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Crítica Teatral

“São filhos dum subúrbio imundo do país” 

Apostaram no envolvimento, na entrega, na atuação sem máscara, sem trejeitos, sem lugar fácil. Todos os atores oscilam em cena e isso é demasiado humano.

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em

Foto: Bárbara Campos

Por gabriel m. barros

A crítica também pode ser espaço de fabulação, invenção, fantasia? Nessas linhas sim. Normalmente a crítica lida com o consumado, e aqui não quero abrir mão disso, mas para chegar a ele precisarei elucubrar e elaborar um pouco mais. Fantasiar, portanto. Talvez me alongue, me perca. Talvez essa crítica seja do impreciso. Me parece que isso ainda é manter o teatro vivo, então. 

​Escrevo sobre Gota d’água, o samba de Jasão. Melhor, escrevo sobre a tragédia que envolve esse sambista ou imagino ela. Começo me perguntando: o que foi da Vila Meio-Dia após Joana e os filhos comerem o pão? Tô pensando no impacto imediato. Afinal, a vila tinha vizinhas e vizinhos que fofocavam sobre as coisas. Joana e seu sofrimento já era de conhecimento daquelas pessoas. 

​Vejo Corina e Egeu sem chão e sem disposição para seguirem naquele lugar e se mudando. Dois desacreditados de terem visto de perto o quão longe o ser humano vai porsuas ambições. Quando é que falariam da história de Joana novamente? Se não foi eles, alguém deu com a língua nos dentes, ou foi alguém de outra vila que visitou o Meio-Dia e ficou sabendo. Se bem que a tragédia saiu em todo lugar, o sambista era famoso, tocava nas rádios o “Deixa em paz meu coração”. Mas aqui tô pensando nos detalhes, nas falas, na angústia que levou a mulher abandonada a fazer o que fez. 

​O fato é que a história vai ganhando corpo, voa mais que a canção, vai servindo de exemplo. Alguém que vê um pai abandonando a família por outra mulher cita Jasão; na outra vila, quando o dono do lugar vem aumentar os impostos, citam Creonte e também lembram de Joana na hora do despejo, lembram do “mais um dia”. A história do Meio-Dia vai tomando os subúrbios, vai chegando no outro extremo, vai viajando com as bocas e sendo contado e cantada. 

​ Até que um sujeito imagina o que Joana disse na hora que envenenou o pão, já que não tinha ninguém ali. Aí vem a frase “Tudo está na natureza”, e esse alguém faz versos sobre isso. Os versos parecem se encaixar e uma fulana se apropria deles, torna-os quase seu e começa a recitar por aí. Começa a surgir um texto. Começa a pulsar. A história de Joana, tão nossa, tão própria, pede pra ser lembrada, vivida e encenada. Alguém decide montar e o faz. É um estrondo. 

​A história persiste, vai vagando por aí, atravessou a cidade e o estado do Rio, chegou em São Paulo. Um grupo, com a pulsão de um texto, decide encená-lo. Esse grupo se conjura e estrutura a partir disso. Fizeram história na cena paulistana. Vinte anos depois, eles olham pra essa história tão nossa, tão deles, e decidem recriar esse acontecimento. Joana tinha sido pouco ouvida ainda! 

​Gota d’água – no tempo, vem dessa ficção fricção da realidade, pois todo real é também uma imaginação absurda nossa. Vinte anos depois, mais amadurecidos, curtidos no tempo, decidem emprestar suas vozes, corpos, suas descobertas do mundo, pra novamente botar a Vila do Meio-Dia no meio e Joana no epicentro dessa tragédia diária. 

​Talvez mobilizados pela Joana quando fala da ansiedade do povo, desse que tem “um vulcão amarrado pelo umbigo”, desse que “vive de repente porque não sabe o que vem pela frente”, que não tem futuro e só é feito de agora, talvez por isso o grupo decidiu retomar. E é curioso, que ao chegarem no futuro (e a gente sempre precisa lembrar que nosso agora é futuro de alguma coisa), precisaram voltar para essa Gota d’água. Precisaram cantar aos quatro ventos “Deixa em paz meu coração”, precisaram pegar a tragédia e fazer carnaval. 

​Mas qual tragédia? A gente precisa lembrar, e eles fazem isso a toda sessão, que o teatro paulista, e o brasileiro a bem da verdade, tem vivido de ataques. Tem vivido só do de repente. Parece ficção e não é, porém praalguns atores só o agora é uma opção, esse de repente, pois nem se sabe se terá emprego após a temporada, que aliás, é cada vez mais curta, acelerada, que precisa abrir sessão extra já que a programação dos locais estão fechadinhas até sabe-se lá que ano. Os atores que se virem. E se viram, e recriam, e pensam sobre essa gota antes que ela caia. 

​A Cia Coisas Nossas de Teatro fez uma aposta com essa retomada: colocar o ator inteiro bem perto das pessoas. Amontar mesmo. Todo mundo meio grudado, rompendo essa fronteira entre plateia e palco. O povo sobe no palco, segura na mão da Joana, é a galera que fez festa no campinho com Jasão e Creonte e também os filhos na partilha do pão. A escolha do grupo é ousada pela singeleza em tempos de flashs, de explosões sonoras, de luzes e microfones e tecnologia exacerbada. Apostaram no humano. Recriaram a vila e se reconheceram como filhos de algum subúrbio, fizeram e discerniram que o teatro, pelo menos no Brasil é filho desse subúrbio. 

​Apostaram no envolvimento, na entrega, na atuação sem máscara, sem trejeitos, sem lugar fácil. Todos os atores oscilam em cena e isso é demasiado humano. Apostam na voz, mas não na que grita, naquela que se faz onda, cresce quando necessário, se esconde pra causar efeito, vira tsunami quando encontra coro, e encontra. Apostaram no olho no olho. No silêncio. E ao fazerem isso, os toques de celular não se agitaram como tem sido usual nos teatros, as tosses também ficaram mais amaneiradas, contidas, sem rompantes. O público cativado entende o rito acontecendo na tua frente, se cala e se dobra junto. 

​E tem a Georgette. Ali. Em cena. Eu sempre tento adjetivar, mas sempre falto nisso. Ela também assina a direção e isso não é um plus, serve de indicativo pra força motriz e envolvente que ela é. Fadel é uma ficção, uma fantasia. Ela põe a gente pra sonhar, num mundo de desencanto, de abandono, enfestados de agora. Ela faz a gente projetar pra depois, faz a gente ruminar. Uma cena dela é o trabalho de uma vida dedicada ao teatro colocada ali. E arrebata. 

​A Cia Coisas Nossas de Teatro tem recriado a fantasia de Mil e uma noites toda vez que sobem ao palco: tem impedido que a fantasia caia e com ela a existência. Tem feito o próprio viver parte não da realidade absurda, e sim da mais bela e potente invenção humana: a imaginação. 

Meu desejo mais sincero é que consigam estender essa temporada para outras espaços e mais e mais pessoas assistam. Assinalar que é imperdível foi o que tentei registrar a cada linha aqui.

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