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Carnaval

Baile dos Enxutos: o Gala Gay que fez história no Carnaval de Curitiba

Muito antes dos blocos ocuparem as ruas, a diversidade já brilhava nos salões da cidade

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Durante décadas, dizer que Curitiba “não tem carnaval” foi quase um clichê repetido à exaustão. Mas a história prova o contrário. Muito antes dos blocos contemporâneos ganharem as ruas, a cidade já vivia noites intensas de folia — e uma delas se tornou lendária: o Baile dos Enxutos, também conhecido como Gala Gay, realizado na antiga Sociedade Beneficente Protetora dos Operários.

Com auge nas décadas de 1970 e 1980, o baile acontecia tradicionalmente na segunda-feira de Carnaval e se consolidou como um dos eventos mais aguardados da programação carnavalesca curitibana. O salão da Sociedade Operário, no Alto de São Francisco, ficava lotado. Luzes, serpentinas, marchinhas e fantasias exuberantes compunham o cenário de uma festa que ultrapassava a simples diversão: ali também se construía resistência.

Um espaço de liberdade em tempos de repressão

Em um período marcado por conservadorismo e repressão moral — especialmente durante a ditadura militar — o Carnaval funcionava como uma espécie de suspensão das normas sociais. No Baile dos Enxutos, gays, travestis e pessoas dissidentes de gênero encontravam um raro espaço de visibilidade pública.

O nome “Enxutos” circulava como uma gíria irreverente dentro do meio LGBTQIA+, e o evento passou a ser conhecido como Gala Gay justamente por se tornar ponto de encontro da comunidade. Era uma noite em que a performance, o humor e a ousadia ganhavam o centro do palco.

Os concursos de fantasia eram um dos momentos mais aguardados. Plumas, paetês, vestidos glamourosos e personagens icônicos surgiam no salão, arrancando aplausos e flashes. No dia seguinte, não era raro que jornais da cidade estampassem imagens da festa, revelando uma Curitiba vibrante e diversa que nem sempre aparecia nos discursos oficiais.

Personagens que marcaram época

Entre as figuras que ajudaram a construir essa memória está a travesti Primavera Bolkan, que participou dos concursos e se tornou símbolo daquele momento. Como tantas outras pessoas que passaram pelo Gala Gay, sua trajetória se confunde com a própria história de afirmação e coragem que o baile representava.

Mais do que uma festa, o Baile dos Enxutos foi palco de encontros, afetos e redes de apoio. Em um tempo em que a discriminação era ainda mais explícita e institucionalizada, ocupar aquele salão era também um gesto político — ainda que embalado pela música e pelo brilho do Carnaval.

O fim do salão, a permanência da memória

A Sociedade Beneficente Protetora dos Operários, fundada no século XIX, foi por muito tempo um dos principais espaços sociais da cidade. Com o passar dos anos, o prédio perdeu força, sofreu com problemas estruturais e acabou demolido no início dos anos 2000. No lugar do antigo salão, hoje há um estacionamento.

Mas a memória do Baile dos Enxutos permanece viva na história oral da cidade e nas lembranças de quem viveu aquelas noites. Também virou tema de documentários e pesquisas que resgatam a importância do evento para a cultura LGBTQIA+ local.

Carnaval é memória, é diversidade

Relembrar o Baile dos Enxutos é lembrar que Curitiba sempre teve carnaval — e que parte dessa história foi construída por corpos dissidentes, artistas improvisados, foliões corajosos e protagonistas que desafiaram padrões.

Muito antes de a palavra “diversidade” virar pauta institucional, ela já desfilava no salão da Operário, entre confetes e marchinhas.

E talvez seja justamente essa a maior herança do Gala Gay: ter mostrado que o Carnaval, mesmo em uma cidade considerada discreta, sempre foi também território de brilho, liberdade e afirmação.

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