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Tem um leão na sala

Do saldo, não é todo dia que se tem um leão na sala. Vale ir ver. Inclusive para compreender melhor as reações dos demais que estão nesse recinto. Aliás, ver o leão “mostrando os dentes”, ou exibindo sua juba é um acontecimento primoroso. 

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em

Foto: Ronaldo Gutierrez

por gabriel m. barros

A expressão “tem um elefante na sala” é comumente usada para sinalar que naquele contexto tem algo incômodo chamando a atenção, entretanto as pessoas presentes resolvem guardar silêncio sobre. Ao assistir aencenação de O mercador de Veneza, de William Shakespeare, com direção de Daniela Stirbulov, contando com a adaptação de Bruno Cavalcanti, eu ressignifiquei a metáfora do elefante para a de imaginar um leão na sala, ao ver a personagem construída por Dan Stulbach. 

​Dentre as obras shakespearianas, essa era uma das que eu pouco sabia sobre o desenvolvimento, e ela me parece uma das mais certeiras de Shakespeare, principalmente pelo fato de deixar quase tudo em aberto. Diferente das tragédias, como Hamlet, Macbeth, Ricardo III, em que tudo se dissolve, só resta silêncio, esse não. Tudo parece ruir, tudo se desestabiliza, mas a peça termina sem que se caia o edifício, só estamos cientes das rachaduras e de uma leve incerteza de que irá cair. 

Com isso, não sei assinalar se é mais tranquilo atuar em uma peça que se fecha com tudo desmoronado ou evidenciando as rachaduras. Em todo caso, são construções distintas de personagens, com finalidades distintas e também com suas dificuldades próprias. A peça inteiramente trágica produz a catarse e pede uma entrega visceral dos atores, é tudo intenso desde o início, ou seja, a personagem só acentua o tom fatalista no texto, mas dificilmente tem oscilações, só intensificação. A peça que tem seu final em aberto (já seria aí a gênese do drama?), as personagens tem maiores oscilações, vacilam, titubeiam, negociam, aqui a radicalidade está na contenção. Enfim, dois mundos distintos. 

​Em ambos os casos os textos não são fáceis. Lapidá-los para entregar ao público não só uma atuação convincente, mas que se justifique no todo, não é simples. Nesse aspecto, é sem dúvida o peso da experiência que vai dar o tom. 

​E é nisso que Stulbach se torna um leão em sala. O teatro de arena, do Tucarena, permite ver o ator, que já está na personagem, antes mesmo de entrar em cena, ali no bastidor, já se percebe que algo diferente vai acontecer. É dessas coisas que a atmosfera muda antes dele abrir a boca. É a impostação, é o trejeito na mão, é o olhar da personagem que toda a vida foi desrespeitada e está diante da sua oportunidade de vingança. 

​Shylock, a personagem interpretada pelo ator, é a que possuí maior carga dramática na peça, entretanto não é a central do texto shakespeariano. A montagem deliberadamente escolheu coloca-lo como central (isso está descrito na própria sinopse contida no site). Deram destaque ao leão. 

Na savana o leão ou é desdenhado pela própria matilha até que ele precise se impor, ou é interpelado pelas hienas que tentam lhe roubar a comida ou, em último caso, é fotografado pelos turistas blindados em seus jipes, num misto de alegria e terror pelo exotismo. Com o leão na sala o que se faz? Se assusta, se admira e também se silencia. 

Apesar disso, os atores em cena precisando jogar com alguém que se faz gigante no palco e elevado a central na montagem, ora acertam, ora vacilam. Vi essa peça após mais de 100 apresentações do grupo, e me parece que as arestas já foram lapidadas e que, ao se para o público se mantém, significa que foi a isso que conseguiram chegar. Isso não significa que não há momentos notáveis, como a atuação de Thiago Sak, fazendo um príncipe hilário (o ator tem um trabalho de voz estupendo, que me parece que poderia ter sido muito mais explorado, mas aí dependeria assumir outra personagem). Ou também a atuação de Gabriela Westphal, que como Pórcia, talvez pelo seu vestuário (os óculos escuros e o casaco de pele de animal) evoca uma dondoca não condizente com a própria conduta da personagem, entretanto, como advogado, constrói algo muito bom e que consegue pleitear com o leão na sala. 

Do saldo, não é todo dia que se tem um leão na sala. Vale ir ver. Inclusive para compreender melhor as reações dos demais que estão nesse recinto. Aliás, ver o leão “mostrando os dentes”, ou exibindo sua juba é um acontecimento primoroso. 

 

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