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Crítica Teatral

Parresía entre nós

Entre família, justiça e patriarcado, Inter Alia transforma o palco em espaço de confronto e reflexão sobre a coragem de dizer a verdade

Publicado

em

Foto: Robert Schwenck

Por gabriel m. barros

A peça começa num ritmo rápido. Uma cena descrita com esmero pela personagem. A gente se vê dentro da coisa, sobretudo pelo ritmo. Estamos acostumados com esses flashs de informações. Inicialmente, Inter Alia, peça em cartaz no Teatro Vivo, coloca para nós a questão do tempo das coisas. Depois disso, desse atropelo de ideias e já nos capturando nos primeiros minutos, com a presença incontornável, fabulosa e inconfundível da Drica Moraes, a peça vai sendo decantada, esticada, prolongando e colocando vários tempos pra funcionar e colidir. 

​Aliás, procurando sobre o termo jurídico que dá título à peça, característicos das dramaturgias de Suzie Miller, o termo, Inter alia, quer dizer uma lista que pode ser acrescentada mais coisas, algo assim, perdoem meu juridiquês ser tão pífio. Aqui por si só, já carrega consigo uma marca dessa obra: a capacidade de acrescentar elementos, sem perder o fio da meada, e nuançando todas as personagens, inclusive aqueles que apenas são referidas pelos três em cena. É uma peça cheia de camadas, oscilações, de tempos intercruzados, bem como interesses, enfim, há toda uma sorte de temas que vão aparecendo: hierarquia, o lugar da mulher em ascensão e a forma como a família reage a isso, o patriarcado e suas várias manifestações, até a mais abjeta delas, que é o estupro, a tensão entre justiça moral e justiça legal, um rol extenso de temáticas.

​Sob a direção cuidadosa, certeira e atenta de Rodrigo Portella, que mais uma vez eu preciso destacar como um dos diretores mais vertiginosos da cena brasileira, a peça se desenrola com um elenco arrebatador em vários sentidos: Drica Moraes, Caco Ciocler e Caio Cesar Passos (pra mim a maior surpresa do espetáculo, de poder conhecer o trabalho dele) estão profundamente afinados, passam uma naturalidade em cena, seja nas brincadeiras de casal entre Drica e Caco, seja na interação mãe-filho entre Moraes e Passos, ou pai-filho em que Caco e Caio interagem com muita fluidez. Para além disso, a peça cresce em tensão e os atores vão junto, com atuações que deixam o público atento, ao mesmo tempo que inquieto. A mim, que assisti muita coisa boa nesse ano, sinto que vi uma das melhores encenações e construções de personagem dessa temporada.

​Cenograficamente a peça funciona muito bem, o cenário tem um requinte de transformar um ambiente familiar num tribunal. O que se vê, sendo construído, é a própria relação familiar indo para a berlinda, pressionada e questionada. Naquilo que o teatro sabe fazer muito bem, que é subverter os espaços, Inter Alia é um acerto em cheio.

​Preciso chamar a atenção para a música, do Federico Puppi, ora vem descontraída criando cenas confortáveis,solares e familiares; ora se apresenta como um ruído, como algo que destoa, incomoda. A música participa da tensão, dos movimentos que a peça pede. O som desloca, nesse sentido, os rumos que a dramaturgia tem. Um acerto em cheio.

​Nesse aspecto, aqui me parece, que nas várias nuances o espetáculo volta a colocar em cena aquilo que o teatro grego fazia funcionar: o dizer verdadeiro, a palavra livre, a coragem da verdade, enfim todos os termos que foram amplamente analisados com o último Foucault, nas suas aulas do Collége de France e que muito bem ele condensou na ideia de parresía, e que ele vai buscar com os gregos, sobretudo no teatro. 

​É no teatro grego que a polis refletia sobre seus dilemas, era ali que se desafiava o povo a assumir a palavra, e a palavra verdadeira, aquela que não agrada aos ouvidos, mas que provoca deslocamentos na própria sociedade. Nesse sentido, Inter Alia consegue apresentar isso com maestria, pondo em campo vários temas que são fundamentais e urgente discutirmos enquanto pólis.

Harry, um dos personagens, ainda adolescente, está na formação da sua palavra, atravessada pela palavra de vários outros. Eu, como alguém que lida diretamente com essa faixa etária por conta da minha profissão como professor, tenho visto assustado o quanto os jovens já estão cooptados e falam e fazem muito pouco por si. Espetáculos como esse, põe em evidência o papel adulto nessa equação toda e no quanto tolhemos ou não a fala desses jovens, e o quanto ainda temos que percorrer um longo caminho, que perpassa o fazer justiça, para que a parresía se estabeleça. A mim, me parece, que a peça dá conta de manifestar a parresía, ainda que doa, ainda que incomode, ainda que deixe consequências indeléveis por toda uma vida.

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