As quatro paredes que constroem a ressaca literária

Por Igor Horbach

Ler sempre foi um desafio para grande parte da população brasileira e há inúmeros fatores para isso. São poucos os governos, empresas privadas e/ou instituições que investiram significativamente na área. A exemplo, a Fundação Cultural de Curitiba que em 2011 criou o programa Curitiba Lê, cujo tive a honra de participar por seis meses. A Fundação espalhou casas de leitura (bibliotecas) por toda a capital paranaense, facilitando o acesso à literatura da população. 

Mesmo tendo um público pequeno no Brasil, a literatura ainda é muito bem usada por aqueles que lhe admiram. Segundo uma pesquisa do Instituto Pró-livro de 2016, entre 2011 e 2015 a quantidade de jovens leitores aumentou de 50% para 56%. O envolvimento deles com os livros é intenso a cada obra, a ponto de alguns até sofrerem do que popularmente ficou conhecido como “ressaca literária”. 

A “ressaca literária” é a dificuldade de voltar a ler um livro após ter terminado outro que lhe envolveu significativamente. Em casos mais extremos pode estar ligado com ansiedade do leitor, aumento da lista de livros que deseja ler, lançamento de novos títulos entre outros influenciadores. O que esse seleto grupo de pessoas não esperavam era uma pandemia mortal que duraria mais de um ano. 

Fazendo uma rápida pesquisa em meu círculo pessoal de amigos mostrou que muitos ainda conseguem ler, mas em ritmo mais lento, enquanto que outros não se sentem motivados a ler. No meu ver, isso é afetado pela ansiedade e falta de perspectiva que a atual situação nos proporciona. Além do número alto de mortes e do descaso governamental com as vacinas, precisamos levar em conta que estamos em ‘quatro paredes’ há mais de um ano. Mesmo que um ou outro tenha saído para trabalhar, fazer uma visita ‘rápida’ ou uma viagem à trabalho, a sensação de se estar preso dentro de casa é maior e duradoura. Há uma preocupação gigantesca no âmbito da psicologia em relação aos problemas de ansiedade que o isolamento social prolongado pode causar na sociedade. 

Tudo bem que não precisamos do movimento rotineiro externo para fazer leituras, mas o fato de não poder sair em hipótese alguma ou se sair correr o risco de se contaminar faz com que nossas vontades e alegrias sejam colocadas de lado, bem como o prazer da leitura contínua. À medida que o ano passa e não se vê perspectiva em relação a melhora da situação sanitária e da retomada da economia, principalmente, a ressaca literária surge com mais frequência e força. Terminar um livro que te mexeu com seus sentimentos é como voltar à dura realidade. Como acordar de um sono prolongado. Você vê as coisas ao seu redor e sente vontade de voltar para o ‘sono’ e mesmo que você opte por reler o mesmo livro, não será a mesma coisa. Quem nunca acordou no meio de um sonho bom, queria terminá-lo e ficou tentando voltar a dormir. Pode até ter dormido novamente, mas o sonho certamente foi outro. Assim funciona com a leitura e releitura, que nada ajuda a sanar a ressaca. 

Então, os dias passam e você não se sente motivado a ler outros títulos mesmo que sua pilha de livros na mesa aumente. Todos aqueles calhamaços vão parecer banais e inválidos. Como autor e leitor ávido, o que me ajuda nessas situações é explorar gêneros literários diferentes. Quanto mais distintos, melhor. Em alguns casos até pesquisar mais sobre a biografia do autor, entrevistas ou sobre o processo criativo dele. Encher meu carrinho de compras em uma loja virtual ou perambular por uma biblioteca (antes da Pandemia, claro), também são de grande ajuda. 

Claro, tudo isso depende de cada um e da realidade individual. Um leitor ávido que acabou de passar por um momento delicado na vida pessoal ou profissional não conseguirá sair da ressaca literária por um tempo, pois não é a entrada de uma realidade dura, é a vivência dela. De qualquer maneira, internalizar isso é uma boa opção para quando a ressaca chegar. 

O isolamento social, nos seus primeiros meses pode até ter ‘ajudado’ algumas pessoas a retomarem seus hábitos antigos, pois o tempo de casa aumentou, mas isso já passou. É nítido que agora o movimento é inverso com tendência a piorar. A produtividade da população de forma geral caiu muito e tudo impulsionado pela pandemia que nem horizonte nos mostra. 

Igor Horbach

É autor, ator, dramaturgo e produtor brasileiro. Nascido em Tangará da Serra – MT, publicou seu primeiro livro aos 14 anos e o segundo aos 16. Em 2017 se mudou para Curitiba onde iniciou sua carreira de ator, produtor e dramaturgo. Em 2019, produziu e dirigiu a serie Dislike. Em 2020 publicou seu drama de estreia, Cartas para Jack.

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