Opinião
Sombras no Final da Escadaria: Contundente grito sobre a misoginia e o descrédito artístico
É um espetáculo de muitas matizes e democrático.
Possibilita a plateia assistir a obra em profunda diversão.
E também em reflexão diante das dores expostas.
Foto: Guga Melgar
Por Leonardo Talarico
Vannessa Gerbelli é uma atriz competente e corajosa.
Suas obras são escolhas de vida.
“O que são feitos dos poemas não escritos quando o poeta morre?” (Newton Moreno).
Temos o privilégio de conviver com o mentor Amir Haddad.
Na obra posta, uma atriz sem nome, por escolha do diretor, após estreia desastrosa, decide não desocupar o Teatro.
Mas diante das razões finais será mesmo um ato subversivo?
“Todos os vícios, quando estão na moda, passam por virtudes” (Molière).
Ao perambular com inteligência por gêneros, a peça impõe à plateia um relaxamento necessário para arrastá-la desarmada no momento do grito feminino.
Uma ocupação contra o sistema capitalista cênico.
Uma ocupação contra a misoginia cênica.
A dramaturgia é horizontal e fala à plateia.
A direção esclarece – em conluio com a excelente atuação de Vannessa – uma curva dramática por meio de escolhas bem-sucedidas.
Teatro de atriz exposta à beira do abismo.
Lindo assistir a força motriz de Vannessa Gerbelli.
Atriz e Direção entregues às tragédias pessoais cênicas.
A obra, mesmo repleta de interferências, mantém-se tensionada e muito bem modulada com todos os riscos inerentes.
Carnavalizam o Teatro com os predicados da festa profana.
O ser humano é aquele que esquece.
A peça SOMBRAS NO FINAL DA ESCADRIA é a nossa lembrança.
Resgata – como ninfa – os valores fundantes e inerentes à biografia humana.
Todos envolvidos na técnica entregam unidade à obra e auxiliam nas cavidades dramáticas.
O cenário maximalista (estilo “TÁ NA RUA”) oferece à peça elementos representativos da desorganização cognitiva da atriz diante tamanho sofrimento. Tudo apresentado dentro da realidade e do simbólico.
A direção de movimento caminha para o seu destino sem movimentos desnecessários e estabelece pontos importantes de contato dramático.
O desenho de luz bem articula ambiências festivas e recortes de luz dramáticos sempre a serviço do espetáculo.
O bom figurino e o adereçamento mambembe reforçam a encenação com presença utilitária e também simbólica.
A crítica dirigida aos profissionais teatrais por HOME OFFICE é deveras interessante. Assim como todas as demais observações lançadas sobre a precariedade de um país que dispensou o consumo artístico na sua formação, arrasta telas e procede ainda pior com as atrizes, mediante machismo estrutural.
A trilha sonora (operada em cena pela atriz) cria um colchão e destaca a pontuação cênica.
É um espetáculo de muitas matizes e democrático.
Possibilita a plateia assistir a obra em profunda diversão.
E também em reflexão diante das dores expostas.
A obra apresenta “coxia” invertida.
Vanessa impõe à personagem: inocência, fé e resistência.
Olha a misoginia e a enfrenta. Jamais apela ao vitimismo.
Toda dor posta em um lugar sagrado de combate e resiliência.
Lida com o desprezo artístico com a máxima de Haddad: “A esperança é a penúltima a morrer. O último é o ator”.
Apenas o Teatro Salva.
Linda obra.
Ficha Técnica:
Texto: Luiz Carlos Góes
Direção: Amir Haddad
Elenco: Vannessa Gerbelli
Iluminação: Paulo Denizot
Assistência de Direção: Máximo Cutrim
Trilha Sonora: Máximo Cutrim e Vannessa Gerbelli
Figurino: Vannessa Gerbelli
Assistência de Figurino: Ciça Fillon
Fotos Originais: Guga Melgar
Design São Paulo: Jayme Koatz
Design Original: Antônio Kvalo
Direção de Arte Original: Beli Araújo
Operação de Luz: Nic Matheus
Livro da Peça: Editora O Sexo da Palavra
Produtores: Françoise Fillon e Joaquim Vicente
Produção: Grupo Prismma e Teatro da Gente
Realização: Gelsomina Produções Artísticas
Onde? Teatro Domingos de Oliveira
Quando? 27/02 a 29/03.
Horário: Sexta e sábado, às 20h | Domingo, às 19h
Ingressos: R$40 e R$80 | Classificação: 16 anos

