Crítica Teatral
Ópera do Malandro
Em nova montagem dirigida por Jorge Farjalla, o clássico de Chico Buarque ganha estética maximalista, referências à cultura popular e à Umbanda, em uma releitura vibrante que transforma a obra em uma experiência de intensa teatralidade.
Foto: Priscilla Prade
Por Leonardo Talarico
A ÓPERA DO MALANDRO, um dos maiores sucessos do Teatro Nacional, da lavra de CHICO BUARQUE, retorna aos palcos na visão de JORGE FARJALLA, em cartaz no TEATRO MULTIPLAN VILLAGEMALL.
A nova montagem apresenta uma versão ousada, vertical, atravessada por múltiplas linguagens artísticas e estética maximalista.
O texto da presente montagem é muito competente nesse novo objetivo (quase disruptivo) e reúne CHICO BUARQUE, RITA MURTINHO, MARIETA SEVERO, LUIZ ANTÔNIO MARTINEZ CORREA, MAURÍCIO SETTE e CARLOS GREGÓRIO.
Trata-se de uma dramaturgia orientada no texto original de CHICO BUARQUE, na ÓPERA DOS TRÊS VINTÉNS, de BERTOLT BRECHT (inspirada na ÓPERA DOS MENDIGOS, de JOHN GAY) e no sincretismo popular (referência às entidades do “Povo da Rua” da UMBANDAreverenciadas por FARJALLA).
A nova obra “mantém” (com novos significados, acréscimos e relocações) a sinopse histórica de CHICO BUARQUE e extravasa toda a realização cênica. Partimos de uma origem minimalista reflexiva de CHICO BUARQUE voltada à palavra (escrita e cantada) e chegamos com louvor à “carnavalização do teatro” (Joãozinho Trinta e Amir Haddad).
FARJALLA utiliza sua vigorosa estética maximalista e provoca uma catarse ininterrupta por 120 minutos. Não há respiro. Tudo está e permanece no talo por todo o tempo. Oandamento dos atos é levantado e arranca a plateia da poltrona com modificações e acréscimos na linguagemestética, dinâmicas modernas, interpretação verticalizada (corpo e texto musicado, festivo e ardente sem pausas), relevância do feminino, pertencimento etc.
A extravagância opera como norte. Não há domínio do tempo; não há tempo. A vida urge! É o “corre” reconhecido pelo povo. Como o próprio diretor informa: “Acima de tudo, eu quero que as pessoas venham se divertir e saborear o musical, as canções e esse elenco” (programa do espetáculo).
E isso acontece. A obra outrora caracterizada como “espetáculo de ator/atriz” transforma-se em “espetáculo de direção”, haja vista estarem presentes todas as característicaslinguísticas históricas de FARJALLA. Existe um alargamento de camadas na construção das personagens para abarcar as novas referências, novas percepções, novos dizeres e novos tempos. Estamos diante de acréscimos de abordagens, afetividades e afirmações (p. ex., personagem Geni será interpretada por VALÉRIA BARCELLOS).
O público é aproximado em maior festividadeproporcionada por essa visão mais vibrante desejada pelaatualidade. Ocorre uma identificação direta com a história – por demais conhecida – e uma nova abertura simbólica por meio de elementos próximos à população brasileira(sobretudo, a mais desassistida).
A estética do JORGE FARJALLA é distribuída por todos os saberes a serviço da obra. Isso gera uma importante unidade cênica. Todos levam ao limite a extravagância solicitada. A imponência é um valor entregue por todas as camadas construtivas do musical.
As músicas de CHICO BUARQUE continuam primorosas. As interferências musicais (p. ex., longa do RUY GUERRA) estão a serviço da nova montagem. A direção musical de GUI LEAL (arranjos originais de GUI LEAL, DANIEL ALFARO e RONIEL DE SOUZA) auxilia sobremaneira a pulsação necessária à passagem dramatúrgica, e com valorosa estética.
A direção coreográfica de LEILANE TELES consegue a façanha de colocar nas suas inserções todos os elementos descritos. Fecha a mala de viagem sentando-se em cima para caber tudo, e o faz com delicadeza e esmero.
A direção cenográfica de CHRIS AIZNER entrega “molduras” à contação da história e também auxilia com símbolos e enquadramentos precisos. Os figurinos de ÙGA AGÚ e JORGE FARJALLA são estéticos, com visível corte teatral, excelente acabamento e repletos de agregados simbólicos e expressivos. Os figurinos apresentam mais camadas à construção das personagens e se movimentam emcaimento adequado. Os adereços e objetos de CLAU CARMO e o visagismo de SIMONE MOMO são cirúrgicos e geram pertencimento ao ambiente e elenco.
Excelentes escolhas pontuais e ótimo acabamento. O desenho de luz de GABRIELE SOUZA é muito bem angulado, temporizado, gelatinado e com a intensidade necessária ao andamento festivo do espetáculo. Ainda possui elegante abertura de salão para cobrir “o todo no palco” e refinados recortes nos instantes mais dramáticos.
RANDAL JULIANO traz a direção de som para o horizonte veloz e sincronizado da peça. Tudo coadunado com as diretrizes de exibição.
A direção de arte de KELSON SPALATO antecipa a integração entre espetáculo e plateia, quebra a quarta parede e se apresenta detalhista e vigorosa.
A orquestra segue com categoria o andamento frenético da passagem cênica exigida e realiza ótimos recortes nos tensionamentos dramáticos.
O elenco destaca-se no conjunto. Todos colocam humildemente a interpretação no mesmo diapasão para acelerar a obra repleta de história e simbologia. Os finais de frase cantados, não parar nos verbos, estereotipar onecessário e desnecessário (por necessário – insubmissão de linguagem), estridência nos instantes pontuados (todos), interpretações não horizontais incorporadas em movimentação falada em sintonia de texto e ginga“malandra”. A fala capoeira dançada. O andar de balanceio esclarecedor da catira.
Destacamos também as declarações de afetividade e reconhecimento às entidades (sempre presentes na obra histórica para FARJALLA), no destaque ao feminino e noalargamento da contação da história para agrupar novos dizeres. Todos os atores “morrem na coxia” e deixam tudo no palco. Não há destaque; opera-se em conjunto. O brilhante elenco regido pelo modo FARJALLA de ressignificar e construir com vitalidade uma obra.
É uma travessia. Se nós – mais apegados à exibição original – tivermos abertos ao “novo” teremos muito a usufruir.
Parabéns a todos os envolvidos.

