Cinema
Entre o mito e o silêncio: cinebiografia de Michael Jackson evita riscos e entrega superfície
Cinebiografia de Michael Jackson aposta na força do ícone, mas evita conflitos e entrega um retrato superficial, que emociona fãs sem se aprofundar na complexidade do artista.
Por Vanessa Ricardo
Só fui assistir ao filme sobre Michael Jackson uma semana após a estreia. Entendo perfeitamente o impacto para os fãs: na sessão de segunda-feira em que estive, a sala não estava cheia, mas era possível perceber reações intensas, gente cantando baixinho, outros chorando copiosamente. Há, sem dúvida, uma conexão afetiva que o filme consegue acionar.
O longa não é ruim, mas faz sentido boa parte das críticas que vem recebendo. A direção parece pouco disposta a arriscar, e o roteiro escolhe um caminho seguro ao focar no ícone e não no homem. Nas primeiras cenas, acompanhamos Michael ainda criança, em Gary, nos ensaios com os irmãos antes da ascensão dos Jackson 5, sempre sob o olhar duro e exigente de Joe Jackson. Ali, confesso, tive a impressão de que o filme seguiria por um caminho mais complexo, disposto a revelar camadas menos óbvias do artista.
Mas não é isso que acontece. O recorte da infância, aos oito anos, até o rompimento com o grupo e o lançamento de Bad, em 1987 entrega ao público uma narrativa já conhecida, cuidadosamente higienizada de controvérsias. A sensação é de assistir a uma biografia filtrada, quase como um perfil de redes sociais: só entram os momentos bonitos, bem iluminados, coreografados. Só que a vida, como sabemos, não se sustenta nesse recorte.
Falta profundidade, falta complexidade. Em muitos momentos, o filme soa raso, como se tivesse sido feito “pisando em ovos”, desconfiando da maturidade do espectador para lidar com zonas de sombra. E é justamente nessas zonas que mora o interesse dramático que ficou de fora.
Ainda assim, há méritos. A atuação de Jaafar Jackson é um dos pontos altos. Ele não apenas interpreta ele encarna o tio. Em cena, há momentos em que os gestos, o olhar e, principalmente, a dança recriam com impressionante precisão a presença de Michael.
A continuação já foi confirmada. Fica a expectativa de que, no próximo capítulo, o filme tenha mais coragem e finalmente nos aproxime não só do mito, mas do homem por trás dele.

