Cinema
Entre a fama e o vazio: o suspense brasileiro de Papagaios
Com personagens bem construídos, uma tensão que cresce de forma sutil e uma fotografia que ajuda a sustentar esse clima, Papagaios é um filme cheio de camadas. Daqueles que fazem mais sentido depois, quando você para para pensar e que provavelmente pedem uma segunda assistida.
Por Vanessa Ricardo
No cinema brasileiro, o suspense ainda não é um gênero tão explorado quanto em outros países. Por aqui, comédia e drama seguem dominando as telas, o que torna interessante quando um filme aposta nesse caminho. Foi assim que Papagaios, primeiro longa de ficção do diretor Douglas Soares, começou a me chamar atenção ainda nos festivais, depois de levar quatro Kikitos na 53ª edição do Festival de Gramado.
Fiquei curiosa, mas tenho uma regra: só falo de um filme depois de assistir. Sou fã de suspense, mas também reconheço que meu repertório para no tempo, fico ali entre Alfred Hitchcock e Stanley Kubrick. Durante o filme, até tentei puxar referências, mas não encontrei nada muito direto. E talvez esse seja justamente o ponto: Papagaios não parece querer se apoiar em ninguém.
O filme constrói um suspense bem brasileiro, que brinca com essa nossa realidade e cria uma tensão constante, atravessada por um humor que surge quase sem aviso. Não quebra o clima, pelo contrário, deixa tudo ainda mais estranho.
Gero Camilo está muito bem como Tonico, um “papagaio”, aquelas pessoas que ficam atrás dos repórteres, tentando aparecer no jornal a qualquer custo, algo muito comum no Rio de Janeiro. Só que, por trás dessa figura quase caricata, existe uma obsessão por reconhecimento, uma necessidade constante de ser visto. É um personagem que vai se revelando aos poucos, sem exageros.
A relação com Beto, um jovem com traços inquietantes, é um dos pontos mais interessantes. Ele entra nessa dinâmica como quem aprende, quase como um filho, mas logo dá para perceber que existe outra coisa ali. Não é uma relação simples, e o filme não entrega respostas fáceis.
Com personagens bem construídos, uma tensão que cresce de forma sutil e uma fotografia que ajuda a sustentar esse clima, Papagaios é um filme cheio de camadas. Daqueles que fazem mais sentido depois, quando você para para pensar e que provavelmente pedem uma segunda assistida.
E, como jornalista, confesso: o final me ganhou completamente. Sem dar spoilers, existe ali um gosto de vingança quase uma resposta a esse tempo em que todo mundo quer ocupar o lugar da informação, em que influencers muitas vezes tentam assumir o papel da imprensa. Papagaios não toca nesse ponto, pois o filme se passa em uma época em que as redes sociais ainda não existiam. Mas trouxe pelo menos pra mim, que tem coisas que só o jornalismo dá conta.

