Colunista
O insólito do amar e cuidar
O espetáculo é um divertimento, só que mais do que isso, é também esse espaço de repensar os afetos, os cuidados e as experiências, mesmo que para isso a experiência se dê pensando no extremo que a história coloca.
Foto: Rodrigo Menezes
Por gabriel m. barros
A literatura é uma das artes em que o imaginativo ganha força e o imprevisto se torna mote para maiores desventuras. A união entre literatura e teatro é longeva e segue viva com espetáculos de diferentes montagens e perspectivas.
É nessa perspectiva de tornar uma obra literária em acontecimento cênico que Inez Viana dirige a fabulação de Andrea del Fuego, dando corpo, voz e movimento para os acontecimentos insólitos de A pediatra, encenado por Debora Lamm e Luis Antonio Fortes.
Num resumo ligeiro, a pediatra não gosta de crianças, até que passa a atender o filho do seu amante e aí se ver perdidamente apaixonada pela criança, querendo se fazer mãe do mesmo.
É dessa construção inesperada que Debora Lamm dá corpo para uma médica que fala com o público e apresenta seus dilemas. Como quem sabe dominar a cena, intercalar momentos de tensão e deboche, Lamm não só convence o público, mas quase o coloca no bolso e o conduz na construção dessa história insólita. É hilária no que faz, e o faz com uma leveza, mesmo nos momentos mais inesperados.
Essa construção não se daria sem o seu parceiro de cena, Luis Antonio, que joga com ela e também com o público não só como quem se diverte, e sim como quem descobre as várias nuances do que vai narrando e nas personagens que ao narrar, acaba também dando vida. Ele é o pai, esposo e amante, mas também dá vida ao médico novo na cidade, vai tecendo isso como quem conta uma história. Fortes e Lamm são Sheherazade que vão seduzindo com uma boa conversa e com seus corpos, envolvendo o público e os deixando encantados.
Aliás, mostra disso já se apresenta desde o início, quando se faz o uso da voz em off enquanto os atores fazem uma cena, que mais à frente no espetáculo será recuperada, é um recurso cênico singelo, mas que consegue prender o espectador desde o início.
A história coloca em dilema o amor e o cuidar. O insólito presente nessas duas coisas. Quando o cuidar é apenas burocrático ele tem inúmeras falhas, contudo quando se passa a amar, dentro desse cuidar, também tem várias problemáticas. Aliás, a proximidade entre amar e cuidar, o imbricamento deles carrega em si perigo. Tudo isso é colocado em cena e obviamente, a dúvida que corrói: a gente sabe mesmo o que é amar? E cuidar?
O espetáculo é um divertimento, só que mais do que isso, é também esse espaço de repensar os afetos, os cuidados e as experiências, mesmo que para isso a experiência se dê pensando no extremo que a história coloca.

