visceral, capturando a essência da dor e da busca por identidade. A trilha sonora de Álvaro Rosa Costa complementa perfeitamente a narrativa, com sua mistura de sons orgânicos e eletrônicos que ecoam a fragmentação e a reconstrução presentes na trama.

No entanto, o espetáculo poderia explorar ainda mais a complexidade das vozes femininas, já que a metáfora do corpo da mulher como continente abre espaço para uma discussão mais profunda sobre gênero e poder. Ainda assim, a montagem é um convite importante para repensarmos nossa relação com o passado e com o futuro, especialmente em um momento em que a América Latina continua lutando por sua autonomia e identidade.

“Frankenstein” do Coletivo Gompa é uma obra necessária e urgente, que nos lembra da importância de olhar para nossas feridas e transformá-las em força. A montagem é um exemplo de como a arte pode ser um instrumento de reflexão e transformação, questionando narrativas hegemônicas e abrindo espaço para novas possibilidades de existência.

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