Colunista
Anas, Cristinas e César: uma biografia em cena

por Noah Mancini
Fui assistir, a convite de Tarcila, a volta aos palcos da peça “Ana Marginal: um navio ancorado no espaço”. Com texto de Michelle Ferreira e direção de Nelson Baskerville, o espetáculo está de volta para uma temporada gratuita de 24 apresentações em diversos espaços culturais de São Paulo. A montagem explora a vida e parte da obra da poeta Ana Cristina César, uma das principais vozes da poesia dos anos 70. A narrativa se desenvolve a partir do embate entre três atrizes que encarnam diferentes facetas da escritora — Ana, Cristina e César —, mergulhando nas contradições, angústias e processos criativos que marcaram sua trajetória.
No princípio do espetáculo, admito-lhes, eu não dava nada por ele. Começa pela cena dita final, ao som de Psycho Killer numa mise-en-scéne um pouco afobada, caótica, palavras ditas uma em cima da outra, uma introdução meio apressada com a repentina apresentação das personagens, “confuso, não é?”, diz César. “Não, é simples!”, retruca Ana. E assim Cristina, ou nós os espectadores, também vamos entrando no jogo com certa dificuldade.
Depois da metade da peça existe uma virada de chave que presenciamos, quando a própria dramaturgia apresentada desde então passa a se questionar, a refletir os meandros processuais da criação. Quando uma chave não abre o baú de cartões postais, é a deixa para começarem a peça as vias de fato. Entre quebras de quarta parede e conversas mais ácidas, ousadas e despretensiosas entre as personagens, que vamos sendo tragados pelo flerte com a metalinguagem teatral e literária. Discutem-se ações, texto, coreografias, intencionalidade ao vivo, abrindo para uma possível improbabilidade do que será que está por vir. As notas de rodapé vão surgindo e sendo ironicamente justificadas. Destaque para a cena onde citam Caio Fernando Abreu, numa referência historiográfica literária, abordam inquietudes contemporâneas. Outro ponto alto é a apresentação de retroprojetor, onde com papéis cortados e um jogo de luz e sombra, as atrizes contam uma antiga história de reis e princesas – o recurso descompromissa os caminhos narrativos e nos atira para outra atmosfera teatral.
Há um certo humor, que vai de opostos verticais em instantes para o drama pesado, não uma cena arrastada, mas o peso que se carrega em si nos mundos e ombros. Essa gravidade que as situações chegam, em ares tensos, diálogos arriscados, negociações que colocam tudo a perder, são riscadas por uma repentina quebra, por vezes deflagrada pela iluminação ou pelo verbo. “Chega, eu quero meu cachê!”, brada Cristina. As camadas se intercedem, dançando auspiciosas. Isso nos desmonta e nos desafia, intrigando-nos, tornando-nos atentos ao decorrer da obra.
A peça mergulha no conto Bliss, traduzido por Ana Cristina César, de Katherine Mansfield — uma explosão de epifanias frustradas e desejo contido. As cenas sáficas, em especial, são tratadas sem rodeios: o triângulo amoroso entre Ana, Cristina e César (ou suas máscaras literárias) é desenhado com facas e flores, num labirinto de espelhos: as personagens se olham, se repelem e se escrevem em tempo real.
A literatura presencia-se em literalidade: recursos cênicos, seja nas toalhas brancas com letras de datilografia pretas, na máquina de datilografar, na projeção de letreiros de led ou nas projeções contextuais dos percursos de Ana Cristina César. Esse exacerbo dos pingos nos is, cria uma sensação de aula expositiva, na função pedagógica e quase tecnicamente científica de revisionar certa história da literatura brasileira. Embora seja deveras importante ambientar discursivamente o trabalho que se apresenta, parece que todo o conteúdo, todos os riscados nos nomes, as referências aplicadas, a crítica genética em ação, se dissipam nas letras dispostas pela cena.
Tanta coisa acontece que senti que vivi vidas ali, a vida de outras, a vida que fiquei pensando naquela sexta-feira gritante. A peça termina como um ponto final, marcando a trajetória da asteróide Ana Cristina César. No dia da apresentação, Heloísa Teixeira, outra asteroide, parceira envolvida no processo da peça, também veio a falecer. Era como se o corpo chorasse e a alma sorrisse, num díptico sobreposto. Como diria Brecht: “Sabemos que somos provisórios e depois nada virá. Somente a poesia”. O palco aqui é um navio que zarpa a distintas direções, ficamos à deriva entre o quase e o já não. O teatro, como a poesia, é a morte adiada. E nós, tripulantes desse navio-fantasma, assinamos a lista de bordo com os nomes emprestados. Por um triz, cruz, texto, janela e pensamento são defenestrados.
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