Crítica Teatral
Eu Sou Minha Própria Mulher: crítica do espetáculo com Edwin Luisi que emociona e resgata a história de Charlotte von Mahlsdorf
É obra que estende o tempo da vida.
Reúne drama e comédia como sempre o fora.
Foto: Carolina Torres
Por Leonardo Talarico
Eu sou minha própria mulher é uma obra cênica espetacular.
Após 18 anos, Edwin Luisi retorna aos palcos para contar a história da travesti alemã Charlotte von Mahlsdorf (1928-2002).
Mahlsdorf sobreviveu ao nazismo e ao comunismo. Suportou perseguição, violência e preconceito.
Proprietária de um museu e de um cabaré LGBTQIAPN+ clandestino, tornou o espaço um lugar de resistência humana e cultural.
O texto de Doug Wright ganhou o prêmio Pulitzer. O mesmo espetáculo rendeu (há 18 anos) prêmios, excelentes críticas e ávido público.
Edwin Luisi interpreta incontáveis personagens para apresentar a história de Charlotte von Mahlsdorf, nascida em 1928, afirmada no sexo feminino diante da Alemanha nazista e do comunismo.
A peça não ergue uma heroína costumeira.
Perfaz uma mulher com enormes virtudes, falhas e atitudes questionáveis.
O mundo cênico crítico caminha normalmente por alguns perfis: uns trafegam na confusão entre gosto pessoal e aceitação do outro; alguns utilizam a obra como oportunidade à pseudointelectualidade; os práticos escrevem o conhecimento, o visto e o feito.
Em uma atmosfera social tão panfletária, reduto do radicalismo e da autorreferência, faz muito bem existir “Eu Sou Minha Própria Mulher” (ontem e após dezoito anos).
O mais difícil de criticar é estar livre (de si) para assistir.
“Morrer” na coxia e na plateia são atos semelhantes.
É preciso admitir: o Teatro está a morrer.
Obviamente, levar falas ao extremo é ignorância ou perversidade.
Existem excelentes espetáculos, mas igual a este não existe mais. E o que faz desta obra algo extremamente raro?
A confecção das personagens e a interpretação atingem pormenores inimagináveis. Uma compreensão de vida (do ator) tão necessária à compreensão da arte.
Um minimalismo afetivo para recolocar o ator como protagonista da realização teatral.
Nenhum dos saberes cênicos esbarra em autorreferência. Tudo serve à história e ao exercício do ator.
Temos também uma direção (Herson Capri) cirúrgica, cuja sabedoria (além de muitas) é manter a unicidade da obra, todos falarem a mesma língua, contar uma história com delicadeza e humanismo e, sobretudo, deixar um dos maiores atores brasileiros oferecer sua plenitude cênica e humana.
A medida do artista é a medida do humano.
A força política permeia a contação da história com humanismo pouco visto.
A personagem central não é forjada ou ajustada aos interesses dos discursos hodiernos. É grande por seus erros, acertos e afetividade (não como o nosso afeto mais conhecido, mas afetividade na distinção dos sentimentos).
A forma como Edwin Luisi constrói e executa mais de vinte personagens é inacreditável. Escolhas miúdas e precisas.
Imagina, à guisa de exemplo, um diálogo entre personagens onde falam bom e mau alemão?
Tudo de forma singela e com incontáveis camadas. Estabelecer também o movimento das mãos em determinados momentos do espetáculo para ambientar cenas entre duas pessoas é uma escolha espantosa.
Existe, por outro turno, uma habilidade extrema da protagonista de colocar sua dor em um lugar nobre.
Edwin perfila na sua interpretação toda a Antropologia Teatral (energias, vetorização, oposição, dilatação, desequilíbrio, ação, cintura escapular e pélvica, assimetria), além de uma interpretação horizontal, minuciosa, ausente mínimo recurso fácil.
Tudo posto em cena foi extraído dos conhecimentos mais invulgares.
A confiança na inteligência da plateia é de encher os olhos. A pulsação entre ator e público é linda de assistir e de pulsar junto.
O cenário é delicado, belo, elegante e entregue a serviço do ator e da obra.
Informa e gera ambiência. O famoso “clima da mulher” na lição do Arthur da Távola.
O figurino e os adereços seguem igual caminho. Marcelo Marques (responsável pelos três) entrega seus saberes de peito exposto. Tudo em prol da história, do Edwin, da personagem central e do público.
A direção de movimento caminha para o seu destino. Nada ocorre ausente propósito.
As personagens não trafegam por onde não deveriam. Um desenho de movimento escolhido esmerado.
A competente trilha sonora (Edwin Luisi) reforça a dramaturgia e climatiza os espaços.
O belo desenho de luz (Aurelio de Simoni) abre o “salão” e produz excelentes recortes técnicos para acentuar a dramaturgia.
É obra que estende o tempo da vida.
Reúne drama e comédia como sempre o fora.
Além da fisicalidade, cada fala de Edwin, seja pela GESTALT ou pelo controle das dinâmicas e rabiscos cantados de finais de frase, é primorosa.
As soluções nas distinções das personagens e o acontecimento que é o aparecimento de cada uma delas são um deleite.
Que prazer estar diante do maior ator brasileiro cênico atual.
Que prazer saber que a arte ainda tem espaço de humildade e humanismo.
Entendo todos acreditarem possuir uma vida relevante e um discurso político-terapêutico próprio, mas é bom ouvir as histórias das grandes mulheres como referência.
Que prazer saber que o Teatro ainda conta histórias alheias. É uma obra eterna!

