Crítica Teatral
O corpo como narrativa: Remix revisita clássicos com vigor renovado
Remix é um daqueles espetáculos que permanecem, que ficam. Um trabalho impecável, que vale a pena não só ver, mas rever.
Foto: Flavio Colker
Por Vanessa Ricardo
A dança como dramaturgia do corpo é assim que eu definiria os trabalhos da Cia de Dança Deborah Colker. Em suas criações, a companhia mergulha em temas complexos e os traduz em movimento, fazendo dos bailarinos verdadeiros intérpretes cênicos. Mais do que executar coreografias, eles constroem narrativas sensíveis, capazes de transmitir emoções e provocar sensações a cada gesto, a cada novo movimento.
Com mais de 30 anos de história, a Cia capitaneada por Deborah Colker estreou, em 2026, o espetáculo Remix, trabalho que celebra as três décadas de trajetória e revisita o percurso do grupo. Dividido em dois atos, o espetáculo resgata quatro obras que marcaram o repertório da companhia: Vulcão (1994), Rota (1997), 4X4 (2002) e Belle (2014). O resultado é uma obra inédita, que ao revisitar a trajetória, mostra o quanto é potente e intensa.
Com 16 bailarinos em cena, Remix, é um dos trabalhos mais ousados, pois apresenta diferentes cenários e estruturas, propondo, a cada momento, novos desafios e tirando o fôlego de quem assiste. Por isso, é difícil apontar qual é o melhor momento: cada cena se destaca à sua maneira, seja pelo uso de um pano gigante, onde uma bailarina dança em diálogo com bailarinos do outro lado, seja pela precisão dos movimentos entre os vasos ou ainda pela combinação de leveza e força na roda de sete metros.
Impossível não destacar o trabalho da equipe criativa, com os cenários grandiosos assinados por Gringo Cardia, o figurino de Claudia Kopke e a trilha sonora de Berna Ceppas, um desafio conduzido com delicadeza, ao reunir ritmos e canções distintos. A iluminação, assinada por Eduardo Rangel, completa esse conjunto, que só engrandece ainda mais o trabalho.
Remix é um daqueles espetáculos que permanecem, que ficam. Um trabalho impecável, que vale a pena não só ver, mas rever. A uma hora e quarenta de duração passa como um piscar de olhos; fica a sensação de que poderia se estender, e isso não é uma crítica, mas um indicativo da força e do envolvimento que a obra provoca.

