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Opinião

Das ruínas um grito pra cidade surda

A peça em si é cheia de acertos, de ótimas escolhas. E a opção pela simplicidade, como saída estratégica pra manter a ambiência é sublime de se ver.

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Foto: Bob Wolfenson

Por gabriel m. barros

​O anúncio de que o Cine Copan retomaria suas atividades agitou a cena cultural de São Paulo, sobretudo pelo primeiro evento que estão realizando: a encenação de Hamlet, denominado como Hamlet, Sonhos que virão. Somado a isso o nome de Gabriel Leone, que tem brilhado nas telas de cinema, dando vida a personagem central da trama. 

​A empreitada foi dirigida por Rafael Gomes e a adaptação do texto feita por ele e Bernardo Marinho. Mantendo ainda uma estética rústica, que podemos chamar de próximo das ruínas, o Cine Copan se tornou uma espécie de caverna em que Hamlet é vivenciado na sua máxima vertigem. As escolhas cênicas, como exemplo a do casamento de Gertrudes com Cláudio, tio de Hamlet, dão mostra da inventividade de toda a equipe, que conta com um elenco primoroso, que se reinventa em vários momentos, assumindo várias facetas ao longo da peça. Cito, de exemplo, Susana Ribeiro, que é Gertrudes e em dado momento da peça vira uma atriz da companhia de teatro que interpreta uma cena da tragédia Hécuba. 

​A peça em si é cheia de acertos, de ótimas escolhas. E a opção pela simplicidade, como saída estratégica pramanter a ambiência é sublime de se ver. As luzes, que em algum momento vão correndo numa linha, como uma espécie de rio seguindo seu curso, dão um impacto visual belo e inquietante, pra essa tragédia que mesmo quem não a assistiu a conhece minimamente. 

​Aliás, por ser uma tragédia que é cheia de frases conhecidas, a forma como tais formas são acionados também trazem beleza, por mostrar que sim, o texto shakespeariano tem vida própria e que a frase serve muito bem sozinha, mas que no seu contexto de origem possuí um poder ainda maior (lembro aqui do “há algo de podre na Dinamarca”, “há mais mistérios entre o céu e a terra”, ou o clássico “ser ou não ser?”). Ademais, outras escolhas foram muito acertadas, como a Ofélia, quando enlouquece, que se põe a cantar, e aqui entra Gregório de Matos, que fora musicado por José Miguel Wisnik, com Ofélia cantando mortal loucura, no seu desvario denúncia, dando outra conotação para o próprio ato da sua insanidade. 

Hamlet tem uma peça dentro da peça, a metalinguagem, o teatro que fala e pensa sobre si mesmo. No texto a personagem principal diz que o teatro é o espelho do real. E o que é apresentar Hamlet para o público paulista em 2026? Mais: o que é denominar como Sonhos que virão, dentro de uma tragédia? Me parece que a escolha dum teatro que lembra ruínas não é mera coincidência, sobretudo por um espaço cultural sendo reativado. É também um alerta da própria tragédia que o estado e município passam no setor cultural, mas não só. É um lembrete também de que apesar das tragédias os usurpadores, os Cláudios, também tem seu tempo de vilania extinguido e que a arte, a beleza da arte, perdura, mesmo que não a escutemos de todo. Mesmo quando preferimos ignorar, afinal, é o próprio Hamlet quem sentencia que “O resto é silêncio”.

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