Cinema
Marty Supreme: um grande ator em meio ao excesso
Para Leonardo Talarico Marins, diretor e membro pleno da Academia Brasileira de Cinema, o filme se perde na própria escalada dramática — e só não naufraga graças à atuação de Timothée Chalamet.
Por Leonardo Talarico Marins
Diretor e Membro Pleno da Academia Brasileira de Cinema.

O filme Marty Supreme não está no mesmo nível do ator Timothée Chalamet. Em verdade, parecem duas “obras” distintas. O trabalho de Timothée é excelente. A construção da personagem tem o pertencimento da sua notória obsessão. As cenas, por exemplo, jogando tênis de mesa trazem à personagem extensa credibilidade. Não bastasse, todas as afetividades estão no tamanho e temperatura certas. A reação – sem cortes – da primeira vez que vê o filho na maternidade é lírica. Interpretação com pausas, caminha para o destino e implode com perfeição. O andamento dramático da personagem é muito bem estabelecido. Por fim, Chalamet – obrigatório ganhar o Oscar – desvencilha-se de todos os erros da película.
Os demais atores (indicados como melhor elenco) oscilam, mas não comprometem. O problema é que o mundo é comparativo. Os “coadjuvantes” somem diante do protagonista. O filme começa bem e segue mal, recolhendo todas as desnecessidades possíveis. A obra peca pelo excesso e intensidade de acontecimentos na escalada dramática cinematográfica, ou seja, os desafios que aparecem à personagem após esclarecer o conflito. O “vai dar errado” é cansativo. Parece corrida de obstáculos sem corrida. Ao invés de escolher alguns e escalonar gradualmente, o cineasta coloca tudo que vê pela frente com maior ou nenhuma importância. Joga o famoso “ato 2” do cinema no lixo.
No terceiro ato, que é a resolução, não há tempo. As coisas inúteis acontecem “muito e demais”. São diversas histórias secundárias entrelaçadas e apresentadas de forma jocosa. Vamos relembrar: não acreditam em mim; não tenho dinheiro; não querem me pagar; não acreditam na minha ideia industrial; não querem me demitir; golpe dá certo e dá errado; golpe dá certo e dá errado; golpe da certo e dá errado; gravidez; serei preso; traição; sexo lugar errado (inacreditável); cachorro etc. Essas histórias aparecem abruptamente, desconexas e inverossímeis. O filme passa cansando. Há raros momentos reflexivos. É o famoso: “não para, não para, não para não”. O público sai exausto do cinema. E o problema não é o tamanho da “sala”, mas a quantidade de assunto à mesa.
A trilha sonora está um tanto elevada no filme. Qual filme? Há muitos. Como “trilhar” um rolê aleatório? Indicada para o Oscar! A direção de fotografia (indicada também) não se destaca. Até porque não tem tempo para pensar, tamanha ocupação de rodar sequências. A fotografia pulsa igual a trilha. De verdade, não é um filme; é uma novela compilada com a presença de um brilhante ator. Tem mocinho que é bandido; traição (várias vezes); sexo proibido; humilhação capitalista; golpe; assassinato; gravidez não desejada; melodrama; chantagem; cachorro; conflito entre mãe e filho; briga etc. A diferença é que novela passa em meses. Até a “continuidade” falha no filme.
Enfim, uma obra que apenas a indústria e a política explicam as nove indicações. Sejamos justos: oito, porque o prêmio de melhor ator é certo como a luz do sol e a mediocridade do filme.

