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Opinião

Entre o ter e o viver: quando juntar tudo custa caro demais

Porque, no fim das contas, não é o saldo bancário que constrói memória, afeto ou sentido. São as experiências aparentemente pequenas: um espetáculo que emociona, uma conversa sem pressa, uma tarde qualquer que vira lembrança.

Publicado

em

por Na Lata

Há alguns dias, uma frase pichada chamou atenção nas redes sociais: “Não me chame para beber, estou juntando um milhão de reais.”
A frase, que mistura humor, ironia e ambição, acaba funcionando também como um retrato fiel do nosso tempo.

Vivemos a era do ter.
Ter dinheiro, ter estabilidade, ter patrimônio, ter sucesso mensurável. O verbo fazer — viver, experimentar, errar, descansar, encontrar parece cada vez mais secundário. Como se tudo pudesse (e devesse) ser adiado em nome de um futuro ideal, próspero e, principalmente, instagramável.

O problema é que esse futuro raramente chega da forma prometida.

Nos últimos anos, a internet se encheu de histórias de influencers que “chegaram lá”: milionários jovens, discursos motivacionais curtos e a ideia sedutora de que se eu consegui, você também consegue. A narrativa é simples, direta e profundamente injusta. Porque ela ignora o contexto, as diferenças sociais, os privilégios, o acaso e, principalmente, o desgaste emocional de quem trabalha muito e ainda assim não vê retorno.

O resultado é um sentimento coletivo de frustração.
Gente que se culpa por não “performar” sucesso, por não enriquecer rápido, por não alcançar padrões irreais. Pessoas que adiam o teatro, o cinema, o encontro com amigos, um café demorado, uma caminhada no parque, porque “agora não dá”. Porque é preciso juntar, investir, correr, produzir.

Mas viver também custa tempo.
E o tempo não rende juros.

Quando tudo vira projeto de futuro, o presente se esvazia. O lazer vira culpa, o descanso vira falha de caráter e o prazer passa a ser visto como desperdício. Só que o preço disso aparece no corpo, na saúde mental, nas relações que vão se enfraquecendo aos poucos.

Não se trata de romantizar a dificuldade ou negar a importância do dinheiro. Ele é necessário, sim. O problema é quando o acúmulo vira um fim em si mesmo e a vida vira apenas um meio.

Talvez a pergunta que essa pichação nos faça não seja sobre dinheiro, mas sobre escolha: o que estamos deixando de fazer enquanto tentamos ter tudo?

Porque, no fim das contas, não é o saldo bancário que constrói memória, afeto ou sentido. São as experiências aparentemente pequenas: um espetáculo que emociona, uma conversa sem pressa, uma tarde qualquer que vira lembrança.

E talvez o verdadeiro luxo — hoje — seja exatamente esse:
não adiar a vida indefinidamente.

* Na Lata – Um espaço para dizer o que costuma ficar atravessado na garganta.
Sem rodeios, sem discurso pronto e sem medo de desagradar. Na Lata nasce da observação do cotidiano, das contradições do nosso tempo e das pressões silenciosas que todo mundo sente, mas poucos verbalizam. Aqui, a crítica é direta, a reflexão é incômoda e o texto não pede licença — porque algumas verdades precisam ser ditas exatamente assim: na lata.

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