Crítica Teatral
O teatro como espelho de si mesmo em Peça sobre Peças
Peça sobre Peças também propõe uma reflexão sobre o que veio antes. É um gesto de homenagem, uma forma de lembrar e reverenciar o teatro feito e produzido na cidade.
Foto: Vitor Dias
Por Vanessa Ricardo
Um espetáculo que nasce das memórias e das vivências de quem está em cena. Com dramaturgia de Francisco Mallmann e direção de Fernando Proença, Peça sobre Peças reúne no elenco Christiane de Macedo, Diego Marchioro, Geyisa Costa, Patricia Cipriano e Ranieri Gonzalez.
Com um jogo de palavras afiado, sustentado por força dramatúrgica e por atuações que transitam entre diferentes registros, a cena se constrói em camadas. O papel do ator se desloca: ora sujeito, ora personagem. Nesse trânsito, as fronteiras se desfazem a ficção invade a vida, a vida contamina a ficção.
Aqui, o teatro também é personagem. Porque sem ele nada existiria: nem as peças, nem os encontros, nem a própria ideia de cena. O espetáculo olha para o teatro como matéria viva, feita das obras que vieram antes, dos rastros que permanecem e das vozes que ainda ecoam no presente.
Em cena, os atores transformam suas experiências em matéria dramatúrgica para refletir sobre o próprio fazer teatral. No centro da narrativa está o ser artista com seus dilemas, desafios e também as potências e afetos que sustentam a profissão.
Cinco atores de diferentes gerações se encontram para discutir o teatro e seus modos de fazer. Entre relatos, provocações e reflexões, a profissão é colocada em perspectiva, tanto no que sustenta quanto no que limita. Em um dos momentos mais emblemáticos, uma atriz revela a dificuldade de se imaginar fora dos palcos, incapaz de preencher uma simples folha de papel com outras possibilidades de vida além do teatro. Em contraponto, Geyisa Costa aponta para a necessidade de se abrir a outras profissões, reconhecendo que nem todos os corpos cabem em todos os papéis.
Peça sobre Peças também propõe uma reflexão sobre o que veio antes. É um gesto de homenagem, uma forma de lembrar e reverenciar o teatro feito e produzido na cidade. Porque o teatro começa muito antes de se acender a luz do palco: uma peça só acontece porque outras vieram antes, porque há uma história que sustenta cada nova criação. E há algo de profundamente bonito nisso.
Antes mesmo de entrar na sala, o programa já indicava esse movimento de continuidade. Desde a estreia, um ator ou atriz da cidade é convidado a apresentar um solo de uma peça da qual já participou. No dia em que assisti, a convidada foi Saravy, trazendo à cena mais uma camada de memória e presença.
Ao todo, foram chamados 14 artistas da cidade: Gilda Elisa, Helena de Jorge Portela, Maíra Lour, Mauro Zanatta, Nadja Naira, Nautilio Bronholo Portela, Nena Inoue, Rafael Camargo, Ricardo Nolasco, Rosana Stavis, Saravy, Silvia Monteiro, Simone Spoladore e Sueli Araujo, nomes importantes das artes cênicas locais, sem dúvida.
Ainda assim, fica a sensação de que esse recorte poderia ser mais diverso. A ausência de mais artistas negros e trans evidencia bolhas que o teatro curitibano ainda precisa perfurar um ponto que atravessa não só esta obra, mas o próprio cenário cultural da cidade.
Peça sobre Peças se revela, ao fim, como um espetáculo de muitas camadas, que encontra no metateatro sua principal potência. É uma obra que não se esgota no primeiro olhar ao contrário, convida à revisita, à escuta atenta e à permanência. Um trabalho para ver, rever e continuar pensando depois que as luzes se apagam.

