Opinião
Lampejos 1: história da violência
O jogo cênico, com quatro atores, é formidável. Os atores se desdobram entre agentes da lei, representantes do poder e burocracia estatal, até a própria parentela
Foto: Arno Declair
Por gabriel m. barros
Convém explicitar a ideia do lampejo: é uma crítica não crítica. Derivada da urgência (qual crítica não é?), fruto do que é ver um espetáculo dentro de uma mostra. Daí seu caráter crítico, porém provisório, quase imediatista. Por isso mesmo, feita de fragmentos. Forma de registrar as primeiras inquietações, daí seu caráter relâmpago, um flash. Impreciso por isso. Muito mais uma forma de como o espetáculo chega ao crítico, que também é público, do que necessariamente uma crítica. O lampejo é em si, um exercício de elaboração irrisório.
O teatro fica na esquina com a Av. Liberdade. Essa está fechada por conta das obras do metrô. Como rescaldo, a rua de acesso ao teatro também está. Não há sinalização e constantemente há trânsito em frente ao teatro, ide os Ubers, num truncamento digno de São Paulo. Tudo isso só pra questionar: como experienciar teatro se o seu acesso já tem dificuldades, quiçá impossibilidades? Aliás, creio que não dói indagar: qual o comprometimento do estado e da cidade com a mostra?
Sobre a peça propriamente, esclareço que li outras coisas do Louis, e vi outras peças também, porém a que deu origem ao espetáculo não.
Me lembrou muito, pela forma de contar a história, o filme Irreversível, do Gaspar Noé. Certamente, mesmo ele não sendo o criador dessa história de trás pra frente, Noé foi quem deu novos tons para essa forma.
O jogo cênico, com quatro atores, é formidável. Os atores se desdobram entre agentes da lei, representantes do poder e burocracia estatal, até a própria parentela. O ator que dá vida a Édouard Louis mescla intensidade das cenas com o comedimento na postura, que é comum ao autor, muito bem. Destaco ainda a única mulher em cena: faz várias personagens e encarna uma irmã que é daquelas que se tem raiva por nos conhecer demais. Todas as atuações foram extremamente complexas mostrando o humano e o monstro que há em todos nós.
A utilização do vídeo é sempre uma linguagem interessante, mas já respira a lugar comum, sem muita novidade.
Agora, trabalho de corpo e voz é sempre algo que fascina se bem executado. A princípio pensei que a peça ficaria toda no microfone (embora fique boa parte do espetáculo), contudo as escolhas, inclusive de falarem extremamente baixo, acreditando na acústica ou em algo que não se dá pra compreender, foram acertos que fizeram, em alguns momentos, o público se reclinar na cadeira, como se estivesse ouvindo um segredo.
O corpo em cena é belo de se ver. Já de início os atores ocupam o espaço, saindo de cena poucas vezes para logo reapareceram, normalmente já como outra persona. Todos ficam no palco, como se escutassem, participassem, interferissem. Mais: vão modulando a construção da narrativa, incidindo com seus personagens que reagem até às reações do público.
Ainda destaco a transição entre as cenas, que deriva dos atores dançando, até cenas em que irmã e polícia questionam Louis, nesse mosaico de perguntas comuns e diferentes.
Por fim, a ideia da mentira existindo para negar a realidade imposta, como subterfúgio de subsistência, me parece algo que ganha novos contornos e beleza dentro do teatro, onde tudo é muito concreto ao mesmo tempo que uma grande mentira. Aqui me parece o grande acerto do espetáculo e da MITsp: ainda negamos o real e acreditamos no palco como forma de permanecer.

