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Opinião

Mulher em recomeço 

Com atuações de Malu Galli e Tiago Martelli, direção de Inez Viana, e dramaturgia de Pedro Kosovski, a peça dá corpo às vertigens de Louis.

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em

Foto: João Pacca

por gabriel m. barros

​A obra de Édourd Louis é um tsunâmi que coloca tudo em vertigem. Pela força das palavras do autor, sua produção se tornou uma febre, pelo menos em solo brasileiro, com todos os efeitos que uma febre causa. 

​É no bojo dessa apropriação a brasileira que se tem vivido da obra desse autor, que Mulher em fuga estreou em São Paulo, no Sesc 14 bis. Outras peças, inspiradas nos textos de Louis já foram encenadas, sobretudo no circuito São Paulo – Rio. 

​Mulher em fuga trata de uma mulher, a mãe do autor,decidindo que não dava mais para permanecer com seu namorado e vivendo com ele. Começa com a ligação da mãe ao filho, que estava em outro país. É desse estopim que a peça trata. 

Com atuações de Malu Galli e Tiago Martelli, direção de Inez Viana, e dramaturgia de Pedro Kosovski, a peça dá corpo às vertigens de Louis. E de fato, de forma profundamente interessante, apesar de tratar da relação mãe e filho, são dois corpos completamente distintos: um agitado, que fala alto, que chora, ri e se desespera, tudo em vórtice, feito magistralmente por Malu Galli no papel dessa mãe que tenta se libertar de um relacionamento, que perpassa os outros fracassos amorosos e mais do que isso, a própria condição de ser mulher numa sociedade profundamente machista e que a confina a ser somente do lar; o outro é desse filho, que conseguiu ascensão social, que se vê em conflito por isso também, num corpo mais comedido, mais racional, e com falas e trejeitos mais pausados. 

Ambos, apesar das distinções, são inquietos, cada um a sua maneira lidando e digerindo feridas não cicatrizadas e colocando em cena esse passado persistente. O texto é vórtice por isso também, esse ir e vir temporal, que com muita maestria e confiança no próprio texto, os atores seguram e vão tecendo esses fios entre ontem e hoje. A direção, nesse quesito, é certeira, ter um texto intenso nas mãos pode ser um desafio que se perde no meio do caminho e cair num melodrama, mas Viana opta no trabalho da voz, da força da palavra e de como ela serve tanto para ferir quanto para curar, acolher, abraçar. 

A cenografia de Dina Salem Levy é excelente, uma musa enorme que vira palco-pista, que vira encontro e afastamento, bem como um painel ao fundo em que imagens são transmitidas em algum momento, bem como faz surgir uma bateria, é belo por si só, e que somada ao todo da peça dá o tom de que as coisas são as coisas, mas também é mais, pode se converter em mais e inquietar por isso. 

Fui na estreia da peça, e os gritos efusivos ao fim da peça, primeira vez que vi isso acontecendo, revela como a peça mobiliza quem a assiste. Nesse aspecto, a fuga dessa mulher coloca também em cena a mulher em recomeço. Algo que nós, todos sem exceção, estamos condenados (ala Sartre e o seu “condenado a ser livre”).  

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