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Cinema

O fim de Stranger Things: nostalgia e identificação sustentam o encerramento de uma jornada de dez anos

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Por André Artigas

Uma das maiores séries da história da Netflix chegou ao fim em 31 de dezembro de 2025. Stranger Things, fenômeno global desde sua estreia em 2016, encerra sua trajetória consolidando um legado definitivo dentro da cultura pop contemporânea.

Desde o início, a produção criada pelos irmãos Duffer conquistou o público ao unir personagens carismáticos, forte apelo nostálgico dos anos 1980 e uma narrativa que transita entre o suspense, o terror, a ficção científica e a aventura. Ao longo de cinco temporadas, a série construiu uma base de fãs fiel, que aguardava com expectativa o destino de personagens como Mike, Eleven e o restante do grupo de Hawkins.

O episódio final entrega, em grande medida, um desfecho emocionalmente satisfatório. Acompanhamos os rumos tomados pelos principais personagens e as diferentes formas com que lidam com os eventos que marcaram suas trajetórias. Há momentos claros de encerramento e de “passagem de bastão”, sinalizando o fim de um ciclo.

No entanto, o último capítulo sofre com um ritmo excessivamente acelerado. Com cerca de duas horas de duração, o episódio tenta resolver múltiplos arcos narrativos simultaneamente, o que compromete o desenvolvimento de algumas situações. A sensação é de que a série precisava concluir diversas frentes em tempo limitado, optando por soluções rápidas.

Esse problema parece refletir uma tendência mais ampla das produções recentes da Netflix: a desconfiança em relação à atenção do espectador. Em diversos momentos, a narrativa assume um tom frenético, especialmente nas cenas de ação, que se tornam mais rápidas e menos contemplativas do que em temporadas anteriores.

O episódio final também sofre do que pode ser chamado de uma “marvelização” da narrativa — quando a obra se torna refém de sua própria fórmula. Em vez de arriscar soluções mais ousadas, a série recorre a estruturas já conhecidas, apostando na segurança do modelo que consagrou seu sucesso.

Outro ponto que chama atenção é a distribuição desigual do tempo de tela. Personagens que antes ocupavam papéis secundários ganham destaque significativo, enquanto figuras centrais da trama têm sua presença reduzida. A escolha evidencia certa falta de planejamento e a pressa em entregar o produto dentro de um cronograma rígido, priorizando a conclusão em detrimento de um desenvolvimento mais equilibrado.

Os diálogos expositivos também se tornam mais frequentes. Planos detalhadamente explicados e soluções excessivamente convenientes enfraquecem a tensão dramática e reforçam a sensação de que a série subestima a capacidade de interpretação do público.

Quanto aos furos de roteiro deixados em aberto, é possível enxergá-los como parte de uma estratégia maior. Diante do enorme valor da franquia, a Netflix dificilmente abandonará o universo de Stranger Things. A aposta em produções derivadas — como Stranger Things: Tales from the ’85 — sugere a intenção de expandir esse mundo por meio de novas séries, livros, quadrinhos ou até games, que podem vir a preencher essas lacunas narrativas.

Apesar dos problemas, o episódio final acerta ao construir uma atmosfera nostálgica e emocionalmente potente. Os destinos dados aos personagens respeitam o que foi desenvolvido ao longo da série, sem comprometer sua essência.

Mais do que resolver mistérios ou concluir arcos sobrenaturais, Stranger Things se despede reafirmando aquilo que sempre foi seu maior trunfo: o carisma de seus personagens. A conexão do público com o grupo se fortaleceu ao longo dos anos, acompanhando o crescimento literal de seus intérpretes e refletindo dilemas universais da juventude, da amizade e do amadurecimento.

A cena final, que remete às primeiras partidas de Dungeons & Dragons, funciona como um espelho do início da série, transportando o espectador para um tempo mais simples e reafirmando o espírito que deu origem à história.

No fim, Stranger Things utilizou monstros, conspirações e poderes sobrenaturais como pano de fundo para contar uma história essencialmente humana — uma narrativa que, acima de tudo, sempre falou sobre amizade.

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