Carnaval
Gilda, o carnaval e a coragem de existir na Curitiba conservadora
Entre prisões, beijos e carnaval, Gilda ocupou as ruas de Curitiba com o próprio corpo, desafiando normas, incomodando conservadores e se tornando símbolo de liberdade e memória.
Por Redação
Curitiba gosta de repetir que não tem carnaval. Mas basta olhar para sua própria história para perceber que a cidade sempre teve corpos, vozes e festas que desafiaram essa narrativa. Entre eles, nenhum foi tão marcante — e tão incômodo para os conservadores — quanto Gilda, travesti que transformou o centro da cidade em palco de resistência, afeto e provocação.
Figura constante da Boca Maldita, na Rua XV de Novembro, Gilda circulou pelas ruas de Curitiba entre os anos 1970 e início dos 1980 com batom vermelho, barba à mostra, vestidos, humor afiado e uma frase que entrou para a memória urbana: “Uma moeda ou um beijo”. Era impossível passar por ela sem reagir. E era exatamente isso que desestabilizava a cidade.
Carnaval como liberdade — e perseguição
Gilda amava o carnaval. Para ela, a festa era mais do que folia: era um momento em que o corpo podia existir sem pedir licença. Justamente por isso, o período carnavalesco também era quando a repressão se intensificava.
Relatos históricos apontam que Gilda era presa praticamente todo carnaval, quase sempre após denúncias feitas por setores conservadores da sociedade, incomodados com sua presença, sua performance de gênero e sua liberdade em ocupar o espaço público. Não se tratava de crimes, mas de controle moral: silenciar um corpo que ousava existir fora da norma.
Esse choque ficou evidente em um episódio emblemático do Carnaval de 1981, quando Anfrísio Siqueira, então presidente da associação da Boca Maldita, agrediu Gilda e a impediu de subir em um carro alegórico. A cena escancarou o conflito entre sua presença subversiva e o conservadorismo que tentava ditar quem podia — ou não — ocupar a festa e o espaço público.
Mesmo assim, ela voltava. Ano após ano. Festa após festa.
Um corpo transgressor na Boca Maldita
Gilda não era apenas uma personagem folclórica. Sua presença era política. Em uma Curitiba marcada por valores conservadores, ela expunha contradições profundas da cidade: ao mesmo tempo em que era hostilizada, também era reconhecida, comentada, lembrada.
O documentário “Gilda: corpo transgressor”, produzido pelo Cedoc LGBTI+, parte justamente dessa ideia: como a cidade tentou apagar a história de Gilda — e, junto com ela, a de tantas outras pessoas LGBTQIAP+ — enquanto sua memória insistia em sobreviver nas ruas, nas histórias orais e na cultura popular.
Morte, apagamento e resistência
Gilda morreu em 1983, aos 32 anos. As versões oficiais falam em complicações de saúde, mas sua morte permanece cercada de silêncios, lacunas e dúvidas — algo comum quando se trata de vidas dissidentes naquele período.
O que veio depois foi ainda mais revelador: uma tentativa de apagamento histórico. Durante anos, seu nome foi tratado como incômodo, sua memória evitada, sua importância minimizada.
Mas a cidade não esqueceu completamente.
O legado que insiste em viver
Décadas depois, Gilda ressurgiu como símbolo. Sua história passou a inspirar sambas-enredo, peças de teatro, performances urbanas, exposições, quadrinhos, como Uma Moeda ou um Beijo, curtas-metragens como Gilda Viva e o documentário Gilda – O Beijo da Boca Maldita.
Mais recentemente, sua memória ganhou força com o Festival Gilda, dedicado à arte e à resistência LGBTQIAP+, reafirmando seu lugar como ícone da cultura curitibana. Não como caricatura, mas como alguém que abriu caminho — pagando um preço alto — para que outros corpos pudessem existir com mais liberdade.
Esse processo de revivificação também passou pela disputa por reconhecimento no espaço urbano. Após décadas de resistência e boicote institucional, foi finalmente instalada na Boca Maldita uma placa de bronze com os dizeres “Gilda, você deixou saudades”, resultado de estudos históricos e do trabalho artístico e político de pessoas como o produtor Guilherme Jaccon, fundamentais para a preservação e a visibilização dessa memória.
Carnaval também é memória
Resgatar Gilda no carnaval é lembrar que a festa sempre foi espaço de disputa. Que alegria também pode ser ato político. E que, mesmo em uma cidade que insiste em negar sua própria folia, houve quem transformasse a rua em passarela, trincheira e palco.
Gilda segue sendo isso: memória viva, corpo político e carnaval permanente.

