Curitiba
53 anos de hip hop: as muitas vozes que construíram o rap curitibano
De DJ BK12 ao Grupo J.A.C., de Karol Conká a PECAOS, diferentes gerações fizeram do rap uma das expressões mais fortes da cultura urbana curitibana
Foto: Foto: Ricardo Marajó/SMCS
Por redação
Há 53 anos, uma festa no Bronx, em Nova York, entrava para a história. Em 11 de agosto de 1973, DJ Kool Herc comandou uma festa de volta às aulas organizada por sua irmã, Cindy Campbell, no número 1520 da Sedgwick Avenue. Ao prolongar os breaks das músicas com dois toca-discos, ajudou a estabelecer um dos marcos simbólicos do nascimento do hip hop.
Mais de cinco décadas depois, o movimento que nasceu nas comunidades negras do Bronx ganhou outros sotaques, territórios e formas de expressão. Chegou ao Brasil, encontrou as periferias, ocupou ruas, praças, bailes e palcos e passou a contar histórias a partir de diferentes realidades.
Em Curitiba, o rap também construiu uma trajetória própria. Uma história formada por DJs, MCs, produtores, grupos e coletivos de diferentes gerações — e que continua sendo escrita.
No aniversário do hip hop, A Cena percorre alguns dos caminhos e nomes que ajudam a contar a história do rap curitibano.
Os primeiros passos
Para entender a formação da cena em Curitiba, é preciso voltar aos anos 1990.
Um dos nomes apontados como pioneiros é DJ BK12. Kleber Gregório começou como MC em 1993 e, posteriormente, ampliou sua atuação para a discotecagem, produção musical, beatmaking e arte-educação. Ao longo das últimas décadas, participou de projetos e iniciativas que ajudaram a fortalecer o hip hop na cidade e também passou a atuar na formação de novos artistas.
Sua trajetória também revela uma característica que acompanha o rap curitibano desde os primeiros anos: a criação de espaços para que a cultura aconteça.
Em 2022, por exemplo, BK12 levou o rap para o Teatro da Vila, na CIC, dentro da Oficina de Música de Curitiba, em uma apresentação que reuniu artistas como Beduíno, Jaquelivre, Simonetti e ISK. O palco, localizado em uma das regiões periféricas da cidade, tornou-se também espaço de encontro entre diferentes gerações.
A cena independente
Entre os nomes que ajudaram a movimentar o rap curitibano nas décadas seguintes está Cadelis.
O artista começou a escrever suas próprias letras no final dos anos 1990 e iniciou sua trajetória como MC em 1999. Em 2002, participou da formação do grupo Agamenom, ao lado de Cilho, Bigue e Karol Conká.
Outro personagem importante dessa construção é Cabes. O rapper e produtor Ricardo Pires nasceu em Curitiba e fundou o estúdio Track Cheio em 2004. O espaço se tornou um ponto importante para a produção independente da cidade e ajudou a aproximar artistas e produtores de diferentes gerações.
Cabes lançou seu primeiro disco, Todo Dia É Assim, em 2009 e, desde então, construiu uma trajetória que inclui trabalhos com nomes como Karol Conká, Nave Beatz, Dow Raiz e Karol de Souza. Em sua própria apresentação artística, ele se define como um dos protagonistas da cena de rap de Curitiba e destaca a contribuição da Track Cheio para pavimentar o caminho da música urbana produzida na capital paranaense.
É uma dinâmica que aparece repetidamente na história do rap local: os artistas não apenas produzem música, mas também constroem as estruturas que permitem que outros artistas produzam.
Da CIC para o mundo
Se estúdios e selos ajudaram a formar uma rede independente, os bairros também foram fundamentais para a construção da identidade do rap curitibano.
Um dos exemplos mais marcantes é o Grupo J.A.C., formado por Hauly, Menthor, Betinho Celanex e Mano Cappu.
Há cerca de duas décadas, o grupo transforma em rimas a rotina, as adversidades e as histórias dos moradores da Cidade Industrial de Curitiba, a CIC. O bairro não aparece apenas como cenário: é parte da identidade e da narrativa construída pelo grupo.
A trajetória do J.A.C. também mostra como o hip hop pode ultrapassar a música.
O grupo participou do curta-metragem Ainda Ontem, que recebeu o prêmio de Melhor Concepção de Som no Festival Cine Jardim, em Pernambuco. A produção foi mais uma experiência que aproximou os rappers do audiovisual.
Essa passagem da música para o cinema e para a televisão se tornaria ainda mais significativa nos anos seguintes.
Mano Cappu e o audiovisual
Entre os integrantes do J.A.C., Mano Cappu construiu uma trajetória especialmente ligada ao audiovisual.
Rapper, roteirista e diretor, Cappu passou a utilizar também o cinema como ferramenta para contar histórias relacionadas às periferias e às experiências que atravessam sua própria trajetória.
Em 2019, ele e os demais integrantes do J.A.C. participaram da série Irmandade, da Netflix, estrelada por Seu Jorge e Naruna Costa.
A participação foi resultado de uma seleção realizada em Curitiba. Hauly, Menthor e Mano Cappu fizeram parte do elenco, enquanto Betinho Celanex trabalhou na equipe de produção. Cappu interpretou o personagem Pito, e Hauly e Menthor também aparecem na série. A produção teve a Penitenciária Central do Estado, em Piraquara, entre suas locações e estreou na Netflix em 190 países.
Para artistas que já utilizavam o rap para falar sobre território, desigualdade e experiências da periferia, a televisão abriu outra possibilidade de contar essas histórias.
E a frase que sintetizava o desejo do grupo naquele momento dizia muito sobre sua trajetória:
Da CIC pro mundo.
Karol Conká e a projeção nacional
Outra artista fundamental para compreender a história do rap curitibano é Karol Conká.
Sua trajetória começou ainda na adolescência e passou por grupos e encontros que faziam parte da cena local. A artista posteriormente ganhou projeção nacional e se tornou uma das rappers brasileiras mais conhecidas de sua geração.
O trabalho com o produtor curitibano Nave Beatz, especialmente a partir de Batuk Freak, ajudou a consolidar uma sonoridade que dialogava com o rap, a música negra e outras referências da música brasileira.
Karol também representa um momento importante de ampliação da presença feminina no rap. Sua trajetória ajudou a colocar uma voz curitibana em espaços nacionais e internacionais e mostrou que a cena produzida na cidade poderia alcançar públicos muito além do Paraná.
Muitas gerações, muitos caminhos
A história do rap curitibano não termina nos nomes que alcançaram maior projeção.
Artistas como Nel Sentimentum, Karol de Souza, Dow Raiz, Nairobi, Hurakan, Savave e Mentekpta, entre muitos outros, fazem parte de diferentes momentos dessa construção.
Também há produtores fundamentais para essa trajetória, como Nave Beatz e Laudz, que ajudaram a desenvolver sonoridades e conexões que ultrapassaram a cena local.
E a renovação continua.
Um dos nomes que representa a produção contemporânea é PECAOS. O rapper curitibano vem ganhando espaço no cenário nacional e, em 2025, apresentou seu trabalho no Teatro do Paiol pelo projeto Brasis no Paiol. Na ocasião, a Fundação Cultural de Curitiba destacou seu diálogo com o boom bap e o álbum conceitual Kairós, lançado em 2024. O artista também abriu um show da turnê AmarElo: A Gira Final, de Emicida, e participou do Mad in Brazza, festival de rap e trap realizado no Paraná.
A produção de PECAOS mostra que a cena continua encontrando novas maneiras de dialogar com o rap tradicional e, ao mesmo tempo, alcançar novos públicos.
Uma cena que não cabe em um único bairro
CIC, Sítio Cercado, Vila Lindóia, centro e tantos outros territórios fazem parte de uma cidade em que o rap se desenvolveu de diferentes maneiras.
Não existe uma única cena curitibana.
Existe o hip hop dos primeiros DJs e MCs. Existe o underground dos anos 1990 e 2000. Existem os estúdios independentes e os coletivos. Existem as batalhas de rima. Existem artistas que chegaram aos grandes festivais e outros que continuam construindo suas trajetórias de forma independente.
E existe uma nova geração que encontrou nas plataformas digitais outras formas de produzir, lançar e circular sua música.
O próprio percurso de PECAOS ajuda a mostrar essa transformação: de uma cena construída em espaços alternativos e redes independentes para uma produção que também chega a palcos como o Teatro do Paiol.
Quando a própria cena conta sua história
A relação entre rap e audiovisual ganhou um novo capítulo com Mano Cappu e Betinho Celanex.
Os dois estão à frente de Fora do Eixo – Tem Rap no Sul?, série documental que amplia o olhar para a produção de rap na região Sul do Brasil.
Parte das filmagens foi acompanhada pelo Jornal A Cena, e o projeto reúne artistas e histórias ligadas à cultura hip hop, seguindo uma perspectiva construída a partir de quem vive e produz essa cena.
A série dá continuidade a um movimento que já aparece na trajetória do J.A.C.: utilizar o audiovisual como ferramenta para registrar territórios, personagens e manifestações culturais que muitas vezes permanecem fora das narrativas tradicionais.
O rap, que nasceu ocupando espaços e transformando experiências em música, passa também a ocupar as telas para registrar sua própria memória.
53 anos depois
Em 11 de agosto de 1973, uma festa no Bronx ajudou a dar início a uma revolução cultural que atravessaria fronteiras.
Hoje, 53 anos depois, Curitiba tem sua própria história para contar.
Uma história feita por DJs que ajudaram a formar a cena, por MCs que transformaram experiências em versos, por produtores que construíram estúdios e redes independentes, por grupos como o J.A.C., que fizeram da CIC matéria-prima para sua arte, e por artistas como Karol Conká, Cabes, Dow Raiz, PECAOS e tantos outros que continuam ampliando os caminhos do rap produzido na cidade.
Mas talvez a principal característica dessa trajetória seja justamente sua capacidade de se renovar.
O rap curitibano não pertence a uma única geração, a um único bairro ou a um único estilo.
Ele é feito de muitas vozes.
E, 53 anos depois do nascimento do hip hop, essas vozes continuam transformando território em música, experiência em arte e memória em movimento.
Redação | Jornal A Cena

