Cinema
Oscar 2026: cinco filmes entre o delírio e a contemplação
Nesta lista, reúno indicados de gêneros distintos que apostam em densidade, linguagem e originalidade.
Por Tacy
Adoro cinema. E adoro fazer listas! (é Lua em Virgem que fala, né?) Não me considero cinéfila,apenas coleciono os nomes dos muitos títulos que assisto, como troféus. Entre séries e filmes, que variam entre documentários, não-ficções e animações, vou anotando e acompanhando as produções cinematográficas, nacionais e estrangeiras. Pois bem: o hábito fez o monge. Acabei desenvolvendo o gosto de acompanhar os indicados ao Oscar antes da premiação. Nem que seja para passar raiva, como acontece inúmerasvezes. Ou então para comemorar prêmiosmerecidos, como no magistral Ainda Estou Aqui. Este ano não foi diferente: entre um vácuo e outro de agenda, fui a um cinema aqui, sentei-me numsofá ali, com a listinha em punho e a pipoca no colo. Antes de tudo, eu aprecio boas estórias e trilhas sonoras cativantes. Confesso que fiquei muito apaixonada por (quase) todos que vi. Pensando nisso, resolvi destacar cinco dos longas-metragens que mais gostei e que estão concorrendo na categoria Melhor Filme esse ano pela Academia.Longe da pretensão de ser uma crítica de cinema cheia de análises técnicas! Compartilho com vocês apenas minhas impressões personalíssimas, com um olhar despreocupado em relação aosfavoritismos. E claro, todos os alertas de SPOILLERS possíveis neste texto.
Começando
pelo queridinho nacional, O Agente Secreto. Assisti a estreia no cinema Reserva Cultural, aqui em Niterói. Eu e uma sala inteira rindo das peripécias da perna cabeluda, do humor nos diálogos da Dona Sebastiana e claro, da atuação certeira de Wagner Moura como o foragido Armando se passando por Marcelo para reencontrar seu filho. Um thriller do tipo noir — que eu particularmente adoro —, cuja estória de espionagem se dá com um “não espião”, e sim, um professor universitário, cuja pesquisa desagradava o interesse de poderosos do empresariado e agentes de um governo ditatorial. Uma trama documental, quase jornalística, que traz à tona o apagamento histórico e existencial de um Brasil fascista de meio século atrás. Mas tão atual que chega a dar tristeza. O filme se desenrola com vagar ao mesmo tempo que capricha na estética do Recife antigo, nos figurinos à rigor da década de 70 e na trilha sonora que ressalta a cultura pernambucana. A trilha, aliás, é um dos pontosfortes, no meu entender. Escrita e produzida por Mateus Alves e Tomaz Alves Souza, as músicas originais do filme imprimem o estado de expectativa da trama: paranoia, profundidade e tensão. Por outro lado, também passeia por conhecidos clássicosregionais de Waldik Soriano (Eu Não Sou Cachorro Não), Orquestra Pífanos de Caruaru (A Briga do Cachorro com a Onça), Orquestra Nelson Rodrigues (Esquenta Mulher), até os universais como Ennio Morricone (Guerra e pace, pollo e brace), e os pops como Dona Summer (Love To Love You Baby) eChicago (If You Leave Me Now). Parece aleatório, mas o filme se costura pela sua sonoridade analógica, popular e densa, ao que o próprio diretor Kléber Mendonça Filho afirma ser uma conexão entre a o período histórico com a atmosfera de suspense que permeia as quase três horas de bunda colada na cadeira.
Repetindo a fórmula de 2025, as ficções científicas estão em alta nesta edição do Oscar e euadorei várias. A começar por Frankenstein, uma adaptação muito bem-feita do clássico gótico da escritora britânica Mary Shelley. Desde a sua primeira publicação literária, lá no século XIX, até amontagem de Guilherme Del Toro, a novela cujo tema central gira em torno de Victor Frankestein (criador) versus sua Criatura; reflete a dicotômica tragédia da natureza humana. Uma estória manjada, eu sei, mas tão atual que mereceu ser recontada mais uma vez. E quando achamos que tudo irá se resumir em acompanhar a saga obsessiva de um cientista egóico na busca pelo seu experimentoousado, o diretor elegantemente nos convida a mergulhar na ótica da Criatura. Muito bem representada pelo ator Jacob Elordi, diga-se de passagem. E para mim, o maior plot twist é quandoa história passa a ser narrada pelo “Monstro”, revelando capacidades cognitivas refinadas:inteligência, articulação e filosofia profunda, nem perto da besta irracional vulgarmente divulgada.Uma reflexão genial sobre a força do desejo de conexão humana e do quanto a rejeição social podecorroer qualquer benevolência individual. Em sintonia ao terror científico-existencial, está a trilha operística composta por Alexandre Desplat. Gótica e monumental, é um trabalho artesanal com orquestra, um coro de 80 vozes majoritariamente femininas, órgãos de igreja e a participação da violinista solo norueguesa Eldbjørg Hemsing, além de sutis elementos eletrônicos. De forma suntuosa, o compositor francês Desplat lança mão de todos os recursos clássicos para instaurar um tom lírico e introspetivo que represente a profundidade da tragédia narrativa. Não à toa, o filme também está indicado na categoria Melhor Trilha Sonora.
Concorrendo nos mesmos grids está o satíricoBugonia, que me prendeu definitivamente do início ao fim. O absurdo é o seu mote: doisconspiracionistas, Teddy (Jesse Plemons) e Don(Aidan Delbis), sequestram uma CEO, Michelle Fuller (Emma Stone), por crer que ela é umaameaça alienígena que vai destruir a Terra. “Putz, que besteira cafona”, é o que se pensa lendo uma sinopse como essa. Mas aí vem Yorgos Lanthimos, cineasta grego diretor do filme, e mostra que o cafona inverossímil nunca saiu de moda, ao contrário, está mais em voga do nunca. Cínico, sombrio e elegante, Bugonia abraça as temáticas da pós-verdade: a máfia das indústrias farmacêuticas, destruição ambiental, fake news, negacionismo e teorias da conspiração. A história não é original, mas uma reimaginação em língua inglesa do cult sul-coreano Save the Green Planet! (2003), que versava o mesmo tipo de humor e paranoia. No roteiro de Will Tracy, temos contrastes sociais espalhafatosos, regados a closes demorados, cores exageradamente vivas e iluminação cirúrgica de tão branca. Os personagens socialmente deslocados, com suas lógicas paranoicas levadas ao extremo, são um reflexo irônico da nossa sociedade que dá convicção absoluta a fontes duvidosas de internet. O personagem Teddy é a personificação da subjetividade ferida, fanática e delirante. Suaperformance virulenta e até misógina ao praticarviolência contra Michelle e destituí-la de sua casa, suas roupas e seu cabelo; é de puro ressentimento conspiratório. A atriz Emma Stone, cuja atuação está brilhante, interpreta o retrato da manipulação fria ecalculista do mundo corporativo. Os diálogos de gato e rato entre os dois são verdadeiros jogos psicológicos. Aditivando a atmosfera de crueldade, está a intensidade da trilha de Jerskin Fendrix, que segundo ele mesmo descreveu, tem algo de“adolescente, raivosa, excessiva e barulhenta” num espelhamento do estado de espírito do thriller. Buscando um conceito mais provocativo e teatral, o músico experimental britânico gravou com a London Contemporary Orchestra, numa formação de 90 músicos, para criar uma escala sonora “grandiosa eassustadora”. Enervante, tarantinesco e desconfortável, o filme guarda seu plot twist para o final e um encerramento genial que endossa sua força na concorrida disputa.
Surfando na pegada do sobrenatural, vemPecadores (Sinners), com a impressionante marca de dezesseis indicações ao Oscar. Dirigido e roteirizado por Ryan Coogler, premiado em outros longas como Pantera Negra (2018), o longa mistura terror, drama e Southern Gothic para contar a sagados irmãos gêmeos Fumaça e Fuligem, interpretados duplamente pelo elogiado Michael B. Jordan. A história se passa no Mississipi, em 1932, época de extrema segregação racial nos Estados Unidos. Os irmãos voltam para casa depois de uma temporada com Al Capone em Chicago, com a intenção de abrir um juke joint — estabelecimento informal que servia como ponto de encontro para a comunidade afro-americana —, trazendoapresentações musicais de artistas. Entre as atrações, temos o Sammie (Miles Caton), filho de um pastor que canta lindamente, à revelia paterna. Aqui, a direção de Coogler flerta com o gênero Musical ao estender algumas sequências com o Sammiecantando no saloon, rodeado pelo elenco dançando. O filme demora a acontecer porque explica e apresenta muitos personagens antes do clímax. Até que, quando finalmente estamos dentro do clube, no auge da cantoria, começa a ação: demôniosvampíricos batem à porta para se juntar a trupe emorder o pescocinho de todo mundo. Um olhar superficial até aqui pode pensar que se trata de mais um famigerado blockbuster. Afinal, as cenas de briga e porradaria, na minha modesta opinião, são insuficientes para quem espera o impacto que o filme promete. Levei um tempo para entender que Pecadores não é sobre vampiros, ele tem camadas raciais profundas. A ameaça sobrenatural é simbológica: ela dialoga com a exploração histórica da cultura negra e com a disputa em torno da música como força espiritual, comunitária e identitária. Sim, o filme é uma denúncia dopanorama social histórico, cuja alegoria fantasmagórica visa resgatar memória negra, apropriação cultural, ancestralidade, sobrevivência e liberdade. Diante da complexidade destas questões, o colorido decisivo é a colaboração musical, totalmente ligada ao universo do blues. O sueco Ludwig Göransson pensou na trilha como parte da própria dramaturgia, compondo boa parte dela com um violão ressonador Dobro de 1932, igual ao que empunha o jovem Sammie. Do melancólico e lento slow blues ao dançante boogie-woogie, a dialética musical é um êxito notável, com destaque para a canção ““I Lied to You”, escrita por Raphael Saadiqe pelo próprio Göransson. A maior surpresa desse longa, particularmente, acontece na última cena, quando o Sammie velhinho é interpretado por nada menos que o lendário Buddy Guy. Um final apoteótico, digno da magnitude simbólica de um bom entretenimento.
Mas nem só de títulos fantásticos vive a listinha da Tacy! Fugindo completamente da linhacinematográfica apresentada até aqui, está Sonhos de Trem (Train Dreams), dirigido por Clint Bentley e produzido pela Netflix. Um filme profundo sobre a experiência da resiliência humana, baseado no conto do romancista Denis Johnson. Um drama que acompanha um homem comum – Robert Grainier(Joel Edgerton) atravessado pela perda e pela culpa. Robert cresce em meio à dureza do trabalho e à vastidão da paisagem, ajudando a expandir o império ferroviário dos EUA ao lado de homens tão solitários como ele. Até conhecer Gladys (Felicity Jones) por quem se apaixona e forma uma família. Não há viradas supersônicas na trama, exceto pelo incêndio florestal que acaba pondo em chamas a casa de sua mulher e filha enquanto estava fora. Quando ele chega, já é tarde. É comovente compartilhar seu processo de luto. Robert é um protagonista que quase não fala. Ele comunica através de silêncios, interjeições, lágrimas e expressões que valem mais que mil palavras. Assistimos seus altos e baixos, seu cotidiano, sua luta. Não à toa, o ator Joel ganhou o Globo de Ouro. A poesia do filme está nesse mosaico da passagem do tempo de um ser humano pela vida, um retrato narrativo da existência do personagem, com cenas contemplativas da natureza em luz natural. Inclusive, a fotografia do filme é o seu maior destaque, assinada pelo brasileiro Adolpho Veloso. O filme também concorre na categoria de Melhor Canção Original — “Train Dreams”, interpretada por Nick Cave e composta por Bryce Dessner, músico e autor conhecido pelo trabalho com a banda The National.Em Sonhos de Trem, Dessner capricha na mistura de instrumentos antigos e acústicos — como uprightpiano, harmônio, violões, uukulelê, órgão de fole, banjo e microfones vintage — com elementos contemporâneos e texturas processadas/sintetizadas. Uma combinação ao mesmo tempo rústica, íntima e expansiva para amplificar os assombros da alma.
No fim das contas, talvez o ponto em comum entre esses filmes nem seja só a indicação ao Oscar, mas o fato de que todos, cada um à sua maneira, ainda acreditam que cinema pode ser mais do que algoritmo, fórmula de streaming e roteiro com cara de palestra motivacional. Em tempos de histórias rasas e emoções plastificadas, encontrar obras que apostam no assombro, na memória, no risco e na densidade já é quase um pequeno milagre. E talvez seja por isso que, entre tantos títulos esquecíveis, esses cinco tenham ficado comigo: porque não pedem apenas que a gente assista — pedem que a gente permaneça neles um pouco depois do fim.

