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Crítica Teatral

Transformar a revolta em “{Fé}sta”

O riso aparece como resistência, e dessa vez também encontramos uma palhaça, sinalizando a presença feminina numa arte predominantemente masculina se pensamos em sua história.

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em

Foto: Lina Sumizono

por Carlos Canarin (@ocanariocritico) 

Em textos anteriores tentei elaborar algumas questões que estão sendo caras a mim enquanto pesquisador e artista, principalmente quanto aos fazeres artísticos feito por grupos que se empenham na pesquisa de linguagem de teatros não-normativos, pensando em parcelas minorizadas socialmente. Mais do que uma resposta única, anda me interessando as estratégias estéticas de fugir das caixas discursivas pré-estabelecidas para esses teatros, não como uma nova regra a ser seguida, mas como uma sinalização de pluralidade.

Não que um teatro mais panfletário ou pautado no discurso político seja menor ou sem um pensamento estético por trás, nada disso. Mas me balança quando o discurso está nas entrelinhas, não muito mastigado. Quando está impregnado na cena, sem ser necessariamente anunciado. Acredito que essa habilidade, esse pulo do gato, é uma lapidação difícil mas que resulta em trabalhos audaciosos por não dissociar algo em detrimento de outro ponto cênico. Para mim, este é o caso de “{Fé}sta”, o novo trabalho do coletivo Prot(agô)nistas.

Numa gira relacional com o anterior “O movimento negro no picadeiro”, trabalho que fazia uma ode à presença de artistas negras(os) na arte circense, essa nova obra foca em reformular as imagens de controle do corpo negro, prismando construções que fujam da violência e da dor, por exemplo. Pensando na Diáspora africana como ponto de partida, o barco da vida é posto enquanto metáfora de resistência pela presença, não pela ausência e pelo apagamento. O jogo vira. A interlocução não é com a branquitude, mesmo que ela esteja presente aos montes na plateia. Interessa mais é a convocação preta.

Dirigida por Ricardo Rodrigues, o grande grupo de artistas encanta não somente pelas incríveis habilidades corporais e pela presença mobilizadora em cena, mas principalmente pela sintonia e pela coletividade como signo fundador e essencial. Todas(os) as(os) artistas têm seu momento em cena, todos são protagonistas. Acompanhados em geral de uma estrutura móvel que lembra um andaime e que se transforma em vários cenários imaginários, que leio como se por um instante pudéssemos capturar a História que por muito tempo negou a humanidade de nossos ancestrais. Uma vez capturada, experimentaremos na prática como é ler essa História pela celebração de suas existências e também as nossas próprias no hoje, pois também somos os sonhos delas e deles.

A música também é um lugar importante para essa festa. Capitaneada por Tô Bernado, as construções sonoras são uma dramaturgia cantada. Por não existir a palavra enquanto texto, é pela música que somos atravessados pelo discurso, sendo difícil não ser arrebatado pela emoção. O riso aparece como resistência, e dessa vez também encontramos uma palhaça, sinalizando a presença feminina numa arte predominantemente masculina se pensamos em sua história. 

Chegamos então ao espelho de Oxum, que nos mostra a nossa própria imagem, mas evidencia a presença de muitas(os) outras(os) conosco. Ao meu lado, na primeira fileira da plateia, eu ouvia a conversa de uma tia com sua sobrinha. No diálogo, a tia falava sobre a beleza do espetáculo, que ela já tinha assistido no dia anterior, e havia voltado mais uma vez só para trazer a menina para assistir. A expectativa pairava no ar, mas também a felicidade pelo prazer de se ver representado em cena através de outras narrativas. Ambas são pessoas negras e muito provavelmente a tia da menina não teve a oportunidade de assistir algo daquele tipo. Penso que esse é um dos poderes da arte. E só nesse prólogo inicial eu já habitava uma outra relação com aquilo tudo. Uma transformação que, mesmo pequena, se dá pela presença e pelo existir em qualquer espaço. Se existe um top 3 na minha cabeça de momentos mais bonitos e poderosos desse evento, os Prot(agô)nistas certamente ocupam uma das primeiras posições.

Só de revolta seremos felizes (e faremos disso uma grande festa!).

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