MISTURA FINA – Clarissa Bruns é samba no pé!

“sou solidária a quem não teve a mesma sorte, tanto na arte, quanto em outras áreas. Estou tentando dividir essas oportunidades que tive ao máximo. Estamos juntas e juntos!”

Por Giseli Canto

Fico feliz em falar sobre música, composição e da beleza que essa arte tem, pois faltam palavras, argumentos pra dizer que temos muitos condões mágicos onde podemos desfruir e enriquecer nossos dias. Mais feliz ainda, quando posso falar de quem tenho observado como artista. Sou o que dizem por aí, um paradoxo. Pode ser! Desafio as opiniões porque a exposição as vezes é inevitável. Depois que o “relativo” virou moda, tem gente demais consumindo de menos. A arte! Ainda bem que, muita gente, não pratica essa “relatividade”. Que bom! Não estou sozinha! Pretendo engrossar essa fileira de bom gosto, competência e qualidade das plateias. É preciso saber ouvir e escolher.

Hoje falo de uma jovem que tem colocado seu talento nas prateleiras descobertas do Brasil. Tenho ouvido suas composições e interpretações com execuções impecáveis de músicos, em sua maioria, curitibanos – a cantora e compositora curitibana Clarissa Bruns. Sua música é marcada desde muito cedo por diversos momentos que a definiu com alguns estilos. Foi a fundo no samba e surpreendeu com suas composições. Seus sambas a levaram aos cantos de outros estados muito arraigados e fortes no gênero. Sua tendência musical percorre as melodias sensíveis que impulsionam o cantar de quem ouve.

A artista tem várias composições que podem ser apreciadas em seu canal do YouTube: Verbo em Mi Menor; Dona Janaína; A Tal Liberdade; Você Vacilou; O amor dá corda no mundo e outras. Com certeza você vai comprovar sua voz delicada misturada com as letras fortes. Da mesma forma, seus sambas trazem essa suavidade na interpretação e a robustez na composição.

Em abril, Clarissa lançou o single autoral “Todo Mundo é Negro”, com participação especial da intérprete Grazzi Brasil, com arranjos, direção e produção musical de Fernanda Porto que segundo Clarissa, o single autoral enaltece, do começo ao fim e de forma contundente, a Cultura Negra. Tem mais, ela promete ao final deste ano ainda, um álbum inteiro novo, que contará com a participação do cellista mundialmente reconhecido Jacques Morelenbaum, com previsão de lançamento até o final do ano.

Já estou namorando essa coluna há tempos. Esperei, embora com desejo de falar assim que recebi o novo material, fiz uma pausa para ouvir atentamente a produção da cantora e não falar aqui só pelo gosto da canção ou pelas particularidades de quem de longe sempre acompanhou seu trabalho.

há muitos anos atrás levei Francis Hime para ouvi-la no antigo Zero 41. Um bar lindo que existia no Shopping Novo Batel. Depois do show, Francis não queria ir a um lugar com música ao vivo. Claro! Seus ouvidos exigentes tinham medo. Insisti e disse a ele que conheceria um lugar lindo e ouviria o talento de uma jovem cantora. Acredite! Você não vai se arrepender! Confie em mim, eu disse. Francis Victor Walter Hime foi homenageado na Ópera de Arame no programa de Plínio Oliveira, no qual eu também cantei. Um ídolo de muitos que gostam de Bossa Nova e MPB. Mesmo rodeado de admiradores, conseguimos furar esse cerco e fomos ouvir ao tal Bar ouvir Clarissa Bruns. Chegamos quase no final da apresentação da cantora, mas sentamos e em silêncio ele a ouviu. Antes de sair, pedi a Clarissa que viesse à mesa e o apresentei. Não sei se ela lembra do fato, mas teve um dos ouvidos mais significativos da história da música dizendo: não pensei que fosse ouvir tão boa música e tão linda voz. Clarissa Bruns teve o reconhecimento do seu talento pelos ouvidos desse ícone.

Acredito que essas pequenas histórias sejam grandes incentivos para nós, que vivemos em caminhos tão difíceis. Vivemos de música, sofremos o preconceito da profissão e ainda somos mulheres. Não por isso! Como mulher não reclamo porque as armas que temos são infinitamente fortes, milenares, carregamos no ventre e a história pode ratificar. Nossos padrões de sofrimento são altos por isso a força nos circunda; nossa resiliência é prima dona do sucesso; não nascemos, herdamos a vida; não morremos, somos transformadas em herança e legado. Não vou falar de todas, porque todas são muitas, apenas um pouco de Clarissa Bruns.

Trago um recorte da nossa conversa que começou há alguns meses. Depois de ouvir a produção de “Todo mundo é negro”.

Giseli: Tem algo novo depois de “Todo mundo é negro?

Clarissa: Estamos na produção do meu próximo disco autoral, com produção de Thiago Duarte e que terá participação especial Jacques Morelenbaum, Livia Nestrovski, Suzie Franco e João Arnas.

Giseli: Como surgiu essa composição?

Clarissa: Eu comecei a compor sambas-enredo quando a escola Nenê de Vila Matilde de SP escolheu Curitiba como enredo. Meu primeiro samba-enredo, foi finalista daquele ano. Fui a primeira mulher na história da Nenê, a ir pra uma final de concurso sozinha.”  Depois disso, continuei experimentando compor, inspirada pela sinopse das escolas. TODO MUNDO É NEGRO, eu compus pra participar de um concurso da escola Peruche. Um enredo maravilhoso. Mas acabei não inscrevendo o samba por falta de verba para gravação, banda e etc, para ter alguma chance de competição. Acabei entrando em um grupo/parceria de um outro samba e essa composição ficou na gaveta por um tempo. Até que fui aprovada em um edital para realizar essa produção. A Fernanda Porto adorou. A Grazzi, que tinha cantando lá no meu primeiro samba-enredo comigo, topou e agora ele está girando muito por aí. Estou muito feliz por transbordar essa mensagem tão importante aos sete ventos.

Giseli: Como está trabalhando na pandemia?

Clarissa: Estou trabalhando o novo disco com entrega e amor, como sempre. Honrada, mais uma vez, com participações preciosas. Projetos, tenho para as próximas décadas já (rs), mas vamos vivendo um dia de cada vez. Durante a pandemia, segui com meus projetos e com minhas aulas do Conservatório de MPB de Curitiba e meus alunos maravilhosos. Tive a sorte de conseguir me manter plenamente produtiva no trabalho remoto. Todo Mundo é Negro foi feita à distância também. Uma soma de papéis e demandas enorme, a pandemia exigiu de mim e de tantas mulheres, não é? Mas sou solidária a quem não teve a mesma sorte, tanto na arte, quanto em outras áreas. Estou tentando dividir essas oportunidades que tive ao máximo. Estamos juntas e juntos!

Apesar de muitos considerarem que só quem faz samba são os cariocas e paulistas, estão aí as composições de Clarissa Buns pra você ouvir e saborear mais uma criação curitibana. Eu morri de orgulho por Curitiba ter sido escolhida como enredo de uma escola de samba e por Clarissa estar no enredo da nossa história como cantora, como compositora e como representante da cidade. O que deixa essa história linda são os caminhos que levaram a compor e realizar esse trabalho. O que faz desse trabalho uma obra riquíssima, além da qualidade, é a importância dada à Curitiba pelas mãos de Clarissa e o orgulho que seu público pode ter. Divirta-se com a obra de Clarissa Bruns porque deixo você com mais essa criação da terra.

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Você poderá discordar, perguntar, não entender direito, mas precisa gostar de estar aqui comigo! Do contrário não vale a pena!

Espero você aqui na próxima!

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Giseli Canto

Giseli Canto é Arte-educadora, cantora, roteirista, produtora, apaixonada pela música, pela família e pelos amigos, que considera sua segunda família e tudo que se refere ao poder transformador dessa arte. Ama uma boa conversa e está sempre aberta a novos caminhos. Seu olhar otimista para o ser humano faz de sua vida um mundo recheado de boas relações e experiências.

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