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Do épico ao antes: corpos que escapam, línguas que arrombam

A língua é instrumento de comunicação e também de violência. A partir disso, a maior parte da obra é falada em tupi, com algumas projeções mapeadas que traduzem certos trechos — ou será que distorcem? As frases escorregavam pela parede e sumiam antes de serem lidas.

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por Noah Mancini

 

No dia 7 de março, fui com Lynch e Oscar assistir à estreia da peça Tybyra – Uma tragédia indígena brasileira, de Juão Nÿn, no Sesc Paulista. A obra desde sua concepção em 2019 vem sendo encenada em circuitos, aldeias indígenas e mostras de teatro, como a MITsp (São Paulo). A peça, que deu origem ao livro “Tybyra: uma tragédia indígena brasileira” (2020, Editora Selo do Burro), destaca sua pesquisa no tupi e na abordagem kuir-decolonial. Nÿn se embrenhou para desmontar a narrativa colonial sobre Tybyra — indígena executado no século XVI por “pecado nefando”, conforme registros de viajantes europeus. O livro, assim como a peça, opera como um corpo-documento: mistura ilustrações, cantigas, transcrições de processos coloniais, como se fosse um processo-crime virado do avesso. 

 

A língua é instrumento de comunicação e também de violência. A partir disso, a maior parte da obra é falada em tupi, com algumas projeções mapeadas que traduzem certos trechos — ou será que distorcem? As frases escorregavam pela parede e sumiam antes de serem lidas. Essa dificuldade de apreender o conteúdo, de colocar o público em sobrepujante ignorância linguística, evidencia os aprisionamentos coloniais e seus lugares de falha, de constituir um território que não percebe sua trajetória histórica, e por consequência tem dificuldade em se perceber no espaço que habita, convive, planta, colhe, conversa. Aqui o tolo é o outro, que não entende o que digo, e por isso solapa o que lhe é estranho, mas que também pode ser enganado, trapaceado, assim como o fez por séculos a fio. 

 

Um dos trunfos do trabalho é o grande vaso que inicia no espaço soltando fumaça, e de onde a personagem sai. Dali entoa outros rumos para os espectadores, na vitalidade, no deboche. Tal elemento está presente em outras partes da peça, operando em distintas finalidades. É o vaso também que termina a apresentação, como um canhão, de luz e de som, que estoura arremessando Tybyra. Corpo-bomba, bicha bomba, ou um útero de cerâmica que cospe futuro. Não um objeto, mas um portal, um buraco de minhoca que engole o tempo colonial e cospe fumaça de feitiçaria tecnológica. Alguém no fundo da plateia tossiu e a fumaça riu dele.

 

A sonoridade evoca barulhos da mata, ao mesmo tempo que a música feita ao vivo, cantada e tocada, invoca encantamentos para a peça. Encantamentos que os colonizadores temiam, que faziam as espingardas enferrujarem e Bíblias virarem folhas de bananeira. Esse encanto fala de uma história de antes, muitos tempos atrás, em que o mundo era outro, e de maneira violenta foi moldado para o Brasil que chegamos hoje. Isso reflete no dito português quando ele aparece, que é traduzido, com maneirismos para um linguajar menos erudito, enquanto os I são substituídos por Y, numa aproximação linguística. Ygreja, Ympério, Yndependência?

 

Corpo-som, obra-presença, propulsão do colonial com intenções rompantes do atual. Na fabulação de outras histórias possíveis a partir de uma triste e antiga cantilena já contada, de uma figura esquecida ou lembrada por motivos que ninguém sabe, ou todos sabem, ou só as pedras sabem, mas as pedras foram usadas para construir fortalezas e masmorras.

 

Há uma característica de épico, com atos apresentados, como “A prisão”, “O Cárcere”, “A Sentença”, “A Execução”. Tais cenas, como trágicas, formam o peso de uma história sem um final feliz. O título do trabalho não esconde. Mas a necessidade desse fim glorioso é proposta num corpo que se expande e fertiliza outros ecossistemas, futuros expandidos, revisionamentos históricos. Um fim feliz disfarçado de tragédia, uma tragédia disfarçada de piada de mau gosto.

 

Certa hora do espetáculo a sua saia deu problema, o longo picumã enroscou no fio do microfone, o microfone estragou. Nada que Juão Nÿn não transformasse em acidente sagrado, em metáfora de um sistema que sempre engasga com o que tenta silenciar. O microfone cuspiu estática, a saia virou cobra. Depois da sessão, perguntávamo-nos se a falência dos artifícios cênicos não poderia também ser uma demonstração de apetrechos dispensáveis. Ou o verdadeiro teatro é aquele que quebra, falha, que vira fumaça e some? 

 

E quando as luzes se apagaram de vez, não soubemos se havia terminado a peça ou se a peça havia terminado com a gente. O estralado do canhão e as sílabas em tupi ecoavam como insetos noturnos, e os erros cênicos agora pareciam metáfora perfeita. O vaso-canhão explodira, mas Tybyra não morreu: se multiplicou em fagulhas, em letras queimadas, em códigos de futuro que os europeus nunca decifraram. A peça acabava, ou começava, ou nunca havia acontecido, ou está acontecendo ainda, desde 1500. O teatro é um crime. A plateia, cúmplice. O vaso é o mundo, o mundo é um microfone estragado. O objeto não importa, o corpo já explodiu.

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