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Opinião

Anne Frank, a voz que se tem na memória. Crítica sobre mim mesmo!

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Por Leonardo Talarico Marins

Obviamente, o título é jocoso, haja vista ser tarefa inacreditável o exercício crítico de sua obra, sobretudo formulado de forma pública. E ainda na sua própria coluna (risos).

Em verdade, intento virar a coxia, revelar um pouco do processo artístico e da montagem do espetáculo. Anne Frank esteve em cartaz em Búzios, no Cine MMK, e no Teatro Fashion Mall, devendo agora seguir para Belo Horizonte.

Em Búzios, os ingressos esgotaram-se 12 (doze) dias antes da apresentação, e no Teatro Fashion Mall as apresentações permaneceram cheias. E isso é muito, haja vista estarmos em Janeiro, maior período de produção de Teatro de Balneário no Rio de Janeiro, onde turistas procuram diversão, famosos da teledramaturgia e quando se ouve os primeiros roncos da cuíca.

É sempre um alento perceber o espaço do Teatro Dramático, Clássico, Trágico, Teatro de Ator e seu esclarecimento. Pessoas saíram de suas casas para ouvir a história de Anne Frank e tudo que a circunda até hoje, pois não nos esqueçamos da guerra atual. Aliás, nesse espectro, foi interessante também perceber quantos judeus divulgavam o espetáculo de forma orgulhosa, mas pediam desculpas pelo não comparecimento com a justificativa da intolerância sobre o assunto diante do sofrimento emocional da guerra em curso.

Mas há tantas camadas na obra, tantos pontos de abraços e poesia. Claro que o elemento dominante é dramático, mas o exemplo da “menina” Frank necessita reverberar aqui e acolá para uma afirmação humanista.

Recebi a proposta de adaptação e Direção da referida peça e não cogitei negar. A protagonista, Poliana Carvalho, havia sido minha aluna tempos atrás, e sempre reforçava em minhas aulas a necessidade dos atores encontrarem a obra das suas vidas, aquela cuja única possibilidade é restar obrigado a falar em “primeira pessoa”.

Pois bem, terminado o curso, Poliana solicitou à família, de poucas posses, que juntassem o valor de uma festa de 15 anos para que ela pudesse ir para a casa Anne Frank e todos os campos de concentração. Aos 15 anos, Poliana não apenas percorria os espaços de Anne Frank, mas também entrevistava sobreviventes que conviveram com ela nos campos de concentração e ouvia atentamente todos os historiadores dos espaços outrora nazistas.

Anos mais tarde, conforme o disse acima, restei convocado e começamos um lindo processo de formação artística profissional, humana e de adaptação da obra. Poliana nunca havia subido em um palco, mas conforme relatos, o fez como “um monstro”.

E isso decorreu exatamente por razão de três elementos: disponibilidade na relação comigo (a fé no outro, alicerce Teatral); saber, desde logo, estar a serviço da plateia e, por derradeiro, compreender a necessidade de se matar todos os dias na coxia.

Recebemos os retornos mais generosos possíveis da montagem, diante de uma deslumbrante relação humana travada entre os operadores teatrais e a plateia.

O Teatro só existe diante do seu público.

Dessa vez, decidi colocar as mãos em todos os segmentos da montagem. O risco era tão latente que não desejava carregar nas costas qualquer atenção que não fosse aquela destinada a Poliana.

Sobre as qualidades do espetáculo não me atreverei dizer.

Espero, realmente, possamos, eu e você, encontrarmo-nos “na relação Teatral” para que façamos juntos o espetáculo e você mesmo desenvolva suas conclusões sobre tudo quanto ocorrido.

Por fim, deixo minha mensagem a todos enveredados no Teatro Trágico-Dramático.

O Teatro não é lugar para se mentir.

Enquanto personagem, enquanto ser humano, porque a medida do artista é exatamente a medida do humano.

 

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