Teatro
Festival de Curitiba divulga primeiros espetáculos da Mostra Lúcia Camargo
Festival de Curitiba antecipa os primeiros espetáculos da Mostra Lúcia Camargo, com montagens que unem força cênica e reflexão social.
Foto: Catarina Ribeiro
O Festival de Curitiba, que acontece de 24 de março a 6 de abril, anunciou os primeiros espetáculos confirmados na programação da Mostra Lúcia Camargo, principal vitrine teatral do evento. A revelação foi feita por meio das redes sociais do Festival, em tom de spoiler, antecipando produções que dialogam diretamente com temas urgentes da sociedade contemporânea.
Entre os destaques está Mulher em Fuga, espetáculo que traz Malu Galli e Tiago Martelli no elenco, com direção de Inês Viana, a partir da obra do escritor francês Édouard Louis. A montagem constrói um retrato sensível e contundente da trajetória de Monique, mãe do autor, acompanhando diferentes momentos de sua vida: os casamentos marcados pela violência, a criação solitária dos filhos, os processos de reconstrução pessoal e, por fim, a busca por autonomia e independência.
Ao narrar a libertação da mãe, Édouard Louis transforma uma história íntima em um gesto profundamente político, revelando as estruturas sociais que silenciam, oprimem e subjugam mulheres da classe trabalhadora. Nascido em Hallencourt, na França, o autor é hoje um dos principais nomes da literatura contemporânea europeia, reconhecido por articular autobiografia, crítica social e reflexão política em sua obra.
Outro espetáculo já confirmado na Mostra é O Motociclista no Globo da Morte, solo de Eduardo “Du” Moscovis, amplamente aclamado pela crítica desde sua estreia. Com direção de Rodrigo Portella, a montagem parte de uma pergunta inquietante: o que leva um homem pacífico, avesso a qualquer forma de violência e habituado a evitar conflitos, a cometer um ato extremo de agressividade?
Em cena, Moscovis interpreta Antônio, um matemático racional e sensato que, em uma tarde aparentemente comum, vê sua vida atravessada por uma espiral de violência enquanto almoçava em um bar. O episódio, banal à primeira vista, transforma-se em um ponto de ruptura irreversível. Ao narrar os acontecimentos diretamente ao público, com riqueza de detalhes, o ator constrói um relato que extrapola a experiência individual do personagem e se desdobra em uma reflexão sobre as diversas formas de violência produzidas pela vida em sociedade — explícitas ou silenciosas.
Com encenação enxuta e forte presença cênica, o espetáculo provoca o espectador a refletir se é possível combater essa violência sem, paradoxalmente, tornar-se parte do mesmo ciclo que se tenta romper.
Os dois trabalhos revelam a curadoria da Mostra Lúcia Camargo nesta edição do Festival: espetáculos que apostam na força do ator em cena e em narrativas que transformam experiências pessoais em reflexões políticas, reafirmando o teatro como espaço de escuta, confronto e pensamento crítico.

