Opinião
Pela Hora da Morte usa a comédia como arma de denúncia social
Espetáculo da companhia curitibana Antropofocus, que celebra 25 anos de trajetória, aposta no humor ácido para expor desigualdades, burocracias cruéis e a mercantilização da vida.
Foto: Chico Nogueira
por Vanessa R Ricardo
A comédia como arma de denúncia define o espetáculo Pela Hora da Morte, da companhia curitibana Antropofocus, que acaba de completar 25 anos de trajetória.
Com direção de Anne Celli, que também assina a dramaturgia em parceria com Andrei Moscheto e Bruno Lops, a peça aposta no humor afiado para provocar reflexão e escancarar contradições sociais. Anne Celli integra ainda o elenco, ao lado de Andrei Moscheto, Edran Mariano, Larissa Lima e Marcelo Rodrigues.
A sinergia do elenco é precisa e intensa, com grande movimentação de palco e um cenário que se transforma a cada cena. Esses elementos reforçam a força da narrativa, que utiliza a comédia como ferramenta crítica e de denúncia.
O espetáculo acompanha a saga de uma mulher que precisa provar que está viva após ser dada como morta. A partir desse cenário limite, a montagem constrói uma sátira contundente ao modelo que transforma a vida em mercadoria, revelando abismos sociais, negligências institucionais e a brutalidade de decisões guiadas exclusivamente pelo lucro.
Com humor cortante e ritmo acelerado, a peça evidencia o contraste entre atendimentos “exclusivos”, destinados a quem pode pagar, e o tratamento oferecido a quem permanece à margem do chamado luxo da saúde. No centro da narrativa, uma mulher em situação de vulnerabilidade é engolida por engrenagens burocráticas tão absurdas quanto violentas, que transformam sua própria sobrevivência em um impasse administrativo.
Para além da crítica ao sistema, Pela Hora da Morte expõe a corrosão das relações humanas e a presença persistente do machismo estrutural, que se manifesta tanto de forma explícita quanto velada. O resultado é uma comédia ácida que provoca o riso ao mesmo tempo em que tensiona, desconforta e convoca o público à reflexão.
Um espetáculo para ver e rever, que reafirma a comédia não apenas como entretenimento, mas como uma potente ferramenta de pensamento crítico.

