Música
MISTURA FINA –penso –canto – existo! Meu tempo!

Por Giseli Canto
Pensamento e pensar são, respectivamente, uma forma de processo mental. Pensar nos permite formar uma percepção de mundo e daí lidar com ele de uma forma efetiva de acordo com nossos objetivos, planos e desejos.
Cantar é a expressão vocal do instante melódico, uma entonação vocal gerada pelo seu corpo todo – físico, mental e espiritual.
Existir é ser, viver, sentir, estar, cumprir a vida.
Dentro de cada um de nós estão modelos de vida que nos permitem solfejar notas musicais, contrair e expandir o mundo pra si e pro outro – quando ouço o que o mundo tem pra dizer, estou contraindo pra dentro de mim a sua informação; quando canto, expando ao mundo as minhas reflexões, meus sentimentos, minhas dores, meus ais. Atravesso pelo incrível, planeta Terra dizendo meus sons. Tenho brasis dentro de mim! Tenho um som dizendo sai, viaja, ultrapasse os limites do futuro para que não se aprisionem dentro de você.
Que objetivo tem nisso tudo? Provocar no outro as sensações renovadas do entender, do perceber e do reter pela música; do compreender e captar uma mensagem que nem está em mim, mas em quem me ouve, porque ouvir a música é perceber o som, pelo sentido da percepção de mundo de cada um. Sou um espelho esférico! Recebo uma imagem côncava e a reflito convexa.
Então, quando ouço muitas das músicas que estão sendo consumidas agora, eu me sinto doente. Doente de arte, da linguagem, daquela estrutura que antes servia a riqueza de sons, dos versos, das palavras. O internetês e o burrês parecem que vieram pra ficar. Daqui a pouco não será mais preciso dicionário nem livro.
A linguagem utilizada no meio virtual, em que as palavras foram abreviadas até o ponto de se transformarem em uma única expressão, desmoronaram a pontuação, a acentuação, a língua pelo uso da fonética em detrimento da etimologia, com uso restrito de caracteres e desrespeito à gramática. Até a licença poética saiu de moda. O que deveria ser a liberdade do escritor utilizar construções, prosódias, ortografias, sintaxes não conformes às regras, ao uso habitual, para atingir seus objetivos de expressão, não satisfaz mais esse estado de coisas.
O som que hoje escuto por aí, essa nova onda que se entregou para a pobreza de raciocínio, para preguiça de se expressar, que “o qualquer jeito” virou música e é considerada arte. Perdão meus queridos, mas até gritar virou cantar. Já foi o tempo em que era preciso aprender a gritar afinado. Afinado? O que é isso mesmo?
Levei minha reflexão a cantora Rogéria Holtz pra que ela desse sua opinião. Ele elegantemente disse: ˜Concordo que existe uma negligência na criação musical atual. Porém, não gosto de generalizar tanto. Como trabalho numa rádio estou atenta à muita produção musical brasileira. No meio de tanta gente querendo fazer sucesso ainda tem aqueles que usam o cérebro para criar e o físico, mental e espiritual para cantar, mas não são os que se destacam. Acho realmente que é um reflexo do universo da net e das redes sociais: vaidades, competições e autopromoções consomem o tempo da leitura, da real importância, da contemplação e da sensibilidade”.
Mesmo concordando com Rogéria sobre não generalizar, penso que a música foi prostituída, virou um negócio que atinge as fraquezas de quem quer qualquer coisa que não o faça pensar, que seja anestésico, cachaça! Cachaça não, porque essa é elaborada, passa por um processo de preparo até, paulatinamente estar pronta para o consumo. Droga! Isso mesmo! Uma droga que vicia e que nem muitas sessões de análise, internamentos com eletro choques, podem destituir esse lugar, que agora é comum.
Onde estão os encadeamentos harmônicos, os acordes, as melodias e aqueles arranjos que fazem a gente suspirar? Pra onde iremos depois daqui? Ainda vai desmoronar mais? Existe um lugar mais baixo do que esse?
Você deve estar se perguntando, exatamente de que estou falando. Estou falando dessa coisa, desse negócio que dizem ser música. Se você se identificou comigo, fico aliviada porque já sabe do que se trata. Caso contrário, eu espero, sinceramente, que esteja refletindo a respeito.
No ano passado ouvi uma canção que me fez pensar no tempo. A cantora é essa pessoa incrível, de um timbre que vem da terra. Ela também é radialista e transita pela arte como ninguém. Sua voz tem o que falei no início – sai do físico, do mental e do espiritual. O compositor é saxofonista, contrabaixista, um instrumentista que passeia do erudito ao jazz. Sensível, compôs essa música que nos faz cantar, pensar e existir. Mas só se quisermos! O tecladista é Fábio Cardoso. Um músico sensível, dinâmico que nós deixa confortável pra brincar e improvisar. Uma cama perfeita pra quem gosta de dividir e suingar.
“Grata pela lembrança desta linda musica que gravei do Helinho! Uma canção que tem tudo aquilo que você comentou: harmonia surpreendente, melodia muito bem pensada numa letra com poesia sensível.” ROGÉRIA HOLTZ
Então, pra aliviar os ouvidos deu essa saga musical que hoje vivemos, deixo vocês com minha amiga Rogéria Holtz cantando “Meu tempo” de Hélio Brandão.
Crédito foto: Tito Quadros Junior
Vídeo premiado pelo Edital Respirarte/Musica da FUNARTE.
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