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Opinião

Crítica Teatral em Curitiba: Entre o Diálogo e o Desafio

Confesso que, muitas vezes, diante de trabalhos que não nos impressionam, optamos pelo silêncio. Não por covardia, mas pela percepção de que nosso meio cultural ainda encara a crítica como “ataque pessoal” em vez de ferramenta de reflexão

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Foto: LinaSumizono

Por Vanessa R Ricardo

Existe, sim, crítica teatral em Curitiba. Nós do Jornal A Cena comprovamos isso, trazemos constantemente análises de espetáculos locais e nacionais – de produções de companhias curitibanas a montagens do eixo Rio-São Paulo. Mas uma pergunta persiste: a cena curitibana está preparada para receber críticas que não sejam somente positivas sobre os trabalhos?

Confesso que, muitas vezes, diante de trabalhos que não nos impressionam, optamos pelo silêncio. Não por covardia, mas pela percepção de que nosso meio cultural ainda encara a crítica como “ataque pessoal” em vez de ferramenta de reflexão. Sei (e valorizo) o suor por trás de cada espetáculo: ensaios exaustivos, financiamentos escassos, noites maldormidas. Mas justamente por respeitar o teatro, acredito que ele merece análises sinceras – não apenas elogios automáticos.

A crítica deveria ser encarada como um termômetro artístico, onde aponta por exemplo, falhas técnicas ou até mesmo uma dramaturgia vazia. A intenção não é “destruir” um trabalho, mas sinalizar caminhos para evoluções futuras. 

Acredito que quando se publica somente criticas positivas, criamos a ilusão que tudo está perfeito. Uma crítica não positiva é um convite ao debate. Lembro do texto crítico que escrevi sobre o último prêmio gralha azul, que trouxe na edição o maior número de indicações de artistas negros, treze no total, mas apenas um levou a estatueta. Tenho certeza que esse texto além de gerar incômodo trouxe reflexões sobre o racismo institucional, que está presente não só no maior centro cultural do Paraná, mas em todas as instituições e empresas brasileiras, pois o racismo é estrutural. É só vamos começar acabar com ele quando a sociedade admitir que é racista, e comece de fato questionar e exigir mudanças. 

É sempre bom lembrar que em uma crítica não avaliamos pessoas, mas sim o processo artístico em si. E ela é um olhar, uma perspectiva. 

O Dilema Curitibano

Nossa cidade tem poucos veículos de crítica especializada e uma cena teatral que, embora vibrante onde todos se conhece. 

Isso gera um medo recíproco: artistas temem críticas “que mancham reputações”, e críticos hesitam em opinar para não serem excluídos de futuros eventos.

Mas há esperança. Nos últimos anos percebo sinais de maturidade:

* Artistas que nos procuram para entender análises negativas;

* Coletivos que incluem debatedores pós-espetáculo;

* Um público cada vez mais interessado em ler além do “ótimo espetáculo.

Mas temos ainda muito a avançar, refletir sobre o papel da crítica teatral na formação de público e no fomento à reflexão sobre as artes cênicas. Em uma cidade como Curitiba, onde a produção cultural é intensa, mas nem sempre valorizada em sua diversidade, a crítica assume uma função urgente — não como juíza definitiva, mas como mediadora sensível entre a obra e o espectador.

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