Festival de Curitiba
O aprender a gritar de uma “Raiz”
A obra de Greice mistura teatro, dança e performance, não se limitando dessa forma somente a um único gênero, mas fazendo-os escorrer junto com ela em cena.

por Carlos Canarin
Integrando a programação do FRINGE, a Mostra Mulheria na Alfaiataria reúne em sua programação solos, performances, shows e instalações promovidas por artistas mulheres da cidade. O objetivo da ação, como o nome já nos sinaliza, é intercambiar processos criativos que tem como protagonista as artistas, englobando aspectos de interseccionalidade tais como os marcadores cis, trans, brancas e negras. Dentre os trabalhos da Mostra encontramos o espetáculo “Raiz”, da atriz e produtora Greice Barros, que estreou no ano passado no Espaço Obragem.
A obra de Greice mistura teatro, dança e performance, não se limitando dessa forma somente a um único gênero, mas fazendo-os escorrer junto com ela em cena. Não há uma dramaturgia discursiva, digo, um texto falado. A criação de imagens, paisagens sonoras e a relação corpo-som-espaço é o que realmente interessa, aproximando assim a ideia de um teatro como convite à experiência para quem participa/assiste, elaborando um outro tipo de relação não-convencional se pensamos nas bases de uma encenação mais tradicional.
A ideia de experiência dos sentidos nos invade, inclusive pelos cheiros. No cenário, encontramos diversos frascos, vidrinhos cheios de temperos e aromas que perfumam e nos remetem a outras espacialidades, memórias, tempos. São quase como capturas da natureza em seus mais variados tons e cores. É um caminho cenográfico que poderia ser mais explorado ao decorrer do trabalho, devido às possibilidades de explorar mais os cheiros, as texturas e as cores que ali estão, como ao pintar um quadro, criando mais um tipo de paisagem dentro do caleidoscópio que se forma a todo instante.
O som me parece ser fundamental para aquilo que está sendo testemunhado. É uma perseguição que acontece tanto pelo corpo da performer quanto pela criação sonora assinada por Lu Faccini, que acerta em cheio ao quase psicodelizar o que ouvimos, como se percorresse toda a estrutura de um rizoma, mapeando-o, escavando-o pela sonoridade imaginada.
Não acredito que Raiz tenha um único sentido, mas se tento descrevê-la é impossível não pensar naquilo que é ancestral não somente a nós todos, mas sobretudo quando o corpo de uma mulher está ao centro. Uma mulher que aprende a caminhar e também a gritar, como se estivesse nascendo junto com o seu próprio grito. E atravessando isso tudo está a própria relação ancestral com a natureza em suas múltiplas definições, numa relação menos mental e racional, mas pelos sentidos que existem na lá dentro da raiz de um corpo.