A TERRA DO QUASE, A OBRA PRIMA DE ELIAN WOIDELLO

Por Brunno Manfra

Meu amigo Piero tem um estúdio e me disse que os adolescentes de hoje não escutam mais sequer uma música inteira. O que dizer então de um álbum? O novo trabalho do compositor ElianWoidello intitulado “A Terra do Quase”, entretanto, deve ser ouvido por completo. É aquilo que chamamos (ou chamávamos?) de álbum conceitual.

Quando o escutei, a primeira e mais óbvia referência que me veio foi a cidade de Curitiba. Ali estão seus personagens, templos, praças e figuras mitológicas. É a terra de onde parte o quase do autor curitibano. É a cidade que se aproxima do eixo Rio – São Paulo sem, contudo, dele participar; que se localiza na região sul, mas que não compartilha da cultura gaúcha que se estende pelo sul do Brasil até o Uruguai e a Argentina.

Depois de escutá-lo novamente, percebi que o álbum também trata – em uma espécie de metalinguagem – da própria criação artística e da reprodução da vida (como não o dizer?). É interessante notar que o álbum foi quase todo composto enquanto o artista vivia em La Plata, Argentina – nada como a distância para conseguirmos olhar para nós mesmos, não? – e, ao olhar para Curitiba, ele olhou para o mundo todo como atestam as referências a tantos outros lugares e cidades como Calcutá, Casablanca, Marrocos, Babilônia e La Plata. Ou às diferentes línguas utilizadas nas letras: português, espanhol, italiano, inglês, latim.

Não parece por acaso que a primeira música seja a homônima “A Terra do Quase” que, partindo do “Prado Velho, no centro de Curitiba”, reconhece a necessidade de “lutar contra os fascistas” e contra o “quase que se fez nesta terra”. Além da luta contra nossos tiranos internos, é importante ver que foi aí nesta cidade onde se fincou, no imaginário nacional, o locus primordial traduzido pelo nome de “República” de um autoritarismo neofascista (sim, é preciso dar nome aos bois e repeti-lo o quanto for preciso) consolidado através de um lawfare neocolonialista e, que de “res-pública” (coisa pública) não tem nada, mas tão somente um recrudescimento de um elitismo conservador, antidemocrático e violento. É aí também onde Lula, o líder popular, esteve preso por mais de um ano (e Elian era figura frequente nos shows e comícios pela liberdade do mesmo). O ex-presidente, por outro lado, também poderia ser visto como este líder que “quase” emancipou as pessoas. Ou agora livre, como um mito impotente ou uma musa estéril para realizar a “Revolução” cantada pelo autor na quarta faixa do disco. Pois a Revolução de Elian será conduzida não por mitos, mas por pessoas concretas, especialmente os “mendigos”, “putas”, “humilhados”, “delinquentes”, “travestis”, e outros que, para alguns, “a vida nunca foi uma vocação” e que, assim também, podem ser as musas cantadas pelo autor.

Uma das mais belas canções do disco é “Gilda”, que fala de uma figura lendária da cidade de Curitiba, dos anos 70. Mendiga e travesti barbada, diz-se que chegou à cidade com um circo e ali ficou. Vagava pelo centro e beijava as pessoas que passavam. Era, de Curitiba, “a maior passista do carnaval”. Foi encontrada morta em um casarão abandonado da cidade. O arranjo da canção é melancólico e triste como é o tempo presente, mas o antídoto-carnaval-irreverência-beijos-sem-fim está aí também ressuscitando do “lixo lógico” da modernidade tratado outrora por Tom Zé e nos traz outro presente-revolução.

Como resposta à necessidade de enfrentar o medo apresentada na primeira faixa parece ter sido composta a letra de “NuestroPeligro”. Cantada em um castelhano estridentemente portenho, nela é reconhecido pelo autor, depois de presenciar a morte de um amigo (poeticamente expressa no verso “miro la vida escaparseenundolor de color naranja”), que não há o que se temer quando viver é que é o nosso perigo (“por lo tanto, nena, quédateacáconmigo, estamos vivos y es lo que es nuestropeligro”). Sim, estamos vivos!

Talvez a mais bonita do álbum, a quarta faixa “Revolução” começa com um trânsito pelo piano por diferentes gêneros como marcha, milonga, jazz e tango. É de se ressaltar que o piano tocado pelo compositor – antes violonista – é o belo fio condutor instrumental do álbum e nele pude ouvir a expressão de certas melancolias que me remeteram, em alguns aspectos, ao álbum “Loki?” de Arnaldo Baptista e a algumas canções solo de John Lennon. A introdução instrumental começa então a ser permeada por um trecho de uma entrevista de Che Guevara de 1962 repetindo exaustivamente a frase “idea de lanormalización de relación”. Entra em seguida a letra com um cogito, ergo sum (penso, logo existo) de Descartes para depois introduzir a dimensão feminina da criação – “o eu de uma mulher” representada por Frida Kahlo, que “desenha lá do céu”. Silva Federici, em seu livro “Calibã e a Bruxa”, relaciona a filosofia de Descartes ao período de perseguição das mulheres – e do feminino – onde as mentes foram coativamente “separadas” dos corpos, permitindo que estes pudessem ser – assim como as mulheres – colonizados, domesticados e disciplinados para o trabalho capitalista e que, ao final, estas relações de dominação fossem tão normalizadas ao ponto de que as pessoas não mais as pudessem notar. Como solução, o artista parece ponderar – cogitar – sobre uma identidade situada entre o “Baixio das Bestas” (filme pernambucano) e Arrigo Barnabé (um dos mais influentes compositores do Paraná e do Brasil), mas limita-se a concluir que “esta cidade é fria”. E que o mundo deve ser virado de pernas pro ar, pois “deu pra ti” e Curitiba não é nenhuma Porto Alegre aonde se possa ir para curar o baixo astral. E para os entendedores que entenderão: a revolução – e a criação – será feminina.

E a Revolução de Elian continua na faixa seguinte “Deleuze e a Televisão”, quando a musa do desejo revolucionário-criador (“esses olhos que não param de me olhar”, “essas pernas que não param de cruzar”) se apresenta de forma inevitável e essa inevitabilidade se transfigura em angústia que, por sua vez, é acolhida pela canção (“De que vale uma canção bonita se não entrar no teu coração minha alma aflita?) sem vestígios de qualquer culpa disciplinadora (“eu não me arrependo de você”).

Em “Aos Piás de Um Outro Dia (Rapsódia da Música Curitibana)” há novamente referências à cidade de Curitiba, dessa vez de forma crítica. Não são poupados alguns músicos de jazz, que repetem pela cidade sua técnica avançada e seu preciosismo com os instrumentos, mas de forma tão sem alma quanto Dorian Grey de Oscar Wilde: “Cuidado, eles só querem o poder” pois são “deuses de alambique” diz a canção. Esta crítica não é feita somente nas letras desta canção, mas também musicalmente por todo o álbum que, esteticamente, se aproxima muito mais das canções brega latino-americanas, com levadas menos pedantes e vocais por vezes gritados ao ponto de soarem desafinados – desalinhados diria eu – mas cheias de alma. Ainda nesta canção, as críticas são estendidas às apresentações do mítico bar curitibano “Bardo Tatára”, onde o célebre compositor Tatára serve macarrão e compositores e músicos curitibanos tocam até altas horas da madrugada, em plenas segundas-feiras. Apesar do Bardo Tatára ser um dos espaços mais originais da cidade, o autor lamenta que ele também tenha perdido sua alma.

Em “Um Mesmo Rio”, Elian parece juntar esse destino pessoal do artista ao da humanidade – pelo menos o dos latino-americanos, incluindo aqueles que “bailanen La Plata” – enquanto sujeitos criadores de uma outra sociedade: “minhas lágrimas inundam um mesmo rio”. Não sem antes se despedir dos seus – e dos nossos – mortos (Marielles, Andersons, Guajajaras?). E daqueles mortos que ainda virão. Em seguida inflexiona: “Quando nosso sonho vai acontecer?”, discordando de John Lennon que decretou o fim do sonho alguns anos antes de Fukuyama decretar o fim da história. Mas o artista quer – “quero isso pra mim” – e reconhece o desejo ao mesmo tempo em que reconhece o impasse que não abandona a música em nenhum momento. Como resposta à questão persistente se o seu – e o nosso – destino será sempre um “quase”, aparece o dono da Tabacaria de Fernando Pessoa sorrindo enigmaticamente.

O disco termina com os dois pés na terra, através dos bumbos marcantes da canção “Quanto Eu Te Encontrar”. Aqui se representa o encontro com o outro e com o real. O real da revolução. E que bela imagem esta da revolução enquanto “estrondo”, pois qual seria o sentido mais apropriado para se referir a uma possibilidade emancipatória do que a audição, a escuta, a escuta do outro? “Festa na rua, dia de Revolução” canta o artista para finalizar o álbum acompanhado de um sintetizador lúgubre, mas recheado de acordes maiores cheios de esperança. Quando os clichês internalizados e normalizados nos levam a esperar por um crescendo instrumental ao final da canção, este não ocorre e isso nos proporciona um estado de estranheza tão libertadora quanto trágica.

Para terminar, fico feliz em confirmar que este álbum, que já havia escutado ao vivo só com voz e piano, é um dos mais densos e interessantes que ouvi nos últimos anos. É uma obra-prima do autor. Não sei quantas pessoas vão ouvir e quantas poderão gostar, já que não se trata de uma obra de entretenimento, mas é certo que ele é uma realização completa, não é um quase. O Éden, o Nirvana, a Beleza derradeira, a Liberdade absoluta, esses sim poderiam ser sempre um quase nesta vida que é “real e de viés”, como reconhece o próprio artista: “A vida, ela é pequena se caminhamos sempre em busca do fim”. O título desta faixa é “Quando Te Encontrar”:  afinal, o eu termina onde o outro começa, não é mesmo? E a gente muda as coisas quando caminhamos em destino a alguma utopia, mas quando para ela olhamos bem de perto, percebemos que ela não está lá. “Você não existe, Dindi”, disse Tom Jobim à sua musa inspiradora. Mas este trabalho de ElianWoidello a criou novamente.

Brunno Manfra é músico, compositor e crítico radicado em Florianópolis

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