Colunista
A coragem da autoficção em TIP
Na direção, Rodrigo Portella parece entender com precisão o que há de mais potente em Milla Fernandez e constrói as cenas inteiramente a serviço dessa potência múltipla.
Foto: Ale Catan
Por Tacy
Ao levar para a cena sua experiência com o sexo virtual, Milla Fernandez constrói uma obra memorável, que confronta tabus morais, revela a precarização artística e expõe as ruínas emocionais do nosso tempo.
As primeiras palavras que vieram à minha cabeça quando as luzes do Teatro TotalEnergies se acenderam e a salva de palmas rompeu o silêncio foram: “que coragem!”. E, para empregar tal expressão, é necessário ir além da bravura sabida, do arrojo temático que comumente se encontra nas montagens teatrais de hoje. Vi uma audácia diferente em TIP – Antes que me queimem eu mesma me atiro no fogo, onde temos a performance vivaz e elástica da atriz-protagonista Milla Fernandez. Sob as vestes do escárnio diante do absurdo e com afiada ironia, TIP é uma autoficção que descortina duras verdades sociais ao colocar no centro da narrativa o ofício de camgirl — forma de trabalho sexual virtual em que modelos ganham gorjetas por minuto realizando fantasias sexuais em chats privados. Perambulando sobre dois enormes tapetes vermelhos, Milla não expõe somente a privacidade do entretenimento adulto e suas inconfessáveis fantasias, mas também a si mesma, ao dividir as desilusões da profissão artística, os conflitos familiares e a fragilidade das relações íntimas. Sob a direção do premiado dramaturgo e diretor Rodrigo Portella — conhecido por Ficções e Tom na Fazenda —, o espetáculo levanta o antigo debate moral sem sordidez ou clichês, com a verdade sensível de quem transforma em cena aquilo que viveu e sentiu na pele. Vale trocar em miúdos.
Primeiro sinal, ela entra no palco. Não quer chamar atenção, senta no chão ao fundo da cena, abre o notebook e começa um chat com a plateia compartilhado no telão. Quando o público se dá conta de sua presença, o burburinho diminui. Quem ainda esta se acomodando nas cadeiras, acelera. Por fim, o terceiro sinal, o silêncio e o start. A escolha é simples e inteligente: antes mesmo de começar propriamente, TIP já instala uma atmosfera de intimidade virtual, de presença mediada em estado de performance. Usar a própria vida como matéria-prima é algo muito comum na arte. Mas, diferente da autobiografia, o compromisso da autoficção não está com a fidelidade documental, e sim com a criação final. Como escreve a pesquisadora Anna Faedrich, “o fracasso do autor em representar é o seu sucesso” — frase que, no caso desta dramaturgia, cai como uma luva. Em TIP, Milla Fernandez transforma a própria trajetória em material cênico sem cair numa simples exposição de si: o que se vê é a elaboração de uma experiência pessoal atravessada por desejo, frustração e sobrevivência. A protagonista começa introduzindo sua história — a relação com os pais, a situação financeira da família, a escolha por ser atriz, as incursões no mundo dos testes para papéis e seus infinitos “nãos” —, mas o relato nunca se fecha no caso individual. Ao contrário, ele espelha uma condição mais ampla: a de artistas que crescem alimentados pela promessa de realização e reconhecimento, mas se deparam, na prática, com um campo profissional duro, instável e frequentemente precarizado. Entre os triunfos sonhados e os fracassos concretos, a atriz expõe justamente esse descompasso entre a expectativa romântica da profissão artística e a realidade áspera de quem precisa sobreviver dentro dela.
E quando o trabalho que põe comida na mesa exige, como matéria de troca, a exposição do próprio corpo? Diante da urgência material e do colapso de perspectivas imposto pela pandemia, Milla encontra no sexo virtual uma fonte de renda imediata. O espetáculo não contorna esse dado nem o dramatiza em excesso, pelo contrário, o encara de frente. Com apoio da família e do marido, a atriz atravessa o julgamento social e mergulha num universo que desconhecia, passando a satisfazer, como camgirl, os desejos de clientes anônimos em troca de gorjetas (tips). Ao expor com franqueza o funcionamento da plataforma — o que pode ou não pode aparecer em câmera, as lógicas de remuneração, a engrenagem do show —, TIP desmonta parte do tabu justamente ao revelar a dimensão técnica, repetitiva e laboriosa daquilo que muita gente prefere reduzir a escândalo. Há humor ácido nesse relato, e há também constrangimento, dor e desgaste. Quando o dinheiro entra em cena, aliás, a moral costuma baixar a voz: Milla conta que, se quisesse “seguir carreira”, poderia se aposentar aos 30 anos, tamanho foi o êxito de suas lives e o volume das gorjetas. O dinheiro não apenas garantiu sustento, mas permitiu investir na carreira e ajudar a família — dado que torna tudo ainda menos simples, porque desmonta qualquer leitura apressada. Em cena, a pornografia não é o tema mais gritante; o que emerge são as violências subjetivas de uma vida moldada para corresponder ao desejo alheio — seja o da plateia, o da família ou do cliente. Por trás do riso e da crueza, existe uma fissura identitária profunda, a sensação de afastamento de si mesma, como se sobreviver exigisse performar até quase desaparecer. E ela diz isso com todas as letras, nos primeiros minutos do espetáculo.
“Ah, mas tinha que virar puta?” A pergunta soa brutal e despudorada, mas condensa bem o tipo de julgamento social que paira sobre essa modalidade de trabalho: todo mundo se sente autorizado a condenar. Em TIP, essa violência aparece inclusive no reencontro da personagem com o pai biológico, que lhe pede dinheiro emprestado sem deixar de desprezar a origem desse mesmo dinheiro. Mas a peça é mais aguda porque não expõe apenas o preconceito contra o sexo virtual; ela escancara também a crueldade do próprio mercado artístico. Milla relata o desfile de justificativas ouvidas em testes: “muito magra”, “muito alta”, “muito engraçada”, “muito branca”, “muito jovem”. E aqui eu tomo a palavra como artista que também sou, para dizer o quanto esse meio pode ser ingrato. Não basta estudar, insistir, atravessar os “nãos” e suportar a instabilidade material. Cada vez mais, beleza, juventude, capital social e número de seguidores parecem pesar mais nas oportunidades do que técnica e talento. Para nós, mulheres, isso ganha uma camada ainda mais perversa, porque a pressão estética interfere diretamente na forma como nosso valor profissional é percebido. As redes ampliam a comparação visual, endurecem padrões quase inalcançáveis e mantêm o corpo feminino sob vigilância constante. Enquanto isso, o mercado segue naturalizando a lógica dos números, dos filtros e da imagem instagramável. Perseverar, como aconselha a mãe da personagem, pode soar nobre; mas a verdade é que, enquanto se persevera na adversidade, mais um boleto toca a campainha.
Digerindo minhas impressões pós-peça, penso que é inevitável pensar na hipocrisia social que TIP escancara. No mundo do entretenimento adulto, o sexo parece ser apenas a porta de entrada para quem busca companhia, escuta e alguma ilusão de intimidade. Não a toa, quando a personagem decide estabelecer uma conexão mais profunda com os clientes, acessa histórias de “amor, violência, solidão e fracasso”. Para além do esvaziamento afetivo do nosso tempo, é imprescindível refletir como o machismo produz indivíduos despreparados para nomear fragilidades, pedir cuidado ou construir vínculos que não passem pelo consumo, pelo sexo ou pelo pagamento. E sabemos que são homens a maioria esmagadora dos usuários de conteúdo erótico — e não sou eu quem estou dizendo, mas dados divulgados a pouco tempo pelo site Pornhub. O que se compra, nesses casos, não é apenas nudez: é atenção sob demanda. E TIP vem nos colocar diante desse mundo, onde a intimidade e transação financeira ocupam a mesma tela, em minúsculos quadradinho que brigam por atenção. Ao pesquisar relatos de camming, que descrevem clientes em busca de uma “namorada virtual”, exigindo presença emocional, mensagens, acolhimento e disponibilidade contínua, pesou ainda mais o quão intenso, exaustivo e perigoso pode ser esse tipo de ofício. Há estudos sobre sociabilidade online e salas de bate-papo que associam justamente esse tipo de busca amorosa à solidão, a vínculos mais fugazes e a uma intimidade cada vez mais difícil de sustentar. Em TIP, tudo isso tem corpo sem virar tese. Surge no meio do constrangimento mascarado pelo riso, na fala irônica e franca, revelando que por trás do desejo tarifado, existe um mundo adoecido pedindo colo sem saber dizer.
Na direção, Rodrigo Portella parece entender com precisão o que há de mais potente em Milla Fernandez e constrói as cenas inteiramente a serviço dessa potência múltipla. Cantar, dançar, correr, tocar saxofone, sustentar o drama, carregar tapetes, mastigar pepinos sem perder o eixo: tudo encontra lugar numa encenação que nunca soa exibicionista, porque faz da versatilidade da atriz parte do próprio discurso do espetáculo. Ensaiada em Barcelona, onde o casal vive, a montagem aposta numa caixa cênica despojada, sem cortinas e com poucos elementos, em diálogo com uma iluminação recortada por focos e contras que, em certos momentos, fratura o rosto da personagem como se ele materializasse sua instabilidade interior. Na mesma chave de depuração, o figurino de Karen Brusttolin, em sintonia com o visagismo de Neandro Ferreira, valoriza a organicidade da presença de Milla sem interromper a fluidez de suas metamorfoses em cena. Já a direção musical de Federico Puppi, somada à bateria de Leo Bandeira e ao desenho sonoro de Virgínia Bravo, costura tensões e atmosferas que ampliam o alcance emocional da montagem. Nada ali parece acidental, tanto a forma quanto o conteúdo caminham juntos para sustentar uma experiência de cena que, mesmo atravessada por excesso e exposição, encontra rigor na maneira como organiza o caos.
Indicada à 20ª edição do Prêmio APTR 2026, na categoria Jovem Talento, a montagem segue para São Paulo como uma oportunidade rara de encontro com uma obra autêntica, ferina e sem concessões, que escapa dos clichês com humor, inteligência e veneno. Se a prática autoficcional, como lembra Julián Fuks, pode ser entendida como “uma outra forma de terapia”, em TIP ela se realiza como travessia: uma imersão radical nas próprias ruínas, da qual Milla Fernandez parece não sair ilesa, mas artisticamente, inteira. Nas palavras dela: “essa peça não é uma resposta, é uma pergunta que eu me faço todos os dias.”

