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Crítica Teatral

Aqui as “veias abertas” escorrem de baixo para cima 

Em ano de eleição, penso que o espetáculo também nos sinaliza a urgência da reafirmação de um compromisso contra o retrocesso que parece novamente se espalhar pelo território latinoamericano, especialmente pela interferência e jogos políticos dos EUA

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em

Foto: divulgação

por Carlos Canarin (@ocanariocritico)

Pensar em territórios em disputa. Pensar nesse território que habitamos como um lugar de disputa. Escandalizar os regimes de representação que fizeram desse território uma caixa. 

O que é o Brasil dentro da América Latina? Um não-lugar? Um extraterrestre? 

Como pensar em se apropriar das armas do colonizador e do imperialista enquanto táticas de sobrevivência neste território?

Bad Bunny; Venezuela; genocídios negros e indígenas; ditaduras; extrema-direita-evangélica; Coca-Cola; ficções; aquilo-que-resta; expropriação; que corpo é esse que é o daqui?

 

“Veias abertas 60 30 15 seg” é um espetáculo que parte do livro homônimo do uruguaio Eduardo Galeano para (tentar) tecer uma análise do rastro de sangue que liga o território latinoamericano. Um rastro secular, podemos dizer. Um sangue que é renovado por outros através do tempo. Vítimas, perfurações, torturas, ar impregnado de violência. Ao mesmo tempo, o que é a resistência pela cultura, e como pensá-la enquanto estratégias para lidar com isso tudo, na esperança de um outro futuro possível?

A Aquela Cia de Teatro tem em seu currículo importantes trabalhos que tocam nessas articulações mais contemporâneas sobre história, literatura e memória. É o caso por exemplo de “Caranguejo Overdrive” (2015), texto assinado por Pedro Kosovski, que navega pela Guerra do Paraguai e os traumas deixados pela experiência de um combate desigual e que vitimou, inclusive, crianças. O trauma parece ser também um assunto recorrente, pois além de psicológico ele é também corporal, físico. E pensar nesse corpo enquanto sobrevivente, enquanto testemunha da barbárie, é algo que se repete também em “Veias abertas”.

A proposta da encenação e da dramaturgia é tentar elaborar algumas partes do livro pela ótica contemporânea, digo, pela estética da rapidez das informações das redes sociais. Não foi uma analogia que fiz rapidamente enquanto assistia, pois também podemos relacionar com os fragmentos das histórias que chegam até nós enquanto arquivo e documentação, por exemplo. Mas, já que estamos numa era onde a maior parte da população parece se entusiasmar e expor sua vida constantemente em vídeos curtos, me parece uma boa teia de ligação entre a engenharia cênica proposta. Mas, será que assim como essa nova geração, não nos cansamos facilmente da repetição desse lugar? Como gerar o interesse com o fragmento? Será que não se acaba sendo também superficial quanto essa analogia da realidade?

As respostas para tais questões não são fixas nem postas. Percebo que existem muitas cenas parecidas e que levam ao mesmo lugar. Uma vez as veias expostas, penso que se decifra muito rápido como o bonde andará até o final. As atuações de Rafael Bacelar, Carolina Virgüez e Matheus Macena são interessantes principalmente pelo ponto de vista corporal, já que muitas vezes até o tom da fala parece repetir-se sendo o mesmo pela dinâmica da encenação. E, mesmo partindo de um caso acontecido na Colômbia, é impossível não perguntar-se: e onde está o Brasil nisso tudo? Quais são as relações possíveis de se fazer com a realidade brasileira? A encenação passeia brevemente por alusões tupiniquins, sem se aprofundar muito. 

Somado a estes pontos, foi uma pena os problemas com som que aconteceram em minha sessão, que infelizmente prejudicam o desempenho do elenco, já que um acompanhamento sonoro está presente do início ao fim do trabalho. Carece de momentos de silêncio, onde as imagens poderiam ser construídas de forma mais poética, sem um apelo sonoro que nos leve a um lugar específico. 

Em ano de eleição, penso que o espetáculo também nos sinaliza a urgência da reafirmação de um compromisso contra o retrocesso que parece novamente se espalhar pelo território latinoamericano, especialmente pela interferência e jogos políticos dos EUA. Mais do que passar a mão no ombro da esquerda, convocá-la enquanto mobilização autocrítica é um caminho a ser trilhado daqui para frente, especialmente quando direitos básicos estão (novamente) sendo ameaçados.

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