Crítica Teatral
Entre a Loucura e a Lucidez: um espelho incômodo da sociedade
Gerald chama todos à responsabilidade. E o faz com inteligência e novamente multifacetado. Inúmeras linguagens são sobrepostas para oferecer à plateia esclarecimento sobre sua própria ignorância “existencial”, por mais paradoxal isso possa parecer.
Foto: Robert Schwenck
por Leonardo Talarico
Procurando Sinais de Vida Inteligente foi escrita em 1985, nos Estados Unidos, por Jane Wagner e restou encenada por Lily Tomlin. A obra é uma importante crítica social.
As contradições humanas, o pertencimento da mulher na sociedade, a lógica capitalista e os dilemas da vida contemporânea desfilam no texto da premiada dramaturga.
A personagem é uma ex-consultora criativa já devidamente “enlouquecida” que cata lixo nas ruas e acredita que extraterrestres entraram em contato para descobrir (por meio dela) se ainda existem sinais de vida inteligente no universo? Quem são essas pessoas? O que elas representam? Ela perdeu realmente a sanidade? Ou a realidade? Todos? Ainda reside certa empatia entre nós? Estamos ainda voltados minimamente à realidade do outro ou o outro está no reflexo da autorreferência?
O texto trafega em um limite tênue entre os padrões sociais, o capitalismo, a cultura de massa e os limites das relações humanas. E de 1985 aos tempos atuais temos os acréscimos de Gerald Thomas em atualização e construção.
O espetáculo caminha por um texto final a oferecer ironia, compaixão, contradições humanas, desafios filosóficos e percepções claras sobre o nosso espectro diminuto na sociedade.
A quarta parede é rompida desde a interpretação e convoca o público à “loucura” conglobante. Personagem e plateia entrelaçadas pelo texto em conluio.
O próprio Teatro é desafiado enquanto linguagem eficiente. Nada escapa a Gerald Thomas. A obra é uma tapa na cara muito bem dada nos falsos intelectuais.
Gerald chama todos à responsabilidade. E o faz com inteligência e novamente multifacetado. Inúmeras linguagens são sobrepostas para oferecer à plateia esclarecimento sobre sua própria ignorância “existencial”, por mais paradoxal isso possa parecer.
Algumas precisas risadas atestam a nossa inconsistência social não percebida. Não são risadas de identificação, mas de mero entretenimento. Mas o diretor chega misericordioso ou entende a incapacidade de ser compreendido na totalidade.
Danielle Winits realiza o seu primeiro monólogo e o faz com categoria. É um espetáculo de fôlego e dirigido por um criador com assinatura.
Winits abre todas as suas ferramentas e apresenta uma interpretação madura e com poucos recursos já manejados por ela em outras oportunidades.
Atua de forma horizontal, olhos grudados na plateia, apresenta uma personagem bem construída e não mede esforços para deixar em cena todo campo de afetividade necessário à contação da complexa história.
É uma personagem a percorrer inúmeras camadas próximas e sentimentos para conseguir chegar ao fim da peça.
O espetáculo atinge com êxito todas as suas pretensões políticas e informa estar o Rei nu. O Rei? Todos.
O texto bem “expelido” (lírico e épico) por Winits é afiado duas vezes: na escrita e na interpretação.
Winits está muito bem em cena. Totalmente entregue, morta na coxia.
O cenário maximalista não reduz o impacto da atriz. Ao contrário, funciona como uma esteira acelerada para Winits correr atrás. E ela o faz.
O acabamento é muito bom e nada lá está por acaso. Na mesma linha de raciocínio, os adereços.
Tudo tem razão de ser. Nada por vaidade ou excentricidade. E de bom gosto.
O desenho de luz é muito bem estabelecido e apresenta recortes e cores que intensificam as ocasiões dramáticas, bem como as demais passagens cênicas. Por vezes, protagoniza (cena final).
O figurino possui uma característica interessante. É proveniente de um ambiente de lixão, mas bem cortado.
E isso não é uma observação negativa. Bom encontrar resquícios de “costura teatral” nos figurinos.
E é também mais uma interessante contradição (talvez) posta em cena. O figurino é estético e adequado aos instantes da protagonista.
A trilha sonora abre campo ao desenvolvimento dramático. Traz pulsação e oferece campo para entrarmos nos estados de espírito das cenas.
Está também a serviço da obra.
O púbico parece – por vezes – um réu que não entendeu sua posição no julgamento. Um prazer assistir a uma obra que não emagrece para caber na vida.
Como é bom assistir a um espetáculo dirigido por um “louco” de verdade.

