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O Teatro enfrenta a violência incrustrada na sociedade reacionária

Atores não disputam protagonismo. A causa é nobre: fazer do Teatro entidade mobilizadora à percepção e evidência da violência estruturada.

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Foto: Renato Pagliacci

Por Leonardo Talarico

A arte objetiva contrapor visão reacionária da sociedade. 

O progressismo artístico possui por condão resistir, apresentar novas possibilidades e promover avanços.

Surge, assim, o famoso sistema de freios e contrapesos entre as estruturas de poder. Há demasiada violência incrustrada na estrutura do contrato social cujo apontamento cênico é imprescindível.

O Teatro possui também por função informar a violenta realidade normalizada cujo interesse é a manutenção do status quo da classe dominante. 

Há décadas, os movimentos identitários reivindicam sobrevivência e reconhecimento. E o assunto continua crescente e atual. Sobretudo, diante da polarização política estabelecida e estimulada. 

As violências de classe e de gênero impostas continuam explícitas. E mesmo quando a imprensa traz visibilidade para alguma ocorrência parece mera tentativa de estar alinhada, haja vista a desproporção entre o fato divulgado e a quantidade de casos a divulgar. 

A obra em cartaz “EDDY – VIOLÊNCIA E METAMORFOSE” refere-se ao episódio de violência sexual sofrido pelo escritor Édouard Louis, em 2012, em Paris. E muito mais!

O episódio está presente na obra “História da Violência”, e sua narrativa é atravessada por trechos de “O fim de Eddy” e encontra ápice nos fragmentos de “Mudar: método”.

A dramaturgia apresentada é escorreita. As pausas são muito bem controladas como necessidade de todos comungarem a respeito das fortes circunstâncias ocorridas. 

Há pensamentos e situações que exigem posterior silêncio.

Assim não o fosse, a velocidade hodierna arrastaria a violência institucional para mero acontecimento natural, como se não houvesse método de controle dos invisíveis. E essa partitura está posta pela direção com muita propriedade. 

A direção de movimento é inventiva e se aproveita das linguagens artísticas e da inteligência da plateia para assentar e multiplicar cenários verossímeis e dramáticos. 

Os atores desdobram-se em cena e conferem às personagens construções estruturadas. Não estamos diante de um mero espetáculo teatral, mas de um projeto de vida onde profissionais deixam evidente a necessidade de falar em primeira pessoa. 

Isso entrega uma atuação artística com pertencimento por meio de uma formatação de personagens mediante camadas de compreensão. 

Cada ator percorre sua contação de história (real e simbólica) por vetores antropológicos interessantes. 

Temos, por exemplo, a energia vegetal, mineral e animal acrescentadas ao espetáculo de acordo com as circunstâncias a serem interpretadas. 

O jogo cênico apresentado está muito bem costurado pelos três atores. Cada um deixa surgir seu brilho, mas é na teoria dos jogos que a obra se ergue. Na “trocação das cenas”, a realidade e os muitos aspectos simbólicos evidenciam o comprometimento com a causa. 

As distensões cômicas cumprem a função de marcar o absurdo que nos deixa perplexos e transmitem também a fragilidade física dos oprimidos e opressores. 

A peça tem a coragem de deixar fresta até para o sofrimento do agente da violência. E assim funciona a sociedade: captura força de gente igual para engendrar e enquadrar sua agenda de violência. 

Oprimidos contra oprimidos. 

Não podemos apenas sair em justificativa defensiva em favor dos agressores, mas é fundamental não restar atento apenas aos indivíduos, mas sim ao estrutural formador e persecutório. 

As coreografias estão comprometidas com a ambiência dramática e não apelos estéticos, inobstante entregue momentos de muita beleza. 

Atores não disputam protagonismo. A causa é nobre: fazer do Teatro entidade mobilizadora à percepção e evidência da violência estruturada. 

Todos os demais labores teatrais presentes também caminham em igual propósito. Realizam a mesma obra. O desenho de luz percorre as necessidades textuais com estética e ambiência dramática. 

O cenário e adereçamento investem no minimalismo para gerar e recompor espaços focados na presença do ator. 

O corpo artístico é quem traz força à montagem em todos os seus seguimentos. Por isso, todos os campos do saber teatral não descartam a “chegada dos atores”. 

O figurino utilitário não deixa, por exemplo, a história parar em admiração. Ele veste a necessidade da continuação da obra em movimento. Tudo orquestrado para de forma harmônica ouvirmos um grito social. E isso fica muito claro no fato dos regionalismos e especificidades dos atores não causarem mínima distração.

A decisão generosa de colocar a história à frente de todos deixa para segundo plano tudo que não precisa destaque. 

A trilha sonora compõe ambientes, passagens e tragédias como uma observadora de fundo dos eventos. 

Interessante também ponderar algumas quebras de expectativa proporcionadas pelo caminho cênico. 

Como se a peça de Teatro parasse e dissesse: vamos seguir qual caminho?

E o corpo da plateia, programado pela sociedade, quase se lança em decisão, mas se reequilibra e pondera. 

Para mim, essa é a maior força da apresentação: determinar um novo ponto de contato, percepção, esclarecimento e atuação diante das tragédias cotidianas. 

Uma obra para reafirmar o Teatro como proteção e melhoria social.

Uma obra social!

 

Ficha Técnica: 

Idealização, Produção e Realização: POLIFÔNICA (Luiz Felipe e Julia Lund). 

Direção e dramaturgia: Luiz Felipe Reis e Marcelo Grabowsky com João Côrtes, Julia Lund, Igor Fortunato

Direção de movimento: Lavínia Bizzotto

Preparação corporal: Alexandre Maia

Cenografia: André Sanches 

Assistente de Cenografia: Débora Cancio e Nicole Suzana Santos da Silva

Direção de tecnologia: Julio Parente (Para Raio)

Iluminação: Julio Parente (Para Raio) 

Figurino: Antônio Guedes 

Assistente de figurino: Mari Ribeiro

Criação de vídeo: Daniel Wierman

Trilha sonora: Luiz Felipe Reis

Direção musical: Carol Mathias 

Produção musical: Pedro Sodré 

Técnico de luz: Rodrigo Lopes e Gabriel Lagoas 

Operador de luz e vídeo: Rodrigo Lopes

Técnico-operador de som: Daniel Vetuani

Hair stylist: Amadeu Marins (Salão Ará) 

Make: Sabrina Sanm

Fotografia de estúdio: Renato Pagliacci

Identidade Visual: Clara Seleme (Paspatur)

Assessoria de comunicação: Dobbs Scarpa

Direção de Produção: Luiz Felipe Reis e Julia Lund(Polifônica) 

Produtor Associado: Sérgio Saboya (Galharufa)

Produção executiva: Roberta Dias (Caroteno Produções)

 

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