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O trágico como [in]comum 

No país que se exulta a alegria e se privilegia ela, trazer a tragédia pode parecer desencontrado, quase uma ideia fora do lugar, porém nos cai como uma luva.

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Foto: João Caldas Filho

Por gabriel m barros

​Encenar Séneca em 2026, no início do ano, época do carnaval, ou seja, antes mesmo do próprio ano começar, na nossa tradição tupiniquim, é ousado por si só. A começar em trazer um autor muito pouco encenado, muito menos lido, para a cena paulista. A cereja desse bolo é a própria peça, Medea, aquela que não tem terror e purgação, aquela que não há sequer uma tensão que vai se formando, a tensão está posta, atravessa a cena toda. 

​Ousado, portanto. Motivo de júbilo. Se fosse apenas isso, já seria muito em tempos que não há tempo para a dor ser encenada de um lado e sentida pelo público de outro, sobretudo por uma lógica de que toda peça precisa de um alívio cômico, de um respiro, ou seja lá o que for para abrandar o espectador. Aqui não. 

​Gabriel Villela, com sua direção magistral. não poupa, não ameniza, nem suaviza. Vai aos limites. Aciona recursos muito simples para dar conta de questões cênicas complexas: ânforas para amplificar a voz; um coro formado por três pessoas (a coragem de dar vida ao coro), que também rearranjam a cenografia; as crianças e a solução para a encenação da morte delas. 

​Mas há algo precioso que a peça se atém e tira daí a sua força: é a voz. O teatro trágico é aquele que menos mostra e mais diz. As vozes criam as cenas que acontecem fora do palco. E aqui vem a grandeza desse espetáculo que aposta no que é o mais intenso duma criação: os atores. O que eles fazem em cena é surpreendente. É a voz dos atores o fio de Ariadne que vai nos guiando ao epicentro do labirinto cênico, ao mesmo tempo que nos amarra e nos faz, enquanto espectadores, parte ativa e atenta. 

​E há as Medeas no plural. Não uma, mas três: Rosana Stavis, Mariana Muniz e Walderez de Barros. Stavis e seu gigantismo de pegar o texto no seu cerne e pela sua tonalidade dar o arrepio que ele precisa. Muniz e sua voz trágica, somado aos seus gestos, sem contar com o momento em que ela geme em uma cena, faz da tragédia quase um quintal. E Walderez, que senta em sua cadeira, coloca seus óculos, sinaliza pra gente que ainda estamos num teatro, que aquilo é uma encenação, e quando abre a boca, toda arrebentação que é Medea se manifesta. 

​A Medea se faz coro: Stavis e Muniz recitam juntas algumas cenas e aqui me parece uma sacada genial: se o coro, na sua acepção clássica, representa a voz do povo, daqueles que viam as encenações, quando a própria personagem trágica se faz coro é indicando que ela também é povo e que em nós há uma linha tênue entre justiça e vingança, sendo que quase sempre estamos executando a segunda pensando dar conta da primeira.

​No país que se exulta a alegria e se privilegia ela, trazer a tragédia pode parecer desencontrado, quase uma ideia fora do lugar, porém nos cai como uma luva. Nos lembra que os crimes passionais seguem com força. Aliás, lembremos que o crime passional é obsoleto, o que existe são crimes de ódio. 

Na semana em que assisti Medea um crime bárbaro aconteceu, não por uma mulher, mas por um homem e que executou a mulher e os filhos. No momento em queescrevo este texto os casos de feminicídio no país são gritantes. A tragédia é atual, contudo, na nossa tragédia cotidiana Jasão segue dispensando Medea e matando a Creusa. Tal lá quanto cá, Jasão não executa nada, depende e precisa da mulher, pois é ela que conhece as artimanhas do mundo. Daí a urgência de assistirmos uma tragédia e talvez fazer como Séneca: realocar o mito para compreender o nosso agora.  

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