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Festival de Curitiba

Encantado”: A Obra-Prima Afro-Indígena de Lia Rodrigues

a obra de Lia Rodrigues emerge como um farol de autenticidade e urgência

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em

Foto: Lina Sumizono

por Vanessa R Ricardo

Não é sempre que Curitiba tem a oportunidade de testemunhar um espetáculo de dança tão visceral e politicamente potente quanto “Encantado”, da Companhia Lia Rodrigues. Presente no Festival de Curitiba, a obra transcende a noção convencional de dança contemporânea, desafiando estruturas eurocêntricas e oferecendo ao público um ritual de resistência, memória e celebração.

Enquanto grande parte da dança contemporânea ainda se alimenta de referências clássicas europeias, Lia Rodrigues nos presenteia com uma linguagem que bebe diretamente das raízes afro-indígenas. “Encantado” não é apenas um espetáculo; é um manifesto corporal. Os corpos dos nove bailarinos transformam-se em veículos de ancestralidade, evocando os movimentos dos orixás e a espiritualidade dos povos originários. A trilha sonora, composta por Alexandre Seabra com gravações da Marcha dos Povos Indígenas em 2021, mergulha o público em um universo sonoro que é tanto protesto quanto poesia.

O uso de 140 cobertores do Mercadão de Madureira não é um mero recurso cênico, mas um símbolo de coletividade e resistência. Os tecidos, manipulados com maestria, tornam-se extensões dos corpos, representando os “encantados” — entidades que habitam o imaginário espiritual afro-brasileiro e indígena. A coreografia oscila entre o individual e o coletivo, entre o silêncio e o grito, entre a solidão e a união.

O sucesso estrondoso das apresentações na França não surpreende. Em um momento em que a Europa busca (ainda que timidamente) revisar suas próprias narrativas coloniais, a obra de Lia Rodrigues emerge como um farol de autenticidade e urgência. A crítica francesa não poupou elogios, destacando a força política e estética de uma companhia que coloca a periferia e as vozes marginalizadas no centro do palco.

“Encantado” é mais do que dança: é um ato de cura e insurgência. Enquanto muitos festivais de dança no Brasil ainda privilegiam cópias pasteurizadas de repertórios europeus, Lia Rodrigues nos lembra que a verdadeira vanguarda está nas ruas, nos terreiros, nas lutas dos povos originários e negros. Curitiba teve o privilégio de assistir a essa obra-prima, mas o desafio permanece: quando nossa cena cultural abraçará, de fato, a potência da arte que nasce das margens?

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