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Opinião

O desafio de atualizar Vale Tudo em 2025

Outro grande desafio é lidar com a memória afetiva do público. Novelas não são apenas produtos audiovisuais; elas fazem parte da vida dos brasileiros.

Publicado

em

por Diogo Marcelo

Nesta segunda-feira, 31 de março, estreou Vale Tudo, a nova novela das nove da Globo, um remake do clássico de 1988. A produção é uma das grandes apostas da emissora para celebrar seus 100 anos e os 60 anos da TV Globo no ar. Escrita originalmente por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, Vale Tudo marcou época ao questionar: “Vale a pena ser honesto no Brasil de hoje?”. Sua abordagem crítica e personagens extremamente realistas fizeram da trama um marco na teledramaturgia brasileira, considerada uma das melhores novelas já produzidas.

Agora, em 2025, Manuela Dias assume a difícil missão de atualizar a obra sem perder a força da narrativa original. Adaptar um clássico não é apenas uma questão de modernizar cenários e figurinos, mas de traduzir seus temas para um novo contexto social, político e tecnológico. O Brasil mudou desde 1988, e os desafios éticos continuam os mesmos, mas se apresentam de formas diferentes. Como recontar essa história para um público que agora consome novelas de maneira fragmentada, assistindo no tempo que quiser, através do streaming?

A experiência de assistir a uma novela mudou. Se antes a televisão era o centro da sala e as famílias acompanhavam juntas cada capítulo, hoje o público tem o poder de escolher quando e como assistir. O formato folhetinesco diário, com cerca de 200 capítulos, precisa competir com a agilidade das séries sob demanda. A Globo, que já adaptou sua forma de exibição com o Globoplay, precisa equilibrar tradição e inovação para manter a novela relevante.

Outro grande desafio é lidar com a memória afetiva do público. Novelas não são apenas produtos audiovisuais; elas fazem parte da vida dos brasileiros. Personagens icônicos entram nas casas dos espectadores diariamente, tornando-se figuras quase reais. Ao revisitar uma obra tão marcante, sempre surgem comparações: “Essa atriz não se parece com a original”, “Esse ator não tem o mesmo tom do anterior”. O público se sente dono da história, e qualquer mudança pode gerar resistência.

Um dos momentos mais emblemáticos da novela original foi a morte de Odete Roitman, magistralmente interpretada pela saudosa Beatriz Segall, exibida exatamente no dia 24 de dezembro de 1988. O mistério sobre sua identidade manteve os brasileiros vidrados, transformando a revelação da assassina – Leila, interpretada por Cássia Kis – em um dos maiores acontecimentos da teledramaturgia. Manuela Dias já revelou que essa trama seguirá no remake, mas será que terá o mesmo impacto?

O gênero novela é um patrimônio cultural da TV brasileira e segue como um dos produtos mais importantes da dramaturgia nacional. O primeiro capítulo trouxe boas surpresas ao apresentar alguns de seus principais personagens e intérpretes: Raquel Accioli (Taís Araújo), Ivan Meireles (Renato Góes), Maria de Fátima (BellaCampos) e César Ribeiro (Cauã Reymond). A fotografia se destaca, trazendo uma estética moderna, enquanto a trilha sonora mescla novidades, como Shakira, e clássicos da versão de 1988, como Isto Aqui o Que É – Caetano Veloso.

Um dos grandes acertos do remake foi manter no tema de abertura a música Brasil, de Cazuza, interpretada por Gal Costa. A nova abertura, embora modernizada, presta uma homenagem visual à original, evocando a mesma força e simbolismo que marcaram a primeira versão da novela.

O desafio de Vale Tudo em 2025 não é apenas contar novamente a história, mas fazer com que seu impacto permaneça tão forte quanto foi há mais de três décadas.

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