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Cinema

Entre a estética arrebatadora e a romantização incômoda de “O Morro dos Ventos Uivantes”

A leitura autoral de Emerald Fennell privilegia a beleza visual e a paixão trágica, mas suaviza a violência, o ressentimento e as tensões sociais que tornam o romance original uma narrativa áspera, grotesca e nada romântica.

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em

Por Vanessa R Ricardo

Não se pode negar que “O Morro dos Ventos Uivantes”, na leitura da diretora inglesa Emerald Fennell, deslumbra pelo apuro estético. A fotografia é belíssima, com enquadramentos que se aproximam de verdadeiras obras de arte; os figurinos são impecáveis e a trilha sonora é construída com precisão atmosférica. Soma-se a isso a atuação intensa de Margot Robbie e Jacob Elordi, que sustentam com força dramática o eixo central da narrativa.

Entendo que o filme se assume como uma visão autoral da diretora, e não como uma adaptação fiel ao romance de Emily Brontë. Ainda assim, o que incomoda é a romantização dos personagens e das relações. No livro, estamos diante de uma história grotesca, marcada por violência psicológica, crueldade de classe, tensões raciais e vínculos profundamente destrutivos. Não se trata, essencialmente, de uma história de amor, mas de obsessão, ressentimento e ciclos de abuso que atravessam gerações.

Ao suavizar essas camadas e transformá-las em uma paixão trágica mais palatável, o filme desloca o eixo moral da obra e dilui justamente aquilo que a torna tão perturbadora: sua recusa em idealizar afetos. Falta também maior aprofundamento dos personagens secundários, que permanecem esquemáticos, enquanto se enfatiza a disputa entre mulheres e se constrói uma certa camaradagem masculina mais complacente, criando um desequilíbrio dramático.

O resultado é um filme visualmente arrebatador, mas que, ao romantizar figuras essencialmente violentas e ambíguas, enfraquece a dimensão crítica do romance. A obra original não busca redimir seus personagens nem oferecer catarse romântica; pelo contrário, expõe o lado mais sombrio das relações humanas. E é justamente essa aspereza, esse desconforto moral, que faz do livro uma narrativa radical — algo que se perde quando a tragédia é revestida por uma estética de amor impossível.

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